Biografia de Pierre Bourdieu: uma vida dedicada a compreender as práticas de poder

Pierre Bourdieu foi um renomado sociólogo e intelectual francês que teorizou sobre as interseções do gosto, classe e educação.
Biografia de Pierre Bourdieu: uma vida dedicada a compreender as práticas de poder

Última atualização: 27 Setembro, 2021

Hoje vamos expor uma breve biografia de Pierre Bourdieu, uma figura influente na vida intelectual francesa na segunda metade do século XX. Seu trabalho é dominado pela análise sociológica dos mecanismos de reprodução das hierarquias sociais.

Bourdieu é conhecido por termos pioneiros como “violência simbólica”, “capital cultural” e “habitus”. A seguir, vamos analisar o seu pensamento e suas principais obras.

O início da biografia de Pierre Bourdieu

A biografia de Pierre Bourdieu tem início com o seu nascimento em 1 de agosto de 1930 em Denguin (Pirineus Atlânticos, França), em uma casa pobre. Ele era filho único. Seu avô era meeiro e seu pai começou como carteiro até que, mais tarde, se tornou chefe dos correios. Pierre cresceu em uma pequena cidade francesa e estudou em uma escola pública nas proximidades, antes de se mudar para Paris para estudar no Lycée Louis-le-Grand.

O jovem Bourdieu estudou Filosofia na École Normale Supérieure de Paris. Depois de terminar seus estudos universitários, ele conseguiu um emprego na Moulins High School. Nesta escola, trabalhou como professor de filosofia durante um ano. Durante este período, Bourdieu cumpriu as suas obrigações militares e, apesar de se recusar a receber formação como Oficial Cadete da Reserva, conseguiu posicionar-se em Versalhes, a serviço das forças psicológicas.

Pierre aproveitou sua inegável habilidade de redação e atuou na administração da Assembleia Geral de Residência, sob o comando de Robert Lacoste. Entre 1958 e 1960, Bourdieu conduziu uma extensa pesquisa etnográfica durante a guerra da Argélia.

Bourdieu estudou o conflito por meio do povo Kabyle. Os resultados deste estudo foram publicados em seu primeiro livro, Sociologie de L’Algerie (Sociologia da Argélia). Este trabalho lançou as bases da sua reputação sociológica.

Obra de Pierre Bourdieu

Em 1960, após sua estada em Argel, Bourdieu retornou a Paris e retomou seu trabalho como professor na Universidade de Lille, onde trabalhou até 1964. A partir de 1964, Bourdieu ocupou o cargo de Diretor de Estudos na École Pratique des Hautes Études.

Após a convulsão social de maio de 1968, Pierre fundou o Centro de Sociologia da Educação e Cultura. Este centro estava ligado ao Center for European Sociology, o centro de pesquisa que dirigiu de 1985 até a sua morte.

Em 1975, ele lançou a revista interdisciplinar Actes de la recherche en sciences sociales. Essa revista foi importante para transformar os padrões aceitos da produção sociológica. Além disso, a revista contribuiu para elevar o rigor científico da sociologia. Nesse mesmo ano, em colaboração com Jean-Claude Passeron, publicou o livro Os Herdeiros, obra que, sem dúvida, é a base do seu sucesso. Desde 1981, foi professor da conceituada cátedra de Sociologia do Collège de France.

“O objetivo do meu trabalho é mostrar que cultura e educação não são apenas hobbies ou pequenas influências.”
-Pierre Bourdieu-

Bourdieu, além de seu trabalho como docente, desenvolveu um grande trabalho editorial que lhe permitiu divulgar seu pensamento. Os reconhecimentos por seu trabalho não tardaram a chegar e Bordieu recebeu vários prêmios nacionais e internacionais pela sua carreira.

Em 1993, Pierre Bourdieu foi o primeiro sociólogo a receber a Médaille d’or du Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Em 1996, ele recebeu o Prêmio Goffman da Universidade da Califórnia em Berkeley. Pouco depois, em 2002, recebeu a Medalha Huxley do Royal Anthropological Institute.

