Averróis e 17 outros filósofos proeminentes da Idade Média

A filosofia medieval abrange desde a queda do Império Romano Ocidental até depois do Renascimento italiano. Compilamos seus principais expoentes e sua importância no pensamento moderno.
Averróis e 17 outros filósofos proeminentes da Idade Média
Matias Rizzuto

Escrito e verificado por o filósofo Matias Rizzuto.

Última atualização: 29 outubro, 2024

Apesar da percepção da Idade Média como um período sombrio, foi na verdade uma era rica em reflexões nascentes de filósofos proeminentes. Desde a queda do Império Romano Ocidental até ao início do Renascimento, os intelectuais de toda a Europa esforçaram-se por fundir os ensinamentos do Cristianismo com a filosofia clássica, dando vida a debates e novas escolas de pensamento.

Influenciados pelas tradições grega, romana, islâmica e judaica, os sábios medievais abordaram a existência, a moralidade e a relação do homem com Deus. As suas contribuições, ainda hoje relevantes, moldaram significativamente o panorama do pensamento ocidental. Vamos conhecê-los!

Filósofos notáveis da Idade Média

A Idade Média legou importantes reflexões, conhecimentos e modelos de pensamento, através dos filósofos que viveram naquela época. Descubra, a seguir, quem são eles.



1. Agostinho de Hipona (354-430 DC)

Conhecido como Santo Agostinho, foi uma figura influente no cristianismo ocidental. Nascido em Tagaste (atual Souk Ahras, na Argélia), Agostinho viveu uma juventude tumultuada. Lá mergulhou em diversas correntes filosóficas e espirituais, com especial destaque para o Maniqueísmo e o Neoplatonismo.

Seu livro Confissões (398) relata sua busca espiritual e eventual conversão ao cristianismo, tudo através de uma jornada de inquietação intelectual sem precedentes.

Este livro não é apenas considerado uma das grandes obras da literatura cristã, mas também uma fonte de inspiração para filósofos e autores ao longo dos séculos, devido ao seu exame sincero da natureza humana e da relação do indivíduo com Deus.

2. Boécio (480-524 DC)

Foi um filósofo e político romano cujos esforços para harmonizar o pensamento filosófico da antiguidade clássica com os ensinamentos cristãos deixaram um impacto duradouro na Idade Média e no Renascimento.

Ao longo de sua vida, Boécio se destacou como um estudioso empenhado em traduzir e comentar as obras de Aristóteles e Platão para o latim. Por isso, seus escritos foram essenciais para a preservação do pensamento helênico.

Porém, é por causa de sua obra A Consolação da Filosofia (524) que seu nome perdura até hoje. Escrito durante sua prisão, pouco antes de sua execução, este diálogo filosófico entre Boécio e a personificação da filosofia aborda reflexões sobre a natureza efêmera da fortuna terrena e a busca pelo bem verdadeiro e eterno.

3. Juan Escoto Erígena (810-877 DC)

Foi um teólogo e filósofo neoplatônico nascido na Irlanda que desempenhou um papel crucial na transição do pensamento antigo para o medieval. Destacou-se como ponte entre as tradições filosóficas do mundo grego e as tradições teológicas emergentes da Europa medieval.

Sua obra-prima, Periphyseon ou De Divisione Naturae (867), é um diálogo que explora a relação entre Deus, a natureza e a humanidade e aborda a questão de como a divindade se manifesta na criação.

Embora suas ideias tenham sido consideradas heterodoxas e eventualmente tenham recebido condenação da Igreja, sua influência na disciplina durante a Idade Média e em filósofos posteriores, como Meister Eckhart e Nicolau de Cusa, é inegável.

4. Al-Farabi (872-950 DC)

Conhecido como “o segundo professor” depois de Aristóteles, foi um dos mais proeminentes filósofos islâmicos da Idade Média e um pioneiro no estudo da lógica e da filosofia política. Al-Farabi combinou e sintetizou elementos das tradições filosóficas grega, persa e islâmica.

