Autossacrifício crônico: quando damos demais

Se dermos incondicionalmente e sem medida aos demais, colocando as suas necessidades acima das nossas, podemos cair no autossacrifício crônico.
Autossacrifício crônico: quando damos demais

Última atualização: 01 março, 2020

Cair em uma situação de autossacrifício crônico, na qual podemos acabar nos perdendo, implica riscos importantes. Como seres humanos, pode ser normal querer investir nosso tempo e energia em pessoas e causas que nos desgastam mais do que podemos aguentar.

Pensar, portanto, que as convicções e valores pessoais não costumam ser sacrificados pelos desejos e opiniões dos demais pode ser uma ideia bastante ingênua.

A negação de si mesmo e a rendição diante das ideias e necessidades dos outros são fatores que, conforme observamos nas dinâmicas coletivas, não parecem nos preocupar, embora talvez devessem ser motivo de preocupação.

“Se você olha para o meu sucesso, olhe também para o meu sacrifício”.
-Bernardo Stamateas-

Mulher jovem esgotada

O que é o autossacrifício crônico?

Sacrificar-se pelos demais, dar ao outro, ou aos outros, quantidades enormes do nosso próprio ser – muitas vezes de maneira incondicional – tende a criar suas realidades:

  • A necessidade de superação de um conflito de valores, ou seja, os próprios e os da pessoa pela qual nos sacrificamos.
  • A aceitação de uma situação de renúncia: a renúncia às nossas próprias ideais, necessidades e desejos.

O sacrifício surge no momento em que, na interação com outro ser ou situação, precisamos renunciar ao bem-estar pessoal ou à atenção imediata sobre nós mesmos; o autossacrifício vai além, dado que supõe a entrega de uma parte de nós mesmos.

Em termos psicológicos, o autossacrifício é o abandono dos interesses pessoais em prol da preservação do bem-estar de outra pessoa. 

Como o autossacrifício costuma levar à negação de certas necessidades ou desejos pessoais, bem como de algum prazer ou objetivo, é, em essência, uma renúncia a uma valiosa e importante parte de nós mesmos. Uma renúncia à nossa dignidade e, inclusive, à nossa identidade.

Por um lado, o ato de se autossacrificar pode nos levar a dar mais valor a algo ou alguém, em um determinado momento ou situação, do que a nós mesmos, o que falaria a favor do nosso altruísmo e solidariedade.

O altruísmo, embora costume ser um traço apreciado pela sociedade, pode adotar uma forma extrema quando o autossacrifício se excede em intensidade ou duração, e também quando rouba uma quantidade excessiva de bem-estar da pessoa que se sacrifica.

Por isso, às vezes o autossacrifício pode ser disfuncional ou desadaptativo para a pessoa que entrega tudo de si mesma.

Quando o autossacrifício se transforma em altruísmo patológico

A lista de exemplos de formas de autossacrifício é interminável: desde pessoas que se sacrificam sem pensar duas vezes por uma causa específica, até pais que praticamente dão a vida pelos filhos, passando por pessoas que entregam tudo ao seu parceiro, renunciando à própria felicidade e bem-estar.

Muitas dessas dinâmicas podem, em quantidade moderada, não ser problemáticas, e ser consideradas comuns e normais até um certo ponto.

Apesar disso, quando uma pessoa aceita o autossacrifício até níveis crônicos e faz dele uma maneira de se relacionar e enfrentar a vida – e não algo pontual com um evento ou pessoa específicos – pode correr o risco de perder parte da sua essência pessoal.

O autossacrifício implica, pelo menos, um grau mínimo de renúncia ou desvalorização de si mesmo. Se esta renúncia provocar uma mudança na hierarquia de valores da pessoa, e ela deixar de se considerar importante para si mesma, a situação pode estar se aproximando dos limites do patológico.

O autossacrifício crônico pode representar um altruísmo patológico – ou seja, dar demais de nós mesmos – quando a pessoa deixa de se valorizar e, portanto, deixa de se tratar como uma prioridade. Assim, o próprio “eu” ficaria relegado a um segundo plano.

Esta erosão da importância de si mesmo pode fazer com que as necessidades próprias nunca sejam satisfeitas e fiquem praticamente à mercê dos outros. Isso, como era de se esperar, poderia levar ao desenvolvimento de sentimentos negativos em relação a si mesmo.

Esta situação pode levar a um estado de invalidação da consciência de si mesmo, ou de inversão da escala de valores, ou de violação do julgamento racional e da autoestima da pessoa. Em definitiva: o autossacrifício crônico pode tirar da pessoa aqueles fatores que definem a sua própria essência como indivíduo.

“Raramente as pessoas enxergam os passos vacilantes e dolorosos com os quais o sucesso mais insignificante é alcançado”.
-Anne Sullivan-

Homem recebendo apoio emocional

Como saber se estou dando mais do que eu recebo?

Existem alguns sinais importantes para averiguar se o seu é um caso de autossacrifício crônico ou não. Entre eles, destacam-se os seguintes:

  • A quantidade de ajuda que você oferece não é sustentável no tempo. Ao ajudar, você nota que não lhe sobra tempo, energia ou recursos suficientes para si mesmo.
  • Quando você dá prioridade aos seus próprios desejos, necessidades ou opiniões, tende a desenvolver sentimentos de culpa.
  • Em algumas ocasiões, você sente um grande vazio emocional, que surge da ausência de satisfação das suas próprias necessidades de amor, carinho e atenção.
  • Você sente que precisa fazer algum tipo de sacrifício constantemente para manter os outros felizes.
  • Os seus sacrifícios se transformaram em uma obrigação que você impõe a si mesmo, enquanto, inicialmente, eram algo que você oferecia de forma voluntária.
  • Muitas vezes você se surpreende consigo mesmo dizendo ‘sim’, quando na verdade a resposta mais apropriada seria a negativa.

Uma estratégia que alguns autores, como Ayn Rand, propuseram para combater esta tendência ao autossacrifício – que, além disso, costuma ser reforçada pela própria sociedade – é o fortalecimento da própria ambição moral.

Basicamente, isso se basearia em convencer-nos de que ganhamos o direito de nos dar o valor máximo, de pensar que, para nós mesmos, não há nada mais importante do que o nosso próprio ser.

Em resumo, para não nos perdermos por causa do autossacrifício crônico, um dos antídotos mais eficazes é preocupar-se verdadeiramente com os nossos próprios interesses.

A solução poderia ser praticar, por assim dizer, uma forma de egoísmo controlada, que seja racional e não agressiva. Se você pode evitar, não há motivo para perder a si mesmo.

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