A armadilha da motivação: esperar que a vontade apareça num passe de mágica

janeiro 11, 2020
Costumamos dizer que estamos desmotivados porque nos sentimos perdidos, inseguros e desconfiados em relação ao nosso objetivo, enquanto esperamos que a vontade de continuar surja como num passe de mágica. No entanto, segundo Russ Harris, estamos nos confundindo. Saiba mais sobre a armadilha da motivação.

Quem não gosta de estar motivado? Desfrutar desse impulso que nos leva a continuar, a seguir em frente, que nos sussurra que é possível realizar nossos sonhos e que nos anima a lutar porque ficamos inspirados é realmente fascinante. No entanto, são muitos os que caem na armadilha da motivação quando suas forças fraquejam e a desilusão e as dúvidas se tornam presentes, ou quando desejam conseguir algo, mas não sabem por onde começar.

“Antes de qualquer outra coisa, a preparação é a chave do sucesso”.
-Alexander Graham Bell-

Mulher motivada e determinada

O que é a motivação?

Segundo o médico e psicoterapeuta inglês Russ Harris, não ter motivação é impossível, já que em cada ação que realizamos existe um certo grau de motivação subjacente. De alguma maneira, cada comportamento que colocamos em prática tem como finalidade conseguir algo.

Ter uma conversa, comer um doce, dirigir, avisar que estamos doentes, fazer uma chamada telefônica, sentar-se no sofá, ler um livro ou falar sobre qualquer tema; todas e cada uma das ações anteriores têm um propósito, uma intenção, uma motivação, mesmo que não nos demos conta.

Então, em que consiste a motivação? Segundo Harris, no desejo de fazer algo. Estar motivado não é sentir uma magia poderosa que nos leva a agir repentinamente, nem uma inspiração divina que nos inunda, e sim desejar fazer algo. Assim, sem mais.

Para entender melhor, vamos expor um exemplo. Uma pessoa está escrevendo um livro há meses, mas há uma semana percebeu que está desmotivada porque não tem tempo e chega em casa cansada do trabalho. Ela não escreve mais, e passa esse tempo assistindo televisão ou deitada no sofá.

Nessa situação, o desejo de ver televisão ou ficar deitado no sofá é muito maior do que o desejo de continuar escrevendo o livro. A pessoa pensa que quer escrever, mas não tem vontade nem tempo, está esgotada. No entanto, qual é o propósito de ver televisão ou ficar no sofá?

Talvez seja relaxar, estar confortável ou calmo, ou seja, se sentir bem a curto prazo ao evitar o incômodo de escrever. O que acontece é que, a longo prazo, isso não ajuda a pessoa a realizar o seu sonho.

Na verdade, em vez de não ter motivação, o que acontece é que a motivação de evitar o mal-estar e fazer o que se quer a longo prazo se impõe à motivação de escrever, publicar um livro e compartilhar o melhor de si mesmo com os demais.

Portanto, quando dizemos que não estamos motivados, o que realmente queremos dizer é que desejamos fazer algo que é importante para nós, mas que não estamos dispostos a colocar em prática se não estivermos felizes, seguros, confiantes e cheios de energia.

Assim, enquanto estivermos cansados, inseguros, desconfiados ou preguiçosos, dificilmente vamos nos dedicar àquela tarefa…

“Não fique sentado esperando que as coisas cheguem até você. Lute pelo que você quer, torne-se responsável por si mesmo”.
-Michel Tanus-

A armadilha da motivação

Se entendermos a motivação como um sentimento, é muito provável que acabemos estagnados. Assim, quando nos sentirmos bem, positivos e animados, diremos que estamos motivados, mas se estes sentimentos se apagarem ou desaparecerem, diremos que estamos desmotivados. Por quê?

É muito simples. A motivação como um sentimento nos leva a cair na armadilha de pretender experimentar os sentimentos adequados antes de iniciar qualquer ação, portanto, ficamos estagnados esperando.

Esta é a armadilha da motivação. A questão é: você realmente acredita que a motivação vai aparecer como num passe de mágica?

Se reconhecermos a motivação como um desejo, mais do que como um sentimento, tudo vai ser diferente, pois será possível mudar o nosso comportamento. Dessa maneira, poderemos avaliar os diferentes desejos que temos e reconhecer o que motiva cada uma das nossas decisões.

Além disso, poderemos diferenciar entre os desejos encaminhados para evitar o mal-estar e aqueles que estão de acordo com os nossos valores.

Depende de nós querer uma vida regida pela evitação ou uma vida regida pelos nossos valores. Não podemos nos esquecer de que um dos nossos instintos mais básicos é o desejo de evitar 0 mal-estar, por isso não é possível eliminar esta tendência, mas sim decidir agir segundo os nossos valores. Não é que tenhamos que estar motivados, mas sim comprometidos com o que queremos.

Assim, segundo Russ Harris, a ação comprometida é o primeiro passo; sentir-se motivado vem depois. Ou seja, primeiro as ações e depois os sentimentos. É muito mais enriquecedor e satisfatório agir de acordo com os nossos valores.

Os sentimentos que desejamos podem surgir depois, embora isso nem sempre aconteça, já que não há garantias no que diz respeito aos sentimentos.

Subir a escada rumo aos seus sonhos

Os argumentos da nossa mente

À armadilha da motivação precisamos somar todas as mensagens que a mídia, alguns livros e pessoas nos enviam constantemente sobre quais são as estratégias necessárias para estar motivado. Geralmente, costumam citar dois aspectos: a disciplina e a força de vontade.

O que ocorre é que, se acreditarmos nisso, vamos cair novamente na armadilha da motivação.

  • Em primeiro lugar, vamos seguir buscando uma fórmula mágica que nos faça sentir motivados, em vez de nos comprometermos com a ação.
  • Em segundo lugar, quando não a encontrarmos, vamos tomar a decisão de parar de fazer o que nos importa porque a disciplina e a força de vontade que temos não são suficientes.

Se refletirmos sobre isso, nos daremos conta de que tanto a disciplina quanto a força de vontade são outras formas de nomear o comprometimento de acordo com uma série de valores, assim como fazer o que for necessário para conseguir o que queremos, embora em alguns momentos não tenhamos vontade.

É preciso descartar a crença de que a vontade surge num passe de mágica e começar a cultivar uma atitude comprometida com o nosso objetivo. Porque não podemos nos esquecer de que, primeiro, ele precisa ser coerente com os nossos valores, independentemente de como nos sentimos. Uma vez estabelecido este hábito, o sentimento de disciplina ou força de vontade surgirá.

Portanto, é o momento de abandonar a sala de espera da motivação e dar o passo para se comprometer com o seu objetivo de acordo com o seu sistema de valores. Somente assim vai surgir aquela vontade que tanto desejamos e que, de alguma maneira, nos impulsiona a realizar os nossos sonhos.

  • Harris, Russ (2012). Cuestión de confianza. Del miedo a la libertad. Sal Terrae.