As suas contribuições abrangeram áreas tão diversas como a música, a matemática, a cosmologia e a ética, mas foram os seus comentários e reinterpretações das obras de Aristóteles que lhe deram prestígio.

No campo da filosofia política, a sua obra A Cidade Virtuosa ou Al -Madina al-fadila destaca-se pela visão de uma sociedade ideal governada por um líder filósofo, num estilo semelhante à República de Platão.

5. Avicena (Ibn Sina) (980-1037 DC)

Avicena foi um polímata persa que explorou vários campos do conhecimento de sua época, desde a medicina e a filosofia até a astronomia e a alquimia. Muitos o consideram o pai da medicina moderna e a sua influência estendeu-se para além do mundo islâmico, atingindo a Europa medieval.

Sua obra mais conhecida, O Cânone da Medicina ou Al-Qanun fi al-Tibb (1025), serviu como referência primária na medicina durante séculos.

No domínio da filosofia, Avicena esforçou-se por fundir e reconciliar o pensamento aristotélico com os princípios do Islão. E o seu Livro da Cura ou Kitab al-Shifa (1027) é um testemunho deste esforço monumental.

A concepção do “ser necessário”, um ser que existe por si mesmo e do qual tudo o mais depende, é um pilar da metafísica de Avicena e teve uma influência significativa no pensamento medieval e renascentista sobre a existência e a natureza de Deus.

6. Anselmo de Cantuária (1033-1109)

Também conhecido como Santo Anselmo, foi um monge beneditino italiano, teólogo e filósofo que mais tarde se tornou arcebispo de Canterbury. Ele é conhecido por suas contribuições à teologia e à filosofia, especialmente no que diz respeito aos argumentos sobre a existência de Deus.

A sua abordagem racionalista da fé e a sua ênfase na capacidade da razão de se aproximar da compreensão dos mistérios divinos posicionam-no como uma figura fundamental no desenvolvimento da escolástica, um movimento filosófico e teológico que procurou utilizar a razão e a lógica no estudo da fé..

7. Pedro Abelardo (1079-1142)

Foi um filósofo, teólogo e lógico medieval de grande relevância no campo intelectual da Europa do século XII. Esta figura central da Universidade de Paris era conhecida pela sua habilidade em dialética, uma forma de debate que emprega lógica e argumentação.

Ao longo da sua carreira académica, Abelardo não hesitou em questionar e desafiar as doutrinas tradicionais, o que muitas vezes o levou a confrontos com outros pensadores proeminentes e autoridades eclesiásticas do seu tempo.

Sua obra Sic et Non (1141) é um exemplo claro de sua abordagem dialética. Nisto ele apresentou contradições nos escritos dos Padres da Igreja, incentivando a análise crítica e um debate teológico mais profundo.

8. Averróis (Ibn Rushd) (1126-1198)

Nascido em Córdoba, na Espanha muçulmana, Averróis entrou para a história por seus extensos comentários às obras de Aristóteles. A sua interpretação meticulosa do filósofo grego não só revitalizou o estudo de Aristóteles no mundo islâmico, mas, depois de ser traduzido para o latim, também lançou as bases para o renascimento aristotélico na Europa medieval.

Averróis defendia a ideia de que filosofia e religião eram complementares e poderiam coexistir harmoniosamente. De acordo com os seus escritos, a verdade, quer alcançada através da razão filosófica ou da revelação religiosa, permanece uma verdade unificada.

9. Maimônides (1135-1204)

Também conhecido pelo nome hebraico, Moisés ben Maimón, ou pelo acrônimo, Rambam, foi um estudioso judeu de origem andaluza cujas contribuições ao judaísmo, à filosofia e à medicina deixaram um legado duradouro ao longo dos séculos. Nascido em Córdoba durante o apogeu da Espanha muçulmana, Maimônides era um rabino proeminente e um médico respeitado.

