Biografia de Yeonmi Park, a menina que enfrentou o monstro

dezembro 20, 2019
Yeonmi Park é uma jovem que atualmente tem 25 anos, vive nos Estados Unidos e luta pelos direitos humanos. Quando tinha apenas 13 anos, viveu uma experiência muito forte ao fugir da Coreia do Norte rumo à China. Esta é sua história.

A biografia de Yeonmi Park conta a história de uma mulher que, com apenas 13 anos, enfrentou um teste de magnitudes extraordinárias; ela sequer sabia do que se tratava.

Atualmente, ela é uma profissional de sucesso que vive nos Estados Unidos, mas em 2007 sua vida era a de uma norte-coreana que ignorava por completo como funcionava o mundo além das fronteiras de seu país.

A primeira vez que teve noção de que existia uma realidade diferente da que conhecia foi quando viu o filme Titanic. Assistir filmes era uma coisa proibida pelo regime norte-coreano, mas materiais desse tipo circulam pelo mercado negro.

Quando Yeonmi Park assistiu o filme, descobriu que o amor entre casais existia e que era possível morrer por amor a alguém, e não só à pátria.

“Até mesmo os pássaros e ratos podem te ouvir sussurrar, você sente medo, submissão, doutrinamento político e social. Não pense diferente, não exponha a sua opinião, não coloque nada em questão. Obedeça, renuncie a sua individualidade.”
-Yeonmi Park

Por mais estranho que pareça, Yeonmi Park disse que não existem palavras para definir esse amor na Coreia do Norte. Nenhum dos termos usados nos âmbitos individuais, privados ou pessoais existem por lá. Tudo é coletivo, tudo é “nós”.

Por essa razão, quando fugiu de seu país natal, na verdade, não sabia para onde estava indo ou por que deveria fugir.

Estrada ao entardecer

A infância de Yeonmi Park

Yeonmi Park nasceu em 4 de outubro de 1993 na Coreia do Norte. Sua família tinha uma condição financeira melhor do que a média dos habitantes, pois seu pai era membro do Partido do Trabalho da Coreia.

Ele exercia um cargo no Conselho e era uma pessoa respeitada. Tudo começou a mudar por conta da crise econômica que o país viveu durante os anos 90.

Os bens básicos começaram a ficar escassos e seu pai criou e participou de uma rede de contrabando em busca de uma melhor qualidade de vida. No entanto, como a Coreia é um dos países mais fechados do mundo, suas atividades foram detectadas pelas autoridades.

Como consequência, ele foi enviado a um campo de trabalho forçado por um tempo. Yeonmi Park, sua irmã Eunmi e sua mãe passaram muita fome naquela época.

Elas moravam em uma área próxima da fronteira com a China. Yeonmi Park via as luzes dos povoados desse país e achava que se chegasse até lá, poderia conseguir alguma comida. Quando seu pai voltou do castigo, sugeriu que fugissem para a China.

Sua irmã, Eunmi, desapareceu da noite para o dia e, embora todos pensassem que ela tinha fugido, ninguém tinha certeza.

A fuga para a China

A motivação de Yeonmi Park para fugir para a China com sua mãe foi simplesmente a de imaginar um lugar no qual, talvez, pudessem comer um prato de arroz. Elas não estavam fugindo do regime, e sim da fome.

Seu pai não pôde acompanhá-las porque estava doente naquela época. Uma vez que cruzaram a fronteira, encontraram traficantes de pessoas.

Aqueles que fogem da Coreia do Norte para a China são deportados pelas autoridades. Os chineses têm consciência da situação e alguns criaram todo um negócio ao redor desse drama. Estes foram os tipos de pessoas que Yeonmi e sua mãe encontraram ao cruzar a fronteira. Um dos traficantes quis estuprá-la, mas sua mãe se ofereceu em troca dela e foi estuprada na frente de Yeonmi.

Mais tarde, ambas as mulheres foram vendidas a dois fazendeiros diferentes. Yeonmi tentou tirar a própria vida quando foi separada de sua mãe. No entanto, o fazendeiro que a comprou disse que a transformaria em sua amante, que iria ajudá-la a se reunir novamente com sua família e, surpreendentemente, ele cumpriu sua promessa.

Yeonmi Park

Uma nova página na biografia de Yeonmi Park

Com o tempo, Yeonmi pôde se reunir com sua mãe e, juntas, conseguiram levar seu pai para a China. Infelizmente, ele tinha uma câncer muito avançado e morreu em pouco tempo, com apenas 45 anos.

Para não chamar a atenção, não fizeram um funeral para ele. Simplesmente o enterraram em uma montanha próxima. Mais tarde, as duas mulheres encontraram o apoio de missionários chineses que as ajudaram a ir para a Mongólia.

Lá, outra vez, estiveram em risco, mas ameaçaram tirar a própria vida se fossem deportadas para a Coreia do Norte. Finalmente, conseguiram chegar na Coreia do Sul. Para Yeonmi Park, era como se elas estivessem em outro planeta.

Ela conta que, no primeiro dia de aula em sua nova escola, a professora lhe perguntou qual era a sua cor favorita e ela não soube o que responder. Ela não tinha nem ideia do que era ter uma preferência individual.

Yeonmi Park se tornou uma defensora dos direitos humanos e se engajou na luta contra o tráfico de pessoas. Atualmente, vive nos Estados Unidos, onde se casou e tem uma filha. Felizmente, seu pesadelo ficou para trás e conseguiu se reencontrar com sua irmã na Coreia do Sul.

É necessário dizer que alguns especialistas em assuntos coreanos colocaram a veracidade de sua história em questão, mas até o momento não existe nenhuma evidência de que ela seja falsa.

Seja como for, trata-se de uma história que mostra como a sociedade e a cultura que nos rodeiam nos influenciam diretamente. O fato de não conhecer uma preferência individual, de não possuir conhecimentos sobre o amor, é característico de um regime de submissão. A língua nos liberta, mas também pode nos prender.

Esta biografia de Yeonmi Park pode ser verdadeira ou não, e talvez seja um pouco de cada, formada por lembranças que foram alteradas pelas emoções.

  • Bosch, X. B. (2017). ¿Los falsos mantras norcoreanos? Desnuclearización, colapso del régimen y reunificación. Comillas Journal of International Relations, (9), 19-45.