Carl Jung: a biografia do pai da psicologia profunda

julho 26, 2019
Carl Jung fundou a psicologia analítica em uma tentativa de se aprofundar no mistério do inconsciente e nos símbolos oníricos que povoam a nossa psique.

A biografia de Carl Jung mostra que ele foi um dos psicólogos que mais se destacaram na história. Seu legado é uma alquimia fascinante, que passa pela psicologia analítica, pelo inconsciente coletivo, pela espiritualidade, pelo humanismo e pela mitologia.

Para esse pioneiro da ciência dos sonhos, compreender a psique supunha, acima de tudo, revelar o Eu, tornar consciente o inconsciente. É por isso que a biografia de Carl Jung é tão interessante.

Quando pronunciamos o nome de Jung é comum que imediatamente venha a mente uma série de conceitos. Entre eles temos os arquétipos, a sincronicidade ou o já citado inconsciente coletivo.

Algo que, no entanto, frequentemente esquecemos sobre essa e outras notáveis figuras da psicologia do século XX é que foram, acima de tudo, grandes pensadores.

Carl Jung também se destacou muito por esse aspecto. Quase no final de sua vida, realizou uma série de reflexões que no dia de hoje ainda são muito inspiradoras.

Para ele, a psicologia é uma ferramenta básica para o ser humano. É um canal de autoconhecimento por meio do qual podemos entender a origem de nossas sombras, dos medos que limitam as nossas vidas.

Nós somos capazes de desencadear as mais terríveis guerras e os conflitos mais irracionais. No entanto, se conseguíssemos conhecer um pouco melhor a nossa psique e as energias aderidas à nossa arquitetura mais profunda, teríamos, segundo Jung, vidas mais iluminadas, respeitosas e felizes.

Afinal, o conhecimento é revelador e liberta.

“Sua visão só se tornará clara se você for capaz de olhar para o seu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”.
-Carl Jung-

Foto de Carl Jung

Quando um sonho muda tudo: um importante episódio na biografia de Carl Jung

Carl Gustav Jung nasceu no dia 26 de julho de 1875 em Kesswil, na Suíça. Seu pai era um padre protestante e sua mãe, Emilie Preiswerk, passava longas temporadas reclusa em instituições devido a diversos tratamentos psiquiátricos.

Ele teve três irmãos, mas eles faleceram quando ainda eram jovens. No meio desse cenário tão complexo e também desolador, o pequeno Carl não demorou muito para desenvolver uma personalidade solitária e observadora.

Ele adorava a natureza, a história, a filosofia, e gostava de se fechar em seu mundo interior. Dessa forma, algo que ficou muito claro para ele desde o início foi que não desejava seguir o mesmo caminho religioso que seu pai e seu avô, apesar da vontade de ambos. Ele tinha seu próprio destino.

Como ele mesmo nos revelou anos depois em diversas entrevistas, sua vida mudou após um sonho que teve ainda na infância. Para ele, esse sonho foi algo determinante: sonhou que caía em um buraco escuro, que o levou para os aposentos reais de um palácio com tetos altos e tapetes vermelhos.

No centro da sala na qual ele se encontrava havia uma árvore de aparência humana, sinistra e obscura. Ao fundo, a voz de sua mãe gritava para que ele se afastasse: era o devorador de homens.

“Brincava sozinho, e do meu jeito. Infelizmente não posso me lembrar do que eu brincava, só me lembro que não queria que me incomodassem”.
-Biografia de Carl Gustav Jung, Ronald Hayman-

Carl Jung, o alienista

Carl Jung achou que o sentido desse sonho estava muito claro: ele precisava compreender o mistério do mundo onírico. Ansiava se aprofundar em suas mensagens, em suas imagens e seus símbolos. Talvez por isso ele tenha pensado, em um primeiro momento, em estudar arqueologia.

Por falta de dinheiro em sua família, no entanto, ele acabou se graduando em medicina em 1900 na Universidade da Basileia.

Justamente quando ele ia começar a trabalhar como assistente de um médico, a causalidade apareceu de novo em sua vida. Só que dessa vez não foi um sonho que marcou o seu destino, e sim um livro, um manual de psiquiatria. Nesse manual, ele leu sobre a origem da psicose e dos transtornos de personalidade.

Jung pensou em sua mãe e também na sua própria necessidade de compreender a arquitetura psicológica do ser humano. Então, sentiu de novo uma forte determinação: a de se converter em um alienista – lembremos que nessa época os psicólogos que tratavam dos problemas mentais eram chamados desse modo.

Ele deixou de lado o seu futuro como assistente médico e entrou no mundo de uma ciência ainda não muito reconhecida, e por isso com pouco prestígio, que era a psiquiatria.

Carl Jung jovem

Fascinação e desavenças com Sigmund Freud

Entre 1900 e 1906, Carl Jung trabalhou com Eugen Bleuler, um psicólogo pioneiro na compreensão das doenças mentais.