Em sua obra filosófica Guia dos Perplexos (1190), ele tentou conciliar os ensinamentos da filosofia aristotélica com os princípios do Judaísmo. Ele abordou questões complexas, como a natureza de Deus, a profecia e o problema do mal, tentando fornecer respostas racionais a dilemas teológicos.

Ao longo de sua vida ele enfrentou críticas tanto de setores judeus conservadores, que viam suas inclinações filosóficas com suspeita, quanto de pensadores muçulmanos.

10. Alberto Magno (1200-1280)

Foi um dos primeiros a apresentar e comentar extensivamente as obras de Aristóteles na Europa. Numa época em que muitas das obras do filósofo grego eram desconhecidas ou vistas com suspeita, Alberto, o Grande, defendia a integração do pensamento aristotélico com a teologia cristã. Para ele, filosofia e religião, longe de serem opostas, poderiam enriquecer-se mutuamente.

Além do profundo interesse pela filosofia, Alberto foi um pioneiro no estudo empírico da natureza. A sua investigação em campos tão variados como a botânica, a zoologia, a química e a geologia reflectiu uma abordagem observacional e experimental, antecipando alguns aspectos do método científico moderno.

11. Tomás de Aquino (1225-1274)

Este pensador é sem dúvida um dos mais transcendentes da história da filosofia e da teologia. Num período em que a redescoberta das obras de Aristóteles na Europa Ocidental gerou tensões e debates no meio académico, Tomás de Aquino defendeu a ideia de que razão e fé são complementares e que o conhecimento de Deus poderia ser alcançado através de meios racionais.

Sua obra mais conhecida, a Summa theologica (1274), é um compêndio teológico no qual aborda e analisa quase todos os tópicos fundamentais da teologia e da filosofia, desde a existência e natureza de Deus, até a ética e a natureza do bem. e mal. Tomás levanta objeções, respostas e depois refutações a cada tópico com profunda erudição e habilidade argumentativa.

12. Roger Bacon (1214-1294)

Foi um filósofo inglês e frade franciscano reconhecido por sua ênfase inicial no método empírico na pesquisa e por sua defesa do papel da experimentação no avanço do conhecimento. Numa época em que a autoridade dos textos antigos e da tradição muitas vezes superava a observação direta, Roger Bacon defendia uma abordagem mais sistemática e prática.

Ele também destacou a relevância da matemática na compreensão do universo e defendeu a ideia de que o conhecimento deveria ser buscado não apenas por razões teológicas ou filosóficas, mas para melhorar a condição humana.

Além de suas contribuições metodológicas, Bacon escreveu sobre óptica, alquimia e astronomia e previu invenções futuras, como óculos e veículos automotores.

13. João Duns Escoto (1266-1308)

Juan Duns Escoto lecionou nas universidades de Oxford e Paris; Suas contribuições para a teologia e a filosofia o estabeleceram como uma figura central da escolástica tardia. Sua capacidade de abordar e resolver problemas teológicos com argumentos sutis e sofisticados lhe rendeu prestígio em sua época.

Uma das contribuições mais notáveis de Scotus foi a defesa do conceito de “livre arbítrio” no contexto da teologia. Ele argumentou que a vontade de Deus é absolutamente livre e não é determinada por nenhuma necessidade lógica. Com isso, ele sublinhou a primazia da vontade sobre o intelecto. Esta posição diferia da de outros pensadores de sua época, como Tomás de Aquino.

14. Mestre Eckhart (1260-1328)

Meister Eckhart foi um teólogo, filósofo e místico alemão associado à Ordem dos Pregadores ou Dominicanos. Seu pensamento combina elementos da teologia escolástica com profundos insights místicos. Seus sermões e tratados que exploram a relação íntima entre a alma humana e Deus o consagram como um dos filósofos mais importantes da Idade Média.

No centro de seu ensino está a ideia da “centelha da alma”, um ponto imanente na alma onde a presença divina é encontrada e o indivíduo pode se unir diretamente a Deus. Sua obra se destaca pela ênfase na desapropriação, processo pelo qual a alma se despoja de todas as imagens, conceitos e desejos de encontro com o divino.

