O que é uma autópsia psicológica?

junho 9, 2020
A autópsia psicológica é um processo aplicado no contexto de uma investigação judicial. O seu objetivo é estabelecer as possíveis causas de um suicídio, se ele realmente ocorreu e em que tipo de padrão psicológico ele se encaixa.

A autópsia psicológica é uma técnica forense que visa estabelecer ou especificar as causas de um suicídio e, em alguns casos, concluir se a morte de uma pessoa foi realmente causada por essa circunstância. É um campo relativamente novo que só começou a ser aplicado sistematicamente no século XXI.

O termo autópsia psicológica foi usado pela primeira vez na década de 1950, nos trabalhos de Shneidman e Farberow. Edwin S. Shneidman foi um psicólogo clínico norte-americano que se dedicou ao estudo do suicídio e à tanatologia. Juntamente com Norman Farberow e Robert Litman, ele fundou o Los Angeles Suicide Prevention Center em 1958.

Desde a década de 1920, o conceito de autópsia psicológica já havia sido sugerido nos Estados Unidos. Após a época conhecida como a Grande Depressão, houve uma onda de suicídios naquele país. Esse tipo de epidemia chamou a atenção de muitos cientistas, que fizeram tentativas para procurar causas comuns. No entanto, somente com Shneidman e Farberow esse conceito foi consolidado.

“O suicídio é o pior tipo de assassinato, porque não deixa espaço para o arrependimento”.
– John Churton Collins –

O que é uma autópsia psicológica?

A autópsia psicológica

Em uma autópsia psicológica é feita uma reconstrução indireta e retrospectiva da vida e da personalidade da pessoa que morreu. É um processo investigativo que visa estabelecer as circunstâncias e razões que levaram uma pessoa ao suicídio.

Em termos gerais, ela tem dois objetivos principais. O primeiro é do tipo forense; o segundo, de natureza epidemiológica. A autópsia psicológica é ordenada no âmbito de uma investigação criminal e constitui uma ferramenta para complementar a autópsia médico-legal. É aplicada nos casos em que a causa da morte é duvidosa.

Do ponto de vista epidemiológico, esta ferramenta visa coletar informações relevantes para estabelecer expressões de comportamento, circunstâncias, motivações, etc. Toda essa informação deve servir para estabelecer fatores de risco comuns, com a finalidade de prevenir ou evitar novos suicídios.

Embora em menor grau, esse instrumento também serve para outros objetivos, como estabelecer a validade legal de ações anteriores à morte (por exemplo, assinatura de documentos). Também permite avaliar se houve erros na práxis, em pessoas que estavam em tratamento médico ou psicológico, para estruturar perfis psicológicos e construir categorias criminológicas, entre outros.

Ferramentas de pesquisa

Esse tipo de autópsia é elaborada basicamente a partir de três ferramentas: o estudo da cena do crime, a coleta de traços psicológicos e a entrevista de pessoas próximas à vítima. O estudo da cena do crime fornece pistas importantes sobre todo o caso. O método escolhido, a disposição dos objetos ao redor do corpo e outros elementos semelhantes fornecem informações valiosas.

O estudo dos traços psicológicos é feito através de cartas, mensagens, jornais e todos os documentos ou informações que possam ser úteis, seja para estabelecer um perfil psicológico da vítima ou para esclarecer as circunstâncias em que sua morte ocorreu.

A entrevista com as pessoas próximas à vítima também tem o objetivo de coletar informações sobre a personalidade e as motivações do suicídio. Esse é um dos procedimentos mais controversos da autópsia psicológica, pois é muito difícil estabelecer os vieses ou interesses que aqueles que cercam o suicida podem ter.

Mulher sendo entrevistada

Os protocolos a seguir

Existem vários protocolos para a realização de uma autópsia psicológica. No entanto, um dos mais utilizados é o modelo MAPI, criado pela Dra. Teresita García Pérez. Ela é a médica cubana que moldou esse método, que provou ser muito prático e funcional. A palavra MAPI refere-se aos quatro aspectos básicos a serem analisados. Estes são:

  • M-Mental: analisa habilidades e capacidades cognitivas, como julgamento, cognição, inteligência, memória e atenção, entre outros.
  • A-Afetivo: busca os sinais de possíveis distúrbios afetivos, como a depressão.
  • P-Psicossocial: examina os círculos de relacionamento da vítima ao longo de sua vida.
  • I-Interpessoal: estabelece a maneira como a pessoa costumava se relacionar com seu ambiente imediato.

O protocolo indica que o primeiro ponto é trabalhar no local dos fatos para capturar traços psicológicos, sinais e indicações das circunstâncias do suicídio.

Depois, há uma entrevista estruturada com três pessoas próximas sobre 60 dimensões. Tais entrevistas ocorrem de um a seis meses após o fato.

Por fim, é realizada uma análise interdisciplinar, envolvendo pelo menos um psicólogo, um médico e um criminologista. A partir daí, é elaborado um relatório pericial, cuja natureza é probabilística. Isso estabelece a causa da morte com base no código NASH: Natural, Acidental, Suicídio ou Homicídio. Finalmente, as possíveis causas do fato são registradas.

Terroba-Garza, G., & Saltijeral, M. T. (2014). La autopsia psicológica como método para el estudio del suicidio. Salud Pública de México, 25(3), 285-293.