Autolesões emocionais: quando machucamos a nós mesmos

março 22, 2020
As pessoas também ferem a si mesmas. Um exemplo de autoagressão emocional, dentre as muitas que podemos fazer, é deixar de cuidar de nós mesmos todos os dias para priorizar os outros. É sempre entrar nas mesmas relações nocivas, não saber estabelecer limites e negligenciar esse bonito ser refletido no nosso espelho.

Quando falamos de autolesões é comum pensar, quase instantaneamente, em uma ferida física. Na verdade, atualmente, esse tipo de autoagressão deliberada é cada vez mais comum como forma de acalmar (de maneira dramática) a raiva, o sofrimento ou a frustração. No entanto, por mais impressionante que possa parecer, existe outro aspecto ainda mais recorrente do qual mal se fala: as autolesões emocionais.

Os ferimentos não ocorrem exclusivamente no universo físico, no território da pele e dos sentidos. Sabemos que os machucados doem, assim como as palavras. No entanto, às vezes é difícil identificar essa forma de dor que vem de fora e que provoca outras dores de infinitas e perversas maneiras, seja por meio do desprezo, dos maus-tratos, do vazio, dos gritos, das mentiras, etc.

Mas… e quanto à forma de dor que a pessoa causa a si mesma? Isso é possível? As “autolesões emocionais” realmente existem? A resposta é simples e contundente: sim. Na verdade, elas são muito comuns. Nós as praticamos todos os dias com frequência e não temos consciência disso. São feridas que, além disso, deixam graves consequências.

Elas dilaceram a autoestima, são golpes diretos na própria dignidade que acabam inflamando em forma de angústia ou ansiedade. Pouco a pouco, a ferida vai infeccionando e traz consigo uma depressão. Vamos entender melhor a seguir.

Mãos segurando flores brancas

O que são as autolesões emocionais?

As autolesões emocionais podem ser definidas como aqueles pensamentos e comportamentos que estão contra nós e que, além disso, são claramente prejudiciais para o nosso bem-estar emocional. Algo desse tipo nos obriga a refletir sobre o conceito de ferida.

Assim, embora seja verdade que ficamos preocupados com comportamentos como cutting, risuka ou self injury, praticados por muitos adolescentes ao ferir seus corpos por meio de cortes, há essa outra dimensão que passa mais despercebida. As autoagressões emocionais são o substrato dos transtornos do humor, sobretudo se essa forma de lesão interna for praticada de maneira constante, dia após dia.

Mas, como fazemos isso? Quais são esses tipos de dinâmicas que constroem essa forma de sofrimento autoinfligido? Vamos ver a seguir.

Aquele crítico interno tão implacável

Em cada um de nós há uma voz em off, uma figura com um chicote e outras ferramentas de tortura com as quais gosta de nos martirizar. Isso é feito em forma de boicote, nos convencendo de que não somos dignos de certas coisas, nos mergulhando em inseguranças, nos lembrando dos erros do passado e colocando fardos em nosso potencial.

Mas não devemos nos deixar enganar, porque esse torturador tem o nosso rosto e a nossa voz: somos nós mesmos. Somos nós que lhe damos força por meio do diálogo interno negativo, das ideias irracionais, dos medos sem sentido e de um discurso alimentado pela baixa autoestima. Esse crítico interno é responsável por grande parte das nossas lesões emocionais.

Autolesões emocionais em forma de padrões

Quando falamos de comportamentos que seguem um mesmo padrão, nós nos referimos a condutas que se repetem no tempo, que seguem uma mesma linha. De que maneira as relacionamos com as autolesões emocionais? De um modo que será familiar para todos nós. Existe quem sempre acaba encontrando o mesmo tipo de parceiro(a) afetivo(a): uma pessoa narcisista e abusiva com a qual estabelece um vínculo dependente.

É como tropeçar repetidas vezes na mesma pedra sem ter aprendido a identificá-la e evitá-la. Esse tipo de situação gera um duplo sofrimento e uma frustração constante. Porque não sentimos apenas a dor dessa relação nociva, também acabamos, além disso, culpando a nós mesmos por termos nos apaixonado pelo mesmo tipo de pessoa.

Quando você não impõe limites, quando você é o capacho em que todos pisam

Existem pessoas que têm um coração imenso, uma bondade infinita que não tem limites nem medidas de proteção. E isso, devemos deixar claro, é um perigo. Ser nobre, ser uma pessoa acessível, disposta a ajudar, a fazer o que for possível pelos outros é admirável. No entanto, caso essa pessoa não coloque barreiras de proteção e não saiba dizer “não” quando for necessário, vai acabar sofrendo inúmeras lesões emocionais.

Existem muitas pessoas que se aproveitam da bondade alheia e não hesitam em usar os outros como capachos, como superfícies nas quais pisam à vontade. Devemos evitar isso, porque os efeitos dessas situações são muito prejudiciais para a autoestima.

Capacho escrito 'welcome', 'bem-vindo' em inglês

Levar uma vida sem paixão, sem motivações

A vida não é apenas trabalho, nem rotina, e muito menos agradar aos outros. Uma vida autêntica precisa de paixão, projetos a realizar, esperança, poder fazer aquilo que amamos, dedicar tempo a nós mesmos por meio de experiências que nos emocionem, que nos façam crescer.

Se não tivermos nenhum desses ingredientes, nós nos apagamos. Um dia a dia sem emoções e esperanças dá origem a pequenas lesões internas que ninguém enxerga. No entanto, é por essas feridas que vão escapando as esperanças, os sonhos, e até a nossa essência.

É preciso cuidar desse sutil equilíbrio entre obrigações e prazeres, entre trabalho e sonhos, entre nosso(a) parceiro(a) e nós mesmos.

Para concluir, embora seja verdade que a maioria de nós carrega mais de uma ferida emocional em nosso interior, sempre é um bom momento para curá-las.

Hábitos como dedicar tempo a nós mesmos, fortalecer a autoestima e cuidar de nós com muito carinho vão curando essa dor para nos transformar em pessoas mais corajosas, fortes e dispostas a trabalhar em sua própria felicidade.