Eckhart defendia um relacionamento experiencial com Deus, além de rituais e mediações. Suas ideias, especialmente aquelas referentes à natureza da união com Deus e à transcendência divina, foram condenadas pela Igreja como heterodoxas.

15. Guilherme de Ockham (1287-1347)

Membro da Ordem Franciscana, Ockham é frequentemente associado à escola de pensamento conhecida como nominalismo, que rejeita a existência de universais (conceitos abstratos ou qualidades compartilhadas) fora das coisas individuais e concretas. Ele sustentou que apenas existem indivíduos e que os universais são nomes ou rótulos que colocamos nas coisas.

Além de suas contribuições ao nominalismo, Ockham é famoso pelo princípio epistemológico que leva seu nome: a navalha de Ockham. Essa ferramenta filosófica sustenta que, diante de múltiplas hipóteses que explicam o mesmo fenômeno, deve-se preferir a explicação mais simples; isto é, aquele que postula o menor número de entidades ou pressupostos.

16. Ramão Lúlio (1232-1315)

Sua tentativa de criar uma arte ou método lógico-combinatório para demonstrar e divulgar as verdades do cristianismo lhe rendeu um lugar entre os mais importantes filósofos da Idade Média.

Seu sistema, denominado ars magna, utilizava uma série de figuras geométricas rotativas que representavam conceitos teológicos e filosóficos, buscando gerar combinações de argumentos para abordar qualquer questão teológica ou filosófica.

Embora seu método combinatório não tenha sido frequentemente utilizado ou adotado pelos intelectuais de sua época, isso não significa que não tenha tido impacto. Muitos não hesitam em considerar o sistema de Lúlio como o pioneiro da lógica computacional. Portanto, suas ideias serviram de inspiração para muitos pensadores posteriores.

17. Nicolau de Cusa (1401-1464)

Nicolau de Cusa foi um teólogo, filósofo, matemático e cardeal da Igreja Católica cujo pensamento representou uma transição significativa entre a filosofia medieval e as ideias emergentes da Renascença.

Sua obra mais influente, De Docta Ignorantia (1440), explora a ideia de que o conhecimento humano, por mais vasto que seja, é sempre limitado em comparação com a infinitude de Deus. Portanto, a verdadeira sabedoria reside em reconhecer a nossa própria ignorância.

Nicolau de Cusa introduziu o conceito de coincidentia oppositorum (a coincidência dos opostos), que afirma que as verdades mais profundas são frequentemente encontradas na união de ideias aparentemente contraditórias. Além disso, fez importantes contribuições ao campo da matemática, principalmente em relação ao conceito de infinito.

18. Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494)

Giovanni Pico della Mirandola foi um filósofo e humanista da Renascença italiana cujas ideias encapsularam o espírito da Renascença, na sua busca por harmonizar diversas tradições de pensamento e enfatizar o potencial e a dignidade do ser humano.

Desde cedo demonstrou uma sede insaciável de conhecimento e a sua educação abrangeu uma ampla variedade de disciplinas, desde a filosofia clássica à teologia judaica e ao misticismo sufi. Ele é mais conhecido por sua obra Sobre a Dignidade do Homem (1496), um texto que tem sido frequentemente descrito como “o manifesto da Renascença”.

Nesse tratado, Pico argumenta que os humanos ocupam uma posição única na hierarquia do cosmos, pois, ao contrário de outras criaturas que têm um lugar fixo, os humanos têm a liberdade e a escolha de ascender às alturas do divino ou descer às profundezas do bestial.



Importância e significado dos filósofos medievais

A lista acima é útil para compreender a importância dos filósofos da Idade Média na construção do pensamento moderno.

Ao contrário da ideia popular, a Idade Média foi um período de extenso desenvolvimento filosófico, tanto que muitos dos seus teoremas permaneceram em vigor durante séculos. A filosofia moderna e a filosofia contemporânea não podem ser compreendidas sem as contribuições dos pensadores medievais.


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