Síndrome do estresse político: quando a política nos esgota

dezembro 23, 2019
A síndrome do estresse político, ainda que não apareça nos manuais diagnósticos clínicos, é um termo que faz referência a uma realidade social evidente: uma desconfiança e cansaço em relação ao que acontece na sociedade, assim como às emoções que essas situações despertam.

São muitas as pessoas que estão começando a experimentar a síndrome do estresse político. A incerteza, a apatia em relação aos políticos e suas mensagens, o cansaço em relação às disputas internas e, principalmente, o peso da corrupção, estão minando cada vez mais a confiança de todas as pessoas na classe política. São situações que, além de tudo, geram muitas emoções negativas como o asco, a decepção, a raiva, a tristeza…

Com a genialidade que o caracterizava, Jorge Luis Borges dizia que os políticos não deveriam ser personagens públicos. Essa frase guarda uma realidade que muitos questionam.

Há políticos que, por seu comportamento, personalidade ou decisões desajustadas, não deveriam ser figuras públicas. Não dão o exemplo, não são fonte de inspiração e, além de tudo isso, não estão capacitados para estar em posições de poder.

Hoje em dia, o tabuleiro de xadrez que é a política mundial é palco dos mais complexos movimentos. Estamos no auge de soberanias extremistas, movimentos de independência, a dramática questão da imigração, muitos casos de corrupção, políticas cada vez menos voltadas para o social…

Dessa forma, estudos como o publicado na Cambridge University Press descrevem essa situação como uma espiral de desconfiança.

Somada a essa desconfiança ainda podemos adicionar outro fator: a “infoxicação”. Ou seja, a intoxicação por informação contaminada. Todas essas dinâmicas, informações, opiniões e notícias nos bombardeiam todos os dias, sejam elas verdadeiras ou não, através de todos os meios de comunicação.

Televisão, rádio, redes sociais, jornais… Nada escapa e tudo isso nos leva a atingir dois estados diferentes: indignação ou apatia.

A primeira pode nos levar a participar de mobilizações, assumir um papel ativo, a desejar a mudança. A segunda traz o descontentamento e, muito frequentemente, a absoluta perda de confiança em qualquer partido ou opção política.

Não obstante, todas essas experiências partem de uma realidade específica: a síndrome do estresse político.

“Um bom político é aquele que, após ter sido eleito, segue sendo acessível”.
-Winston Churchill-

Político de papel

O que é a síndrome do estresse político?

A síndrome do estresse político não aparece em nenhum manual diagnóstico clínico. É um termo popular que tem sido usado nos últimos meses. Um exemplo é este artigo do site Psychology Today, no qual o autor analisa o impacto que esse fato pode ter na mente da criança.

Não sabemos se, em breve, esta condição aparecerá descrita no próximo DSM – o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, mas o que já temos claro é que essa realidade já é fonte de análise para psicólogos sociais e aqueles que estudam a política.

E mais, de algum modo, já podemos inclusive descrever quais sintomas a síndrome do estresse político traz. Vejamos em mais detalhes a seguir.

O que desencadeia a síndrome do estresse político

A anatomia da síndrome do estresse político é mediada por muitos fatores diferentes. Por sua vez, esses terão um maior impacto dependendo da personalidade e das necessidades de cada um.

No entanto, não estaremos errados ao assinalar que alguns pilares são quase constantes na condição e que são muito comuns ao nosso dia a dia atualmente:

  • Sensação de que a classe política se preocupa cada vez menos com os seus eleitores e mais com os seus interesses pessoais.
  • Políticas que favorecem as classes mais ricas.
  • Falta de civilidade nos discursos políticos. Não há uma conexão real com as pessoas.
  • Falta de entendimento entre a própria classe política para chegar a acordos, para alcançar um entendimento que favoreça a população e o próprio planeta.
Síndrome do estresse político

A incerteza política

Nos dias de hoje todos nós vamos deitar sem saber o que vai acontecer amanhã. Acordamos cada dia com uma notícia diferente sobre corrupção, escutas e grampos, ameaças, delações, e a nível mundial, ataques terroristas e imigrantes que perdem a vida…

A esses fatos são adicionadas ainda outras questões que são fonte de preocupação para cidadão com muita frequência. Elas têm relação com as políticas sociais, como é o caso do aumento dos impostos ou das mudanças na previdência. A política hoje joga a pessoa em um contexto de imprevisibilidade quase absoluta.

Da indignação ao desamparo

Esse fator é muito interessante de um ponto de vista psicológico. Com cada escândalo, corrupção descoberta, decisão legislativa que traz danos à população, é comum que, em um primeiro momento, todos nos sintamos indignados.

No entanto, pouco a pouco chega o dia no qual nada mais nos surpreende, nenhum novo fato descoberto, nenhum novo escândalo ou dano aos cofres públicos.

Quase sem saber como, uma parte da população cai em desamparo. É o pensamento de “não tem o que fazer, as coisas são assim”. Nossa reação atualmente diante de muitas declarações é simplesmente rir e lembrar de todos os absurdos que já foram falados em tom de piada.

Toleramos situações inconcebíveis de personagens públicos porque parece, simplesmente, que não há solução, que é impossível sermos representados com dignidade.

Político jurando em falso

Como lidar com a síndrome do estresse político?

Esse não é um tema novo. Entendemos que esse tipo de fenômeno é comum em certos momentos da vida política. Eles aconteceram várias vezes ao longo da história e é provável que continuem se repetindo.

No entanto, hoje contamos com um elemento a mais que até então não era tão presente, e que torna o impacto mais forte. Por isso acabamos atingindo o extremo da síndrome do estresse político.

Estamos falando dos meios de comunicação e da quantidade infinita de informação, das notícias virais, das fake news, de ligar a televisão e ver sempre exatamente os mesmos temas repetidos milhões de vezes. O que podemos fazer diante desse fenômeno que nos afeta tão cotidianamente?

  • O mais importante é justamente nunca cair em desamparo.
  • Assim como acontece com o estresse, de nada vale ficar quieto e assumir uma atitude passiva diante dos elementos estressores.
  • Desse jeito, intensificaremos ainda mais o mal-estar. A chave é controlar a exposição. Limitar a si próprio para ver ou ler apenas o suficiente. Preocupar-se em receber informação verídica e não perder nunca o senso crítico.

Sentir-se infeliz com a atual situação política é algo justo, respeitável e compreensível. No entanto, se cairmos no desamparo e na passividade, permitiremos que a situação se torne crônica.

O ativismo, a participação na questões públicas, é talvez um dos direitos mais valiosos do cidadão, mesmo que esse valor seja por tudo o que custou a tantas pessoas para tê-lo garantido. Os políticos são nossos representantes apenas na medida em que os elegemos.

O problema aparece quando o político quer aproveitar o seu cargo para enganar a sociedade que o colocou nesse lugar de privilégio. Por outro lado, o problema pode desaparecer quando a sociedade aprender a agir para banir aqueles que a traíram.

  • Tetlock, P. E. (2007). Psychology and politics: The challenges of integrating levels of analysis in social science. In A. W. Kruglanski & E. T. Higgins (Eds.), Social psychology: Handbook of basic principles (pp. 888-912). New York, NY, US: Guilford Press.