Aprender com o inesperado

14 Março, 2021
Aprender com o inesperado é essencial para fundamentar o nosso conhecimento do mundo. Essa capacidade, como mostram as pesquisas, já está presente em bebês a partir dos 11 meses.

Quando o mundo é previsível e tudo que existe nele se comporta como esperado, a nossa atenção diminui, pois tudo acontece como imaginamos. Não há surpresas. No entanto, quando ocorre um evento repentino que quebra as nossas expectativas, prestamos o máximo de atenção possível e, em alguns casos, podemos aprender com o inesperado.

Assim, pode-se afirmar que não há aprendizagem sem atenção e que a atenção é facilmente direcionada para o que nos surpreende. A surpresa é, portanto, muito mais fácil de memorizar ou, pelo menos, de capturar a nossa atenção ou interesse.

Neste artigo, analisaremos o que é e como aprender com o inesperado. Descobriremos também que essa capacidade está presente quase desde o nascimento e que, sem dúvida, é uma alternativa às concepções clássicas de aprendizagem. Alguns psicólogos e pedagogos levam esses processos em consideração.

Aprender com o inesperado: conceitos gerais

Às vezes, a ciência não progride pelo curso normal da lógica. Curiosamente, exatamente a mesma coisa acontece com os humanos: aprender com o inesperado costuma ser muito mais eficiente do que aprender com um mundo previsível.

Nessa linha, as pesquisadoras Stahl, A. e Feigenson, L. (2015) publicaram um artigo na revista Science em que descrevem esse fenômeno. Além disso, elas explicam que bebês de 11 meses ficam entediados quando o mundo e os objetos se comportam de maneiras previsíveis.

As autoras observaram que os bebês paravam rapidamente de prestar atenção a uma bola que se movia de forma previsível. Porém, em uma condição experimental diferente, eles focavam muita atenção em uma bola que se movia de forma incomum, inclusive atravessando paredes. 

Bebê brincando no chão

Já nascemos cientistas

De alguma forma, ao nascer, parece que já nos comportamos como cientistas. Nesse sentido, os bebês que participaram do referido estudo não se limitavam a aprender com o inesperado (como aconteceu com a bola que atravessou as paredes), mas também queriam interagir com aqueles objetos de comportamento inesperado.

Assim, da mesma forma que os cientistas ao observar um fato querem testar as suas hipóteses para vivenciar o que acontece, os bebês também se comportam de maneira semelhante.

Por exemplo, quando os bebês viam a bola atravessar a parede, eles tentavam pegá-la. Além disso, uma vez com ela nas mãos, eles a apertavam e batiam. Queriam verificar se era um objeto sólido? Queriam interagir com a bola?

Em outra condição experimental, os bebês viram uma bola se mover e passar por um buraco, mas sem realmente cair nele. Qualquer um esperava que a bola caísse pelo buraco, mas não aconteceu. Isso foi totalmente inesperado para os bebês.

Nesse caso, assim que tiveram oportunidade, os bebês foram até a bola e começaram a experimentá-la, jogando-a várias vezes no chão, como se quisessem verificar se obedecia às leis da gravidade. Não é surpreendente?

Os mistérios de aprender com o inesperado

Para a ciência, os mistérios de aprender com o inesperado ainda estão longe de ser explicados. Por que isso acontece? Temos algum tipo de programação inata para entender as leis da física? Essa questão geraria um debate acalorado entre inatistas e ambientalistas. Quem terá razão?

É bastante surpreendente que os bebês nesta idade pareçam detectar o que desafia as leis da física. Não só isso: eles também tendem a explorar e tentar entender eventos “fisicamente” inesperados.

Assim, nas pesquisas das autoras citadas, parece estar demonstrada a existência de leis inatas da física, visto que é extremamente improvável que bebês dessa idade possam fazer inferências lógico-causais como se tivessem um raciocínio avançado.

Bebê brincando com bolas

Conclusões sobre o fenômeno de aprender com o inesperado

Conforme aponta o estudo supracitado, as principais conclusões sobre o fenômeno de aprender com o inesperado podem ser resumidas da seguinte forma:

  • Os bebês tentam aprender mais sobre o novo, o inesperado, sobre aquilo que quebra os seus esquemas. Além disso, eles parecem discriminar entre o que é previsível e o que é inesperado.
  • Na verdade, parece que os bebês podem fazer previsões sobre o que acontecerá com um objeto, de modo que, se algo que eles acham que vai acontecer não acontece, se surpreendem e passam a explorar o fenômeno.
  • Quando as previsões sobre os eventos revelam-se diferentes do esperado, os bebês exploram essa dissonância para aprender mais sobre o mundo ao seu redor.
  • Até o momento, a capacidade de aprendizagem humana havia sido subestimada, uma vez que as circunstâncias para esse novo e diferente tipo de aprendizagem já existem nos bebês.

Com todos esses dados, ainda permaneceremos ancorados aos velhos paradigmas da aprendizagem humana?

  • Melgar, María Fernanda, et al. “El poder educativo de lo inesperado: Estudio de experiencias innovadoras en la universidad.” Cuadernos de Investigación Educativa 7.2 (2016): 31-47.
  • Pearce, John M., and Geoffrey Hall. “Un modelo de aprendizaje pavloviano: Variaciones en la efectividad de los estímulos condicionados pero no de los incondicionados.” Revista de psicología General y Aplicada (1983).
  • Vogel, Edgar, et al. “Modelos matemáticos del condicionamiento clásico: evolución y desafíos actuales.” Revista Latinoamericana de Psicología 38.2 (2006): 215-243.