Arrependimentos - A Mente é Maravilhosa

Arrependimentos

Valéria Sílvia Pires 27, junho 2017 em Emoções 321 Compartilhados
Mulher sofrendo com arrependimentos

Penso serem poucas as pessoas que fizeram tudo o que quiseram, desejaram ou sentiram vontade na hora e no momento certos. O mais comum é encontrarmos pessoas que arrastam pela vida situações mal resolvidas, frustrações, decepções e tudo que já ficou para trás e não faz mais sentido no presente. O ideal seria se conseguíssemos resolver o que é possível e está a nosso alcance e seguíssemos adiante, sem olharmos o que passou ou o que deveria ter acontecido. Mas nem sempre agimos dessa forma. Muitas vezes temos o hábito de pensar no que poderíamos ter feito ou falado e não fizemos, e sofrer diante dessa possibilidade.

Acredito que uma das coisas mais difíceis que existe é chegar lá adiante, próximo ao final de nossa jornada, e constatarmos que o saldo de nossos arrependimentos é maior do que o de nossas realizações. Chegar a uma etapa da vida e ficar de frente com nossas frustrações e nossos pesares… Constatar que a vida passou e ficamos com vários nós e arrependimentos que poderiam ter sido histórias de realizações… Notar que nossos anseios não se concretizaram, que havia situações que poderíamos ter mudado, vivido, escolhido de maneira diferente, mas que, por inúmeros bloqueios nossos, não o fizemos… Concluir que o que tivemos vontade de fazer não realizamos… Perceber as experiências que gostaríamos de haver tido e não vivenciamos…

Quando nos conscientizarmos de que atingimos mais da metade da vida e de que, infelizmente, não há mais tempo para solucionarmos o que ficou para trás, o que não deu certo, o que não foi feito, que os anos que nos sobram não são suficientes para tal e que o tempo não volta, deve bater um enorme desespero. Acho que em momentos assim temos a certeza de que o tempo pode ser um grande aliado em determinadas questões, mas um grande vilão em outras. Ele é implacável com sua própria movimentação, e nada nem ninguém lhe escapa! Resta-nos apenas olhar para a vida e ver com clareza, revelada em preto e branco, a coleção de arrependimentos que juntamos.

Mulher assombrada por seus arrependimentos

Arrependimento por não ter experimentado aquela comida diferente durante a viagem a aquele país exótico. Arrependimento por não ter controlado a ansiedade, a vaidade, e ter metido os pés pelas mãos, quando o momento nos exigia paciência, tolerância e maturidade. Arrependimento por saber que a vida não tem tecla de rewind, uma vez vivida, vivida está, mesmo que o resultado não seja o que esperávamos. Arrependimento por perceber que a vida não nos dá tempo extra para acertar e consertar o que passou e precisa de reparo. Apenas tem esse sentimento quem não disse o que sentia, não viveu o que queria no momento em que os fatos aconteceram.

Arrependemo-nos por não ter abraçado aquela pessoa que amamos e ter confessado nosso amor, quando era essa a vontade dela e a nossa. No entanto, o medo e a insegurança foram maiores, e silenciamos. Arrependemo-nos por não ter impedido a pessoa de nossa vida, naquele último encontro, de partir, quando nosso desejo era que ela ficasse, nem que fosse por mais um segundo, porque queríamos que aquele momento não terminasse nunca, o tempo parasse e a vida não prosseguisse. Arrependemo-nos por não ter nos declarado mais vezes, por ter sido econômicos e não ter dito “eu te amo” todas as vezes que sentimos vontade, por estar presos a convenções e não expressar nem demonstrar o tempo todo o que se sentimos ou o que está dentro do coração. Arrependemo-nos pela escolha que não fizemos, quando sabíamos, mesmo que inconscientemente, que era aquela a pessoa que desejávamos, mas não tivemos coragem de a assumir. Arrependemo-nos por não ter vivido a história que queríamos com quem preenchia nossos sonhos e nos despertava o melhor de nós. Em vez disso, contabilizamos as mudanças que teríamos que fazer e mensuramos do quanto deveríamos abrir mão para iniciar outra história. Optamos pelo conhecido, mesmo que a escolha nos tenha feito tristes, infelizes…

Arrependemo-nos por não ter aceitado aquela proposta de trabalho sensacional e desafiadora com receio de trocar o certo pelo duvidoso e pelas mudanças que nela estavam implícitas: recomeçar, enfrentar o novo… Frustramo-nos, porque o comodismo e o medo falaram mais alto. Arrependemo-nos por não ter passado mais tempo com a família e com nossos idosos, ao quais são fontes inesgotáveis de histórias sensacionais, ensinamentos e grandes lições de vida; isso porque as viagens e os programas com “amigos” eram bem mais interessantes do que a companhia daqueles.

Homem com arrependimentos

Arrependemo-nos por ter ficado em um relacionamento desgastado, ilusório, utilizando como desculpas o status, o patrimônio e os filhos, sendo que estes ainda têm que conviver com a responsabilidade imputada e o peso da relação instável dos pais que permaneceram juntos, porém infelizes, e da culpa indireta deles. Na realidade, estavam por trás as inseguranças, os interesses, os bloqueios, os medos de cada um dos parceiros. Arrependemo-nos por ter desperdiçado a vida, ao entender que seguimos modelos que não eram nossos e levamos uma vida de aparências, de mentiras, de faz de conta, de vitrine.

Não tenho por hábito pensar no que poderia ter feito e não fiz. Penso que fizemos o que pudemos e fomos capazes no instante em que as circunstâncias apareceram, com as ferramentas internas que dispúnhamos. Não dava para ser diferente. Contudo, sem sombra de dúvida, não deve ser fácil ficarmos frente a frente com nossas próprias frustrações e vermos que o que nos restou foi ficarmos debruçados na janela de nossa vida assistindo nossos arrependimentos ou as situações que poderíamos ter mudado e as escolhas diferentes que poderíamos ter feito ─ mas que, por inúmeras dificuldades nossas, não foram possíveis ─ desfilarem diante de nossos olhos. Logo, resta-nos tentar resolver o que ainda é possível e está a nosso alcance, minimizar os efeitos desses contratempos em nossa vida, levantar a cabeça e seguir em frente, pois o futuro é uma verdadeira caixa de surpresas.

Valéria Sílvia Pires

Valéria Sílvia Pires, natural de Itaí, São Paulo, mãe de duas filhas, Advogada e observadora das pessoas e das situações do cotidiano. Autora do Livro: Um pouco de tudo - Editora Garcia - www.editoragarcia.com.br. ou na www.livrariacultura.com.br. Tem uma

Ver perfil »
Recomendados para você