Biografia de William Blake, um visionário da criação artística

janeiro 28, 2020
Muitos dos trabalhos de William Blake são inspirados por visões que ele próprio tinha. São imagens cheias de simbolismo que também estão em livros quase proféticos, como "Urizen" e "O Livro de Athania".

Conheça a biografia de William Blake, um gênio artístico que deu vida a pinturas, gravuras e poesias. No entanto, ele próprio viveu na escuridão e morreu na pobreza. Enquanto era vivo, a sua visão de arte nunca foi reconhecida, com seu estilo espiritual, fantástico e idealista ao mesmo tempo.

Quase sem saber, ele antecipou, com suas pinceladas e versos, a base do Romantismo que viria logo depois.

Blake é, possivelmente, um dos artistas mais singulares e interessantes da nossa história. Ele estava ligado ao sagrado e ao misticismo bíblico tão peculiar em que costumava se inspirar. No entanto, também era um homem perturbador e, muitas vezes, taxado de louco pelas visões que afirmava ter desde os quatro anos de idade.

Ao longo de sua vida, ele dizia que recebia visitas de entidades aladas e também demoníacas. Essas presenças guiaram o seu estilo e a sua arte para esboçar grande parte de suas gravuras, bem como muitos de seus livros.

Obras como Urizen, O Livro de Athania, O Livro de Los, Vala e Quatro Zoas incluem um estilo profético pouco visto até então. Tudo isso o levou a receber o apelido de Bad Blake (Blake, o louco).

Apesar da loucura, doença ou simples força criativa, William Blake é considerado hoje uma referência no mundo da arte. Foi uma mente incompreendida que viu na criação uma maneira de atingir a própria divindade, de transcender além do mundo material em que ele sempre se viu aprisionado.

A pintura e as letras eram o seu canal estético particular, no qual ele deixava a marca da sua solidão, emoções e avassaladores ideais visionários.

“Não estou interessado em raciocinar e comparar: o meu objetivo é criar”.
-W. Blake-

Biografia de William Blake

Biografia de William Blake, um jovem artista com visões proféticas

William Blake nasceu em Londres em 1757. Pertencia a uma família de classe média, foi educado em casa com seus 7 irmãos e, em seu lar, tudo girava em torno de duas dimensões muito específicas: a Bíblia e a arte.

Os historiadores acreditam que seus pais pertenciam a uma seita religiosa radical conhecida como “Dissenters”, algo que poderia marcar ainda mais essa visão mística e espiritual que o inspiraria tanto em sua maturidade artística.

Apesar de não frequentar nenhuma escola, William Blake sempre sentiu uma grande atração pelo desenho. Ele copiava obras de Rafael, Michelangelo, Marten Heemskerk e Albrecht Durer. Com a ajuda de sua mãe, conseguiu explorar o gênero poético nas obras de Ben Jonson e Edmund Spenser.

Ele era um jovem com grande determinação artística, tinha um impulso tão forte que o transformou em um aprendiz de gravador (alguns autores chamam de gravurista) em 1772. Esse treinamento durou 7 anos e Blake se tornou um artista da Sociedade de Antiquários e da Sociedade Real.

Aos 21 anos, começou a trabalhar para vários editores, copiando as gravuras dos túmulos dos reis e rainhas da Abadia de Westminster.

Mais tarde, ele completaria a sua formação como pintor após ser admitido nas Escolas de Design da Real Academia de Arte. Nesta primeira etapa de sua vida, era comum que muitos dos seus trabalhos partissem diretamente das visões que ele experimentava desde a infância. Ao seu redor e, segundo o próprio Blake, era comum a visão de monges, anjos e demônios.

William Blake, um dissidente intelectual

Em 1782, William Blake se casou com a jovem Catherine Boucher. Ela era uma garota de classe humilde a quem ele ensinou a ler e escrever. Ele também a apresentou ao mundo da arte, a treinou como gravurista para torná-la sua companheira de vida e também de trabalho.

As pinturas de William Blake

Nessa época, William e seu irmão Robert reuniram capital suficiente para abrir uma gráfica. Isso lhes permitiu apoiar todos os intelectuais dissidentes da época; filósofos, escritores e cientistas revolucionários, como Joseph Priestley, Richard Price, Henry Fuselli e Mary Wollstonecraft (uma das primeiras feministas e mãe de Mary Shelley, autora de Frankenstein).

William Blake publicou os seus próprios trabalhos, como Esboços poéticos, Canções da inocência e Visões das filhas de Albion. Nesta última, ele defendia aspectos tão avançados quanto o direito das mulheres à realização pessoal.

Nessa época, ele começou a inovar em sua técnica de gravura. Após uma de suas visões, ele testou a técnica de água-forte para ilustrar os livros de poemas, moldando assim o que chamou de impressão iluminada.

Entre 1775 e 1789, aconteceram duas grandes revoluções no mundo: a americana e a francesa. Todos esses movimentos sociais também atuaram como uma fonte de grande inspiração para William Blake. Ele sempre defendeu uma liberdade exaltada pelo individualismo, muito na linha de Nietzsche.

“Se as portas da percepção fossem limpas, tudo pareceria ao homem como realmente é: infinito”.
-Willian Blake-

A arte incompreendida e criticada de William Blake

Em 1804, William Blake começou o seu trabalho mais ambicioso: Jerusalém. Um livro que ilustrou e escreveu enquanto começava a expor muitas de suas obras, como Peregrinos de Canterbury de Chaucer e Satanás invocando as suas legiões.

No entanto, todas as suas obras, literárias e artísticas, só receberam zombarias, indiferença ou críticas que o qualificaram como o infeliz lunático Blake, o louco.

A partir de 1809, Blake foi envolvido pelo seu próprio ostracismo. O desencanto e a consciência de que o seu trabalho nunca seria reconhecido fizeram com que se separasse um pouco mais de suas gravuras, pincéis e versos. Pouco a pouco, afundou na escuridão e na pobreza absoluta. Ele morreu aos 65 anos e foi enterrado no cemitério de Bunhill Fields, em Londres.

O legado de um artista que escolheu olhar para dentro de si mesmo

William Blake não era um pintor da natureza, como eram muitos dos artistas britânicos de sua época. Ele evitava a observação direta porque a sua inspiração vinha de dentro: de seu universo convulsionado e habitado por visões proféticas.

O seu olhar não assistia ao nascer do sol, a árvores ao vento, nem oceanos nem abadias, como na obra de Caspar David Friedrich.

Obras de William Blake

No legado poético e nas gravuras de Blake está a escuridão do inacessível. Existe também aquela força mística que assusta instantaneamente, que inquieta e que parece revelar uma mensagem indecifrável.

Para muitos críticos, o seu trabalho tinha algo de blasfêmia, outros adivinharam em seus versos e em seus desenhos aquele ar premonitório que o tornaria uma figura chave e excepcional no Romantismo.

  • Bindman, D (2003) “Blake como pintor” en The Cambridge Companion a William Blake , ed. Morris Eaves. Cambridge: Cambridge University Press
  • Hamblen, Emily (1995) William Blake: poeta y místico . EP Dutton & Company.
  • Peter Ackroyd, “Genius spurned: Blake’s doomed exhibition is back”, The Times Saturday Review, 4 April 2009