Aristóteles e a felicidade como fim último da vida humana

Para surpresa de muitos, há mais de 2000 anos que os filósofos refletem questões que ainda hoje nós mesmos pensamos. Uma delas tem a ver com a felicidade da comunidade e do indivíduo. Você gostaria de nos acompanhar nessa busca?
Aristóteles e a felicidade como fim último da vida humana
Sergio De Dios González

Escrito e verificado por o psicólogo Sergio De Dios González.

Última atualização: 04 maio, 2023

Todas as pessoas querem ser felizes, mas o que é felicidade? Aristóteles já se perguntou há séculos e neste artigo vamos rever algumas das conclusões a que chegou.

Na Ética a Nicômaco ele constrói sua teoria sobre a felicidade e a vida boa. Esse livro pertence à ética, um ramo da filosofia que faz perguntas como: O que é o mal? O que é bom? Como podemos agir corretamente? Como podemos ter uma vida feliz apesar das vicissitudes da existência?

Nesta ocasião vamos mergulhar na ética de Aristóteles: uma linha de pensamento que ainda é válida hoje.

O que é a felicidade segundo Aristóteles?

A felicidade é um conceito central na ética de Aristóteles. Em sua Ética a Nicômaco, o filósofo argumenta que a felicidade é o objetivo final da vida humana. O que ele quer dizer com isso?

Toda ação humana é composta de meios e fins. Por exemplo, se nosso fim é comer (estamos com fome), então os meios serão todas aquelas ações que realizamos para satisfazer nossa necessidade. Eles podem estar pensando sobre o que queremos comer, quais ingredientes precisamos, comprá-los, cozinhar, etc.

Agora, de acordo com Aristóteles, há um fim último na vida humana. Isso significa que há um ponto para o qual aponta o conjunto de meios e fins que realizamos ao longo de nossas vidas. Se perguntarmos a um velho se sua vida é feliz, sua resposta incluirá todas as ações que ele realizou ao longo de sua existência.

É importante destacar que para Aristóteles os jovens não podem aspirar à felicidade como propõe o filósofo, pois só é possível acessá-la por meio da prática e da experiência. As crianças e os jovens encontram-se numa fase anterior, onde domina a aprendizagem; quanto mais experiências acumularem, mais perto estarão de alcançar a felicidade, entendida como o fim último da vida.

A mulher afro-americana sorri
Para Aristóteles, a felicidade é possível através da prática e da experiência.

Virtude e felicidade em Aristóteles

A virtude em Aristóteles é outro conceito importante, pois aspirando a ela podemos alcançar a felicidade. Entende por virtude o desempenho ótimo ou excelente de uma função ou ação. E essas ações são os hábitos do nosso caráter, ou seja, são essas ações que nos formam como pessoas virtuosas. Somente esses hábitos de caráter podem ser considerados bons ou ruins.

Portanto, segundo Aristóteles, a felicidade é um estado de completo bem-estar que se alcança por meio da prática da virtude. Ela é completa porque só ela é necessária para que a vida tenha um valor em si mesma.

A virtude se conquista com a prática e o hábito, ou seja, é um exercício. Aristóteles diz que não nascemos virtuosos, mas nos tornamos virtuosos. Portanto, para o filósofo, a felicidade não é algo que se conquista ao acaso, mas é resultado de um esforço constante e sustentado.

Virtudes éticas e a felicidade em Aristóteles

As virtudes éticas, ou seja, a excelência do nosso caráter, estão em contínua tensão entre a vontade e a razão. Não devemos esquecer que para Aristóteles a função do homem que o diferencia das demais espécies é a razão ou o pensamento. Mas sabemos que não somos apenas seres dotados de inteligência, mas também temos desejos ou paixões.

Por isso, é importante destacar o papel do hábito no caminho das virtudes éticas e da felicidade, pois não forjaremos ações ou um caráter virtuoso de uma só vez. Assim, a razão deve regular os desejos de alcançar a virtude. Como conseguimos isso? Através de outro conceito de Aristóteles: o ponto médio ou mediania.

Ponto médio e a conquista da felicidade

Aristóteles sustenta que a virtude é o equilíbrio entre dois extremos. A excelência do caráter é alcançada quando se encontra a harmonia certa entre esses extremos, um dos quais é por excesso e o outro é por falta. Por exemplo, a moderação é o ponto médio ou o equilíbrio entre seu excesso, que é libertinagem, e seu defeito, que é privação.

Quanto mais nos esforçarmos para ter um caráter equilibrado, mais nos moveremos para o meio termo e evitaremos os extremos. Somente através da implementação de ações podemos aprender e adquirir virtudes éticas, ou seja, se queremos ser justos, devemos praticar atos justos.

Vontade e escolha: o caminho para a felicidade

Aristóteles considera que as ações que contam são aquelas que as pessoas realizam no pleno uso de sua liberdade e pleno conhecimento das circunstâncias em que se desenvolve. Se alguém faz algo compelido ou sob coação, essa ação não é moralmente relevante.

Por outro lado, além do hábito, como se baseia o ponto médio ou o mediania? Através da escolha, que é fruto de deliberação ou reflexão. Aqui novamente os meios e os fins têm um papel importante, pois para um determinado fim são avaliados os melhores meios para realizá-lo. Assim pensado, pode ser considerado como um plano de ação, que como um todo nos conduz no caminho da felicidade.

pés andando
No caminho para a felicidade, a vontade e a liberdade são importantes.

Comunidade e felicidade segundo Aristóteles

Aristóteles argumenta que a felicidade não é algo que pode ser alcançado isoladamente, mas sim é parte integrante de uma vida bem vivida em comunidade. Portanto, importa a felicidade do todo, não apenas a felicidade do indivíduo isolado. A virtude é essencial para viver em harmonia com os outros, e a felicidade é alcançada quando se vive em uma comunidade virtuosa.

Tanto que na atualidade as investigações da Ética a Nicômaco foram retomadas para pensar como a filosofia de Aristóteles pode nos ajudar a pensar não só a comunidade, mas também a educação. Porque, como já foi dito, a felicidade do indivíduo isolado não importa tanto quanto a felicidade da comunidade.

Portanto, compromete-se com uma educação das virtudes em que predomine a prudência como virtude predominante.

Bem, para Aristóteles, a felicidade é o fim último da vida humana e é alcançada por meio da prática da virtude. A virtude é alcançada por meio da prática e do hábito; além disso, escolhas racionais e inteligentes para a execução dos fins moldam um caráter virtuoso. Na mesma linha, a felicidade é definida como um estado de equilíbrio e mediania, somado ao fato de que é essencial viver em harmonia em uma comunidade virtuosa.

Provavelmente, essa explicação está longe do conceito atual, um tanto impaciente, de felicidade. Para alguns, pode significar a obtenção de bens materiais, para outros, evitar certas sensações, como a dor.

Como vimos, Aristóteles tem uma ideia própria de felicidade e, embora já tenham passado alguns anos desde que a formulou, podemos considerá-la e incluir dela o que queremos, o que nos faz mais felizes, em nossa própria definição de felicidade.

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