Aversão à solução: um comportamento muito comum

27 Agosto, 2020
Buscar soluções para problemas específicos nunca é fácil, muito menos quando existem pessoas que, devido à sua ideologia ou interesses pessoais, negam a existência do problema. Esse comportamento tem um nome, e vamos discuti-lo neste artigo.
 

“A mudança climática não existe, é uma fabulação de um grupo de partes interessadas”, “As pessoas são pobres porque não querem trabalhar e não querem ter responsabilidade” , “Não tenho problemas de saúde; posso continuar com a minha vida sedentária e comer o que eu quiser”. Esse tipo de raciocínio muito drástico define um tipo de esquema mental que é definido como “aversão à solução”.

Todos nós já encontramos esse tipo de argumento tão extremo que nos confunde e, além disso, quase sempre gera um certo desespero. Como pode haver pessoas que negam evidências tão claras? Ainda hoje, para a nossa surpresa, ainda existem negacionistas inveterados sobre os riscos do cigarro ou do consumo de certas drogas.

Este é um fenômeno que sempre interessou o mundo da psicologia. As pessoas que se opõem a certas evidências concretas e claramente demonstradas pela ciência sempre existiram e, infelizmente, continuarão existindo. Além disso, nos últimos anos, em meio a todo o clima social que estamos vivendo, a aversão à solução aumenta ainda mais a polarização entre vários setores políticos.

Foi em 2014 que os psicólogos Troy Campbell e Aron Kay, da Universidade do Oregon, investigaram esse fenômeno e o nomearam. Hoje, vamos nos aprofundar um pouco mais neste tema.

Mudança climática
 

Aversão à solução: quando não gosto das soluções, nego o problema

Um exemplo evidente do que a aversão à solução implica é visto naqueles que negam a incidência das mudanças climáticas. Não importa que o nível do mar e a sua temperatura estejam subindo ou que os fenômenos meteorológicos estejam mais extremos a cada ano. A desertificação ou a perda de certos ecossistemas também não são relevantes.

O negaciosismo em relação à mudança climática geralmente parte de um fato concreto: as soluções propostas para retardar seu progresso não são apreciadas. Uma grande parte dessas passa, entre outras coisas, por diminuir o consumo de combustíveis fósseis. No fim, implica a mudança do modelo de indústria, produção e estilo de vida.

Portanto, se as soluções não me agradarem, minha reação será sempre questionar o problema. A questão das mudanças climáticas é coisa dos alarmistas. Não apenas é adotada uma abordagem negacionista, mas em muitos casos, essas pessoas escolhem adotar uma atitude ofensiva ou desdenhosa em relação àqueles que defendem as evidências.

Podemos ver o mesmo naqueles que, por exemplo, se opõem a mudar seu estilo de vida ou parar de fumar, mesmo depois de sofrer um ataque cardíaco. “Você tem que morrer de alguma coisa!” Eles apontam: “Afinal, meu pai fumou a vida toda e morreu aos 95 anos!”

A aversão à solução é uma constante para quem não quer mudar seus hábitos, para quem vê nas soluções uma ameaça ao seu modo de existência.

 

Quando a minha ideologia não me permite aceitar suas soluções

Troy Campbell e Aron Kay, os psicólogos que cunharam esse termo há 6 anos, explicaram em sua pesquisa que, em média, podemos encontrar duas dinâmicas na teoria da aversão à solução.

  • Há quem não adote essa estratégia de enfrentamento porque ela não se encaixa na sua ideologia pessoal.
  • Por outro lado, existem aqueles que não as aceitam porque vão contra suas necessidades, gostos ou interesses.

O primeiro é o mais comum e o que mais atrai a nossa atenção em contextos políticos. Nos Estados Unidos, por exemplo, é tradição que o partido republicano sempre se oponha a aspectos como ações para conter o aquecimento global ou a necessidade de proibir ou regular o mercado de armas.

Fazer isso seria contrário aos seus interesses particulares, facilitando a negação do problema. Por outro lado, o partido democrata geralmente permanece como o núcleo social e político que defende uma mudança nesses aspectos.

Colegas de trabalho discutindo

A aversão à solução surge porque não quero aceitar o problema

Daniel, de 15 anos, foi diagnosticado com diabetes e se recusa a aceitar o problema. A ideia de ter que tomar insulina ou regular o consumo de doces o leva ao desespero.

 

Natalia, 69 anos, acaba de ser diagnosticada com uma doença ocular, e a sua carteira de motorista não será renovada. Ela nega o problema, insiste que ter o problema em um dos olhos não é uma limitação e que ela pode continuar dirigindo.

Poderíamos dar muitos outros exemplos desse tipo de comportamento e reações que as pessoas aplicam quando não gostam das estratégias possíveis para enfrentar um problema. Não gostamos delas porque elas mudam o nosso estilo de vida e, diante disso, é inevitável sentir medo, raiva e frustração.

A aversão à solução é mais comum do que pensamos. No entanto, ainda é um mecanismo que, em muitos casos, dificulta a nossa convivência, nossa capacidade de avançar como sociedade, e de sermos capazes de enxergar os mesmos problemas para agir em conjunto.

Por trás de todo olhar, sempre haverá interesses particulares, mas sermos capazes de relativizá-los de tempos em tempos pode nos permitir alcançar os acordos necessários com os quais todos saímos ganhando. Vamos manter isso em mente.

 
  • Campbell, T. H., & Kay, A. C. (2014). Solution aversion: On the relation between ideology and motivated disbelief. Journal of Personality and Social Psychology, 107(5), 809–824. https://doi.org/10.1037/a0037963