Arte e pós-confito: transformando realidades

Arte e pós-conflito são dois aspectos que podem nos ajudar a deixar de ser prisioneiros de uma experiência traumática. Contamos mais sobre isso nessa incrível viagem.
Arte e pós-confito: transformando realidades

Última atualização: 23 Abril, 2021

Quando somos testemunhas do sofrimento de muitas pessoas em um ambiente de violência, é difícil unir forças para manter o ânimo na vida – mesmo que a situação de violência já tenha cessado e uma nova realidade esteja à frente. Apesar disso, existe uma forma de transformar as realidades que tanto causam desconforto: o segredo está no vínculo entre a arte e o pós-conflito.

Quando falamos de pós-conflito, estamos nos referindo a todos aqueles acontecimentos que surgem depois que um conflito desaparece com acordos de paz. Bom, o que a arte e o pós-conflito têm a ver um com o outro? Por que servem para transformar realidades?

“Começar mal na vida não significa que sua vida precise ser ruim”.
– Boris Cyrulnik –

Pessoa tocando violão

Qual é a relação entre a arte e o pós-conflito?

A arte e o pós-conflito se relacionam de diferentes formas. Vamos ver algumas delas a seguir:

  • Ambos são uma forma de falar de fenômenos. São uma forma de contar relatos. No pós-conflito, de acordo com o artigo “O pós-conflito na Colômbia: desafio para a psiquiatria”, é possível ver isso através do apoio e da recuperação nas atividades de atenção às vítimas, da geração de recursos e emprego, da adequação e fortalecimento de instituições, dos processos sociais de perdão e reconciliação, entre outros fatores. Na arte, isso pode ser visto por meio de processos criativos, exposições, espectadores, etc.
  • Através desses dois fatores, podemos observar relatos compartilhados. No pós-conflito, por meio da realidade de violência pela qual uma comunidade, uma família, etc., está passando ou passou, por exemplo. Na arte, assuntos coletivos podem ser representados através da criação.
  • Eles tocam os aspectos mais profundos do ser humano. Porque ambos afetam emoções, pensamentos e comportamento; no pós-conflito, graças às experiências traumáticas que são evocadas, e na arte, pelos processos inconscientes que surgem na criação e por sermos espectadores dela, de acordo com a história de cada pessoa.
  • São uma forma de transformar a angústia. No pós-conflito, porque a recomposição é assegurada, ou seja, por atividades que levem a transformar, administrar e acabar com o confronto, para preservar a paz e construir ou reconstruir o que foi perdido. Além disso, por meio do processo criativo podemos transformar a dor focando na remodelação da situação traumática que vivemos.

A conexão mais importante entre arte e pós-conflito é que, juntos, eles podem enfatizar a reconstrução do que o trauma prejudicou.

A arte é um elemento transformador de realidades

A arte pode ser um elemento transformador de realidades porque é uma forma de linguagem; portanto, permite a expressão. Sabemos que, após uma violência traumática, é muito difícil explicar em palavras o que aconteceu… e também é difícil conseguir reconhecer e expressar o que houve de forma clara. Portanto, a arte poderia funcionar como um veículo nesses casos, ou seja, com um meio através do qual podemos nos expressar.

Mas, por que isso funcionaria? Nossa mente tem muita dificuldade em acessar os traumas que vivemos. Podemos, inclusive, sentir um mar de emoções e pensamentos, mas não sabemos lidar com eles. Através da arte, podemos começar a transmitir e nos guiar pelas imagens para reconstruir, passo a passo, o que estiver fragilizado em nós.

Então, a arte é uma ferramenta que pode ser utilizada em um processo de pós-conflito. Apresentamos aqui algumas razões para isso:

  • Ajuda a construir uma linguagem coletiva.
  • Causa uma sensação de afeto, pois por meio de processos criativos é possível criar identidade, empatia e até mesmo motivação para continuar e fazer as coisas para e pela comunidade.
  • Protege do isolamento, já que através da arte a pessoa pode se conectar consigo mesma e com os demais.
  • É uma forma de perceber o trauma e buscar apoio, seja por sentir pertencimento à arte ou por outras formas, como a psicoterapia.

A arte é uma real transformadora de realidades pois ela representa uma forma de deixarmos de ser prisioneiros do passado, lidando melhor com o sofrimento. E mais, a arte nos dá motivação para aprender outra forma de conviver com o que aconteceu. Por isso, é uma espécie de ponte que nos ajuda a transformar aquilo que tanto nos incomoda em algo que seja mais saudável para as nossas mentes.

Depois de viver um período de violência, certamente não teremos um caminho fácil pela frente. Porém, a arte pode ser de grande ajuda para integrar em nossa história o que nos causou tanto mal.

No entanto, o processo não acontece na ausência de vontade e iniciativa. Por outro lado, é preciso dizer que existem grupos e estratégias políticas, sociais e educativas que estudam cada processo de pós-conflito para que a intervenção seja a mais assertiva possível, pois cada conflito conta com a sua singularidade.

Mulher dançando

Arte, resiliência e pós-conflito

Como a arte nos leva a transformar realidades traumáticas, também pode ser um fator de resiliência. Uma pessoa que fala sobre isso é Boris Cyrulnik, um neurologista, psiquiatra e psicanalista francês especialista em processos de arte, conflito e resiliência.

Cyrulnik nos convida a pensar que os processos de resiliência começam no pós-conflito, e enxerga a arte como uma ferramenta útil para desenvolver essa capacidade. De fato, ele deu uma palestra chamada “Resiliência e arte, os relatos do trauma”, na qual enfatizou como na Colômbia, após mais de 50 anos de guerra, foi possível fazer da arte um elemento valioso para cultivar a capacidade de se sobrepor às adversidades. Além disso, ele conta com diversos livros relacionados à resiliência como, por exemplo, A Maravilha da Dor: O Sentido da Resiliência.

Existem inúmeras formas de fazer a resiliência surgir através da arte. Alguns exemplos são:

  • Cinema
  • Ópera
  • Literatura
  • Fotografia
  • Pintura
  • Música

Além disso, Cyrulnik vê a psicoterapia como outra forma de arte, já que poderia ajudar a transformar os traumas. Isso porque aqueles que se dedicam à psicoterapia transformam as angústias em uma linguagem que pode ser compreendida pelas pessoas que viveram uma experiência traumática.

A arte é transformadora se for utilizada de forma adequada. Através dela, por exemplo, é possível perceber a resiliência individual e coletiva em pessoas que viveram um trauma durante uma guerra. A arte não é a única alternativa, mas é uma opção importante para as pessoas que precisam se expressar em caminhos de muita dor, gerando motivação e iniciativa – ela age como uma forma de libertação do passado.

Vamos acabar com a guerra, a dor e a angústia e nos armar com elementos da arte, para nos transformarmos e sermos instrumentos de paz para nós e para a nossa comunidade. Assim, podemos avançar em direção ao bem-estar no pós-conflito.

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  • Gómez-Restropo, C. (2003). El posconflicto en Colombia: desafío para la psiquiatría. Revista colombiana de psiquiatría, 32 (2) 130-132.
  • Lara, L., & Cyrulnik, B. (2009). Vencer el trauma por el arte. Cuadernos de pedagogía, (393), 42-47.
  • Cyrulnik, B. (2001). La maravilla del dolor: el sentido de la resiliencia.