Existe uma relação entre a ordem de nascimento dos irmãos e suas personalidades?

março 20, 2020
Hoje, vamos tentar responder a uma pergunta para a qual praticamente todo mundo tem alguma resposta: a ordem de nascimento dos irmãos influencia as suas personalidades? Vamos ver o que a ciência tem a dizer.

Durante anos, a comunidade científica se interessou pela relação existente entre os traços de personalidade e a ordem de nascimento dos irmãos. Afinal, será que a ordem de nascimento dos irmãos pode condicionar suas personalidades?

Os primeiros estudos, e havia muitos deles, faziam referência principalmente à relação entre ordem de nascimento e certas características físicas, incluindo a vulnerabilidade a certas doenças. Os resultados desses estudos iniciais foram, em sua maior parte, inconclusivos.

Por volta de 1930, a preocupação com as características físicas deu lugar a um interesse pelo grau de adaptação, obtendo, entretanto, resultados igualmente confusos. (1)

Assim, em 1983, Ernst e Angst fizeram uma revisão de cerca de 1.500 artigos sobre a ordem de nascimento e as características de personalidade. Nela, os autores concluem que os relatórios sobre os efeitos da ordem de nascimento tinham sido, até o momento, muito exagerados.

Aparentemente, existem evidências de algumas diferenças físicas imediatamente antes e logo após o nascimento. Elas são:

  • Os primogênitos (primeiros a nascer) geralmente pesam menos logo após o nascimento.
  • Os primogênitos têm uma maior probabilidade de morrer no útero depois de 20 semanas de gravidez.
  • Eles também apresentam um risco maior de lesões de nascimento intracranianas e espinhais.
  • Além disso, têm um risco maior de morrer ao nascer e logo após o nascimento.
A ordem de nascimento dos irmãos e suas personalidades

Também apresentam algumas diferenças na socialização comparativamente aos segundos a nascer:

  • Os pais são mais exigentes com os primogênitos e mais atentos na infância. Essa atenção diminui com o segundo filho.
  • Os primeiros bebês são descritos como mais propensos a se comunicarem com os pais.
  • Em famílias pequenas, os primogênitos são descritos como mais dispostos a aceitar a autoridade dos pais.

Em relação à realização educacional e ao sucesso profissional, também existem diferenças muito modestas. Os primogênitos em famílias pequenas e as crianças mais novas, em geral, alcançam um maior nível educacional e um status profissional mais alto que os filhos do meio.

No entanto, Ernst e Angst argumentam que quando são aplicados os controles adequados, a ordem de nascimento não está relacionada com o quociente de inteligência, o desempenho escolar ou a saúde mental. Também não está relacionada com a ansiedade e a dependência dessas características.

Foi assim que os autores Ernst e Angst (1983) questionaram a relação entre a ordem de nascimento e os traços de personalidade. No entanto, um pouco mais tarde, em 1996, o autor Frank J. Sulloway publicou o livro Born to Rebel. Nele, o autor propõe que os efeitos da ordem de nascimento decorrem de uma competição entre irmãos enquanto lutam por um nicho familiar comum.

Sulloway e a competição entre irmãos

Segundo esse autor, os primeiros a nascer têm a primeira opção de nicho. Por isso, tentavam agradar aos pais da maneira tradicional por meio do sucesso na escola e do comportamento responsável. Mas, à medida que outros irmãos chegam, os primogênitos precisam lidar com as ameaças à sua prioridade natural na hierarquia de status de irmãos.

A personalidade adulta resultante seria meticulosa e conservadora. Aqueles que nascerem depois terão que resistir ao status mais elevado do primogênito, enquanto procuram maneiras alternativas de se diferenciar aos olhos dos pais. Consequentemente, desenvolvem uma personalidade adulta marcada por um estilo interpessoal empático, uma luta pela singularidade e pontos de vista políticos que são, ao mesmo tempo, igualitários e antiautoritários.

Sulloway se concentrou em organizar sua pesquisa sobre o tema considerando o modelo dos Big Five (Goldberg, 1990). A partir disso, autores como Paulhus, Trapnell e Chen (1999) investigam os efeitos da ordem de nascimento. Em seus estudos, observaram que:

  • Os primogênitos tenderam a ser os mais bem-sucedidos e meticulosos. Também pontuam mais em neuroticismo e extroversão, e menos em amabilidade e abertura.
  • Os nascidos depois tenderam a ser mais rebeldes, liberais e agradáveis.
A ordem de nascimento dos irmãos e as suas relações

As características de personalidade no caso de três irmãos

Um pouco depois, em 2003, os autores Saroglou e Fiasse realizaram outra pesquisa nesse campo. Em seu estudo, os autores investigaram 122 adultos jovens de famílias com três irmãos. Eles obtiveram os seguintes resultados em relação à ordem dos irmãos e à personalidade:

  • Os irmãos do meio pareciam representar o irmão “rebelde” de nascimento. Comparados aos outros irmãos, eles eram menos meticulosos, menos religiosos e tinham um desempenho escolar menor. Também eram mais impulsivos e abertos à fantasia.
  • Os irmãos mais novos foram os mais agradáveis e calorosos.
  • Os primogênitos viam a si mesmos como mais meticulosos e com melhor desempenho.
  • Os últimos a nascer viam a si mesmos como mais agradáveis, liberais e rebeldes.

Aparentemente, a ordem do nascimento dos irmãos pode ter algo a ver com a sua personalidade. Todos os estudos sobre o assunto concluem que são necessárias mais pesquisas nesse campo. Pesquisas futuras deveriam, portanto, levar em consideração as variáveis que não puderam ser controladas nas pesquisas anteriores. Assim, seria possível obter resultados mais claros sobre o assunto.

  1. Paulhus, D. L., Trapnell, P. D., & Chen, D. (1999). Birth order effects on personality and achievement within families. Psychological Science, 10(6), 482-488.
  2. Sulloway, F.J. (1996). Born to rebel: Birth order, family dynamics, and creative lives. New York: Pantheon.
  3. Saroglou, V., & Fiasse, L. (2003). Birth order, personality, and religion: A study among young adults from a three-sibling family. Personality and Individual differences, 35(1), 19-29.
  4. Ernst, C., & Angst, A. (1983). Birth order: its influence on personality. Berlin, Germany: Springer-Verlag.