As 4 causas psicológicas das guerras, de acordo com Erich Fromm

Erich Fromm, um psicólogo social de origem judaica, foi forçado a fugir da Alemanha depois que o partido nazista chegou ao poder. Como ativista da paz, deixou um legado essencial para refletirmos sobre algo que devemos sempre evitar: as guerras.
As 4 causas psicológicas das guerras, de acordo com Erich Fromm

Última atualização: 08 maio, 2022

De acordo com Erich Fromm, todos os cidadãos se beneficiariam de ter algumas noções básicas para poder interpretar uma guerra a partir do ponto de vista psicológico. Desde o nascimento das primeiras grandes civilizações, tais como Suméria e Egito, nossa história está repleta de conflitos bélicos, e os últimos acontecimentos não parecem alimentar a esperança de que uma mudança ocorra.

Para um bom número de psicólogos evolucionistas, os genes egoístas estariam na base da agressão, do enfrentamento entre nações e até mesmo da violência entre irmãos. Talvez seja assim; pode ser que, de fato, o conflito faça parte da nossa espécie. No entanto, há um dado interessante que convida à reflexão.

Em 2013, os antropólogos Douglas Fry e Patrik Soderberg publicaram um estudo muito ilustrativo sobre a violência. Durante muito tempo, presumiu-se que as guerras já estavam presentes nas sociedades de caçadores-coletores. No entanto, os confrontos letais entre nossos ancestrais mais primitivos não eram comuns.

Havia brigas ocasionais e homicídios. Entretanto, as guerras como tal começaram a se tornar um evento frequente apenas 6.000 anos atrás. Foi William James quem explicou o fato em sua obra The Moral Equivalent of War, em 1910. Mais tarde, Erich Fromm traria outros ensinamentos igualmente relevantes.

“Eu não sei quais armas serão usadas na Terceira Guerra Mundial, mas sei quais serão usadas na Quarta: paus e pedras.”

-Albert Einstein-

As causas psicológicas das guerras de acordo com Erich Fromm
Erich Fromm foi um grande ativista pela paz.

Causas psicológicas das guerras, de acordo com Erich Fromm

Em Anatomia da Destrutividade Humana, Erich Fromm explicou que, muitas vezes, ficamos diante de situações que nos alertam para guerras muito destrutivas. Ele insistia que as pessoas entendem, porque leem os jornais e assistem à televisão. No entanto, muitos falam sobre o assunto como alguém que está explicando que há algo de errado com o carburador do carro.

As guerras nos assustam, mas muitos de nós as testemunhamos através da mídia e a partir de uma distância psicológica. Elas nos afetam, sem dúvida, mas não geram mudanças em nós. Não nos fazem refletir o suficiente. Talvez por isso, só quem passou por elas tem autoridade suficiente para nos alertar, para dar a sua perspectiva e nos fazer pensar.

Erich Fromm é um exemplo indiscutível disso. Não podemos esquecer que esse psicólogo social, psicanalista e filósofo teve que fugir da Alemanha por causa das suas raízes judaicas. Uma vez que se estabeleceu nos Estados Unidos, tornou-se um ativista pela paz, passando grande parte de sua vida analisando a liberdade e as tendências autoritárias da sociedade moderna.

Um dos seus objetivos era conscientizar as pessoas de que era preciso deter a corrida armamentista nuclear. Algo que, como bem sabemos, longe de se deter, desenvolveu-se ainda mais, dando lugar a armas mais sofisticadas e também mais letais. Agora, mais do que nunca, é necessário mergulhar nas causas psicológicas da guerra, aquelas que o próprio Erich Fromm nos explicou.

“Não se pode buscar a paz recorrendo a ameaças.”

-Erich Fromm-

1. A falta de confiança entre nós

Se há uma dimensão que fortalece os laços entre os seres humanos é a confiança. No entanto, esta pedra angular tem estado historicamente ausente entre muitas nações ao longo da história. A Guerra Fria é o exemplo mais óbvio da falta de confiança entre duas superpotências. Algo do passado está de repente se transformando em uma ameaça muito presente.