Bourdieu casou-se com Marie-Claire Brizard em 1962 e eles tiveram três filhos: Jerónimo, Emmanuel e Lauren. Em meados da década de 1960, mudou-se com a família para Antony, um subúrbio ao sul de Paris. Ele morreu de câncer em 2002. Segundo o diário parisiense Le Monde, Bourdieu foi o intelectual francês mais citado na imprensa mundial.

O legado cultural

Bourdieu foi um ávido ativista político e um ferrenho oponente das formas modernas de globalização. Seu trabalho empregou métodos que abrangeram uma ampla gama de disciplinas: da filosofia e teoria literária à sociologia e antropologia. Este estudioso viu a sociologia como uma arma contra a opressão social e a injustiça.

Bourdieu usou as armas do intelecto para descobrir mecanismos até então desconhecidos que contribuíram para perpetuar a separação e as desigualdades existentes entre os diferentes grupos sociais. Ele dedicou sua vida a lutar por um mundo melhor para todos.

O discurso de Bourdieu foi acentuado nos últimos anos de sua vida com novos argumentos contra o neoliberalismo. Além disso, ele lutou a favor da sociedade civil e do nascente fórum social mundial.

Este pensador estava ativamente envolvido com os sindicatos e várias ONGs. Ele se manteve próximo a movimentos de defesa de imigrantes e associações cívicas contra posições neoliberais.

Talvez um dos passos mais significativos que Bourdieu tenha dado foi contribuir com dois novos conceitos ligados à sociologia: habitus e campo, além de reinventar o conceito de capital.

Seu legado para o pensamento universal: o capital simbólico

“A função da sociologia, a partir de todas as ciências, é revelar o que está oculto.”
-Pierre Bourdieu-

Ao analisarmos a biografia de Pierre Bourdieu, vemos que ele propôs uma série de conceitos polêmicos, que foram criticados pelo seu determinismo.

Um bom exemplo é a tese do sociólogo de que a escola funciona reproduzindo as diferenças familiares, sociais e de classe. Essa função é desempenhada quando seleciona e legitima os indivíduos mais dotados culturalmente em função da sua origem familiar. Nesse sentido, segundo Bordieu, a escola é um meio de promoção social, mas, ao mesmo tempo, é um instrumento de marginalização e discriminação.

Por meio dessa linha de análise, Bourdieu conclui que a condição social das classes médias está baseada em recursos extraídos do sistema educacional, sendo seu principal capital o cultural.

Bourdieu distingue entre capital econômico, social e cultural. O capital social fornece laços sociais, prestígio e pertencimento. Por sua vez, o capital social se acumula coletivamente, mas de forma altamente seletiva e exclusiva.

Para Bourdieu, todos os capitais tendem a se tornar capital econômico. O sentido último da acumulação dos diferentes tipos de capital é melhorar a detenção do capital simbólico.

A posse dos diferentes tipos de capitais define a localização da pessoa em um mapa que desenha diferentes espaços sociais, também chamados de campo. As distâncias sociais entre as estruturas definem as chamadas classes sociais, que se “integrariam” obedecendo, especialmente, às diferentes distribuições de capital econômico e social.

Esses espaços ou campos são ocupados por agentes com diferentes habitus e com diferentes capitais. São agentes tanto pelos recursos materiais quanto simbólicos do campo.

Os vínculos entre as pessoas

Teoria do poder: violência simbólica

Bourdieu postulou que a naturalização do mundo social obedece a uma forma de dominação baseada na violência simbólica. Segundo Bourdieu, essa violência simbólica é exercida por quem a sofre. São eles que a perpetuam, internalizando-a como uma característica da sua própria identidade.

Essa premissa propõe que esse é o mecanismo pelo qual as formas de dominação derivadas da distribuição assimétrica do capital são reproduzidas e naturalizadas simbolicamente.

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  • Boyer, P. (1996). La sociología de Pierre Bourdieu. Reis, (76), 75-97. doi:10.2307/40183987
  • Fowler, B. (1997) Pierre Bourdieu and Cultural Theory: Critical Investigations. Londres: Sage Publications.