Foi nessa época que ele descobriu como certas palavras provocavam respostas emocionais nos pacientes. Algo que, no seu parecer, representava nada mais nada menos que associações subconscientes, pistas dos complexos próprios de cada pessoa.

  • Todas essas análises foram publicadas no seu livro Studies in Word Association, um trabalho que ele não hesitou em enviar para outra figura importante daquela época, e que era uma referência para ele: Sigmund Freud.
  • Freud se converteu em pouco tempo no mentor de Jung. Aquela união durou 10 anos. No entanto, como o próprio Carl Jung explicou anos depois, Freud não tinha educação filosófica e as conversas com ele eram rígidas, limitadas e cheias de discrepâncias.
  • Dessa forma, e ainda que ambos tenham concordado quanto à relevância do mundo inconsciente para o ser humano, Jung defendia uma ideia coletiva sobre o mesmo, enquanto Freud advogava por um inconsciente individual. Essa diferença, somada a discordâncias sobre as teorias sobre a sexualidade, acabou criando uma distância intransponível entre os dois psiquiatras.

A psicologia analítica e os tipos psicológicos

Romper com o universo pessoal e teórico de Freud trouxe algumas consequências para Carl Jung. As portas dos círculos acadêmicos mais relevantes foram fechadas para ele, como por exemplo as da Sociedade Psicanalítica Internacional.

No entanto, depois de sofrer uma crise nervosa, ele colocou como propósito de vida desenvolver as suas ideias, defendê-las e criar sua própria abordagem pessoal: a psicologia analítica.

Ele argumentou que a evidência empírica não era a única forma de chegar a verdades psicológicas ou científicas. Para Jung, a alma também desempenhava um papel essencial no conhecimento da psique. Desse modo, as principais contribuições dessa perspectiva foram as seguintes:

  • O inconsciente coletivo. Faz referência a uma camada profunda da psique,  inconsciente, que cada geração compartilha como um todo, sem importar a sua cultura. É nesse cenário psíquico que estão nossos sonhos e pesadelos, construídos com base em uma mesma simbologia, nas mesmas figuras e mitos que todos os humanos têm e tiveram em comum ao longo da história.
  • Os arquétipos. São os constructos psíquicos que habitam o nosso inconsciente e que todos herdamos. São como marcas de personalidade em que figuras como a sombra, a figura do pai, da mãe ou do herói se destacam, e determinam também o nosso comportamento.
  • A análise dos sonhos e a interpretação dos símbolos do inconsciente foi outra área importante do legado junguiano.
  • Complexos psicológicos. Fazem referência ao conjunto de sentimentos inconscientes que adquirimos na infância e que determinam a nossa personalidade.
  • A teoria da personalidade. A abordagem de Jung partia de dois conceitos dos quais todos nós já ouvimos falar inúmeras vezes: a introversão e a extroversão. Além disso, ele definiu as funções que cumprem processos como a sensação, o pensamento, a intuição e o sentimento para cada uma dessas personalidades.
Representação do inconsciente da mente humana

Carl Jung, um cientista pouco convencional

Gary Lachman afirmou na biografia que ele escreveu sobre Carl Jung que grande parte da comunidade acadêmica da época o considerou mais um místico que um cientista. Na verdade, ainda hoje algumas pessoas afirmam o mesmo.

Ele passou grande parte de sua vida navegando entre o tangível e o espiritual, pesquisando culturas primitivas, rituais, cosmogonias e mitologias a partir das quais seria possível se aprofundar na noite psíquica da humanidade onde, segundo ele, podemos encontrar todas as respostas.

Grande parte dessas revelações foram eternizadas no Livro Vermelho, uma obra estranha mas também fascinante que foi publicada apenas anos depois do seu falecimento, aos 85 anos.

Apesar dessas correntes gnósticas e espirituais, Carl Jung chegou a ser vice-presidente honorário da Associação Alemã de Psicoterapia, e é considerado um dos psicólogos mais relevantes do século XX.

Apesar de não ter fundado nenhuma escola da psicologia, hoje em dia contamos com a corrente junguiana, uma abordagem terapêutica que aplica esses conceitos analíticos para seguir revelando os mistérios do inconsciente e o psiquismo profundo habitado por nossos arquétipos.

“As lembranças dos acontecimentos externos da minha vida já se desvaneceram ou até desapareceram em grande medida. Mas meus encontros com a outra realidade, minhas brigas com o inconsciente, estes estão guardados de forma permanente na minha memória”
-C.G Jung, Memórias, sonhos e reflexões, 1961-

  •  Hayman Ronald (1999). A Life of Jung. W. W. Norton & Company.
  • Aniela Jaffé, (1989) Was C.G. Jung a Mystic?and Other Essays.
  • Gary Lachman (2010) Jung the Mystic: The Esoteric Dimensions of Carl Jung’s Life and Teachings.
  • Albert Oeri (1997). “Some Youthful Memories,” in C.G. Jung Speaking: Interviews and Encounters. William McGuire and R.F.C. Hull.