Quando os povos desconfiam uns dos outros, surge a necessidade de se defender do vizinho. Afinal, a desconfiança gera uma sensação de ameaça e isso nos incita a desenvolver armas e até mesmo a fazer ameaças. Assim, é muito fácil que surjam conflitos quando o que se vivencia é o medo de alguém que, de repente, deixa de ser um aliado para se tornar um adversário.

2. Medo do que pode acontecer: confusão entre o possível e o provável

Entre as causas psicológicas das guerras está a mente irracional que não diferencia o que é possível do que é provável. Dessa forma, em sua famosa obra Anatomia da destrutividade humana, ele explica que uma das causas do desenvolvimento de armas decorre dessa variável. Ou seja, da crença de que outro país, nação ou potência pode nos atacar.

É muito comum que as mentes paranoicas não diferenciem entre o que é possível e o que é provável. Há muitos que vivem convencidos de que, em algum momento, o vizinho pode lançar um míssil contra eles. Ou então, que um meteorito pode destruir o mundo.

Não importa que essa probabilidade seja remota ou que a possibilidade de formar diferentes pontos de colaboração -e até mesmo codependência- com o país vizinho esvazie essa ameaça.

Quem vive preparado para a guerra pensa de forma irracional, vê ameaças onde não existem e distorce verdades, assumindo que o que é possível é 100% provável.

3. A idolatria e os perigos das ideologias

Fromm nos alerta: qualquer elemento que nos deixe cegos e com o qual nos identifiquemos de forma intensa pode se tornar objeto de idolatria. E para onde as idolatrias nos levam? Ao radicalismo, às ideologias extremas que não permitem a presença de outras abordagens e pensamentos opostos.

O extremismo identitário abre cenários de grande ameaça. São situações em que, de repente, alguém se levanta com a justificativa moral e autoritária de impor os seus esquemas de pensamento aos outros.

Se pensarmos bem, muitos conflitos bélicos começaram com ideologias extremas para subjugar outros povos e nações. Por sua vez, é o líder autoritário que decide começar uma guerra com a premissa de que vai libertar uma nação.

Parlamentar faz discurso político
Muitas guerras começam a partir de falsas ideias libertárias e de limpezas étnicas para reforçar a identidade dos povos.

4. A decadência do ser humano

Há nações e também líderes que presumem algo muito básico: o ser humano é decadente e irracional. Assim, é preciso estar sempre preparado para o pior, pois nada de bom pode ser esperado da nossa condição. Obviamente, isso é pouco mais do que uma falácia. Um raciocínio sem sentido, orientado apenas para justificar a violência e o absurdo.

As causas psicológicas das guerras, de acordo com Erich Fromm, incitam a ir além desses preceitos. São visões obrigatórias de reflexão, espelhos para nos vermos refletidos e evitarmos a decadência trazida por qualquer conflito, por qualquer ato de violência em pequena ou grande escala. Afinal, conforme apontou Antoine de Saint-Exupéry, a guerra não é uma aventura, é uma doença.

This might interest you...
Em um mundo de guerras, intolerâncias, preconceitos
A mente é maravilhosa
Leia em A mente é maravilhosa
Em um mundo de guerras, intolerâncias, preconceitos

Eu sei que é quase impossível mudar o mundo, alcançar a igualdade, acabar com a fome, com as guerras, enfim, ninguém faz milagres sozinho...



  • Fry DP, Söderberg P. Lethal aggression in mobile forager bands and implications for the origins of war. Science. 2013 Jul 19;341(6143):270-3. doi: 10.1126/science.1235675. PMID: 23869015.
  • Fromm, E. (2001) Sobre la desobediencia y otros ensayos. Barcelona: Paidós
  • Fromm, E (1975) Anatomía de la destructividad humana. Barcelona: Paidós.