Sua capacidade de recuperação está dentro de você

· maio 12, 2019
Todo processo de recuperação leva tempo e nos obriga a transitar por caminhos tão obscuros quanto desafiadores. No entanto, dentro de nós há uma força imensa, um impulso guiado pela resiliência que somos obrigados a despertar.

Quando a vida nos deixa em pedaços ou quando a mente nos leva à deriva inexplicável da angústia, só nos resta uma opção: a reconstrução. Ao mesmo tempo, é necessário recordar que em cada um de nós reside uma grande capacidade de recuperação. No nosso interior, há uma matéria indispensável para unir cada pedacinho fragmentado da nossa autoestima. Está no nosso coração o farol que nos levará de volta ao equilíbrio.

Quando fazemos referência ao conceito de “recuperação” como tal, cabem diversas observações. No entanto, no momento em que nos referimos à saúde mental e emocional, parece que o tema se torna um pouco mais complicado. Vamos analisar um exemplo. Quando alguém quebra um braço, passa por uma gripe ou está convalescente após uma intervenção cirúrgica, ninguém tem problemas em dizer algo como “força, você vai ficar bem logo, vai se recuperar”.

No entanto, o que acontece quando o que temos à nossa frente é uma depressão ou um transtorno de ansiedade? Se consultarmos o dicionário, o termo recuperação é definido como “o ato ou processo de recuperar a saúde depois de uma doença ou uma lesão”. Então, o que acontece com quem não está enfrentando uma doença viral ou infecciosa ou, ainda, se recuperando de um osso quebrado?

Muito além do que podemos pensar, poucos desafios são tão complicados quanto aquele enfrentado por todas as pessoas que lidam com algum problema de saúde mental. Suas feridas não podem ser vistas a olho nu. Essas pessoas não usam muletas e raramente pedem afastamento do trabalho.

E mais, por vezes nem sequer chega-se a iniciar esse processo de cura porque as pessoas não se atrevem a pedir ajuda ou não têm consciência de que esse mal-estar esconde, na verdade, um transtorno psicológico. Dessa forma, assim como mostra um estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 50% da população que tem problemas emocionais e mentais nunca recebe tratamento.

 “Se você acha que as mudanças acabaram, na verdade foi você que colocou um muro em sua vida”.
-Benjamin Franklin-

Capacidade de recuperação

Sua capacidade de recuperação está dentro de você: a conexão com o Eu

Sua capacidade de recuperação está dentro de você, mas talvez você ainda não a tenha encontrado. Porque a vida, por vezes, machuca muito e nos deixa encurralados sem mais recursos do que o próprio medo e a sensação de fazer parte de uma torre de Babel. É nesses momentos que mais precisamos da ajuda de um especialista por uma razão: para entender o que acontece conosco e saber quais estratégias podem ser úteis para sairmos de uma encruzilhada.

A primeira coisa que devemos entender de qualquer processo de recuperação é que o retorno à superfície passa por introduzir mudanças, por interromper a inércia. Somos obrigados a ir além desses limites nos quais estão contidos a comodidade e muitas das relações de apego, essas que nos levam a retroalimentar círculos viciosos de sofrimento, ansiedade e infelicidade.

D. W. Winnicott, famoso psiquiatra e psicanalista britânico, costumava afirmar que o caminho para a cura mental passa por reclamar a própria dignidade humana a fim de se reconectar com o verdadeiro eu. Por vezes, nós nos deixamos levar por dinâmicas internas pouco adequadas, configurando, de algum modo, um “falso eu”.

Essa ideia se relaciona, por sua vez, com a tese do psicólogo humanista Carl Rogers. De acordo com o que nos apresentava em seus livros e suas abordagens, nós somos obrigados a “nos atualizar” constantemente. Em sua linha de pensamento, Rogers nos recomenda deixar de lado crenças e estados prejudiciais ou desgastantes para despertar todo o potencial do nosso ser. Esse ser que habita em nosso interior em forma de semente, esperando ser cuidada para germinar…

Homem se olhando no espelho

Pontos-chave no processo de recuperação

Todo caminho que leva à recuperação precisa de um apoio adequado. Nós temos consciência de que é essencial contar com assistência especializada e profissional. Sabemos também que sempre é recomendável ter ao nosso lado pessoas capazes de nos entender, incentivar e proporcionar afeto e compreensão. Devem ficar de lado, portanto, aqueles que julgam ou que prejudicam voluntariamente com suas palavras.

Ao mesmo tempo, é necessário esclarecer um aspecto crucial. Além desse meio especializado e facilitador, o processo de recuperação depende apenas de nós mesmos. São nossos a coragem, o esforço, o ato de reunir (ou não) forças naqueles dias em que só desejamos o silêncio e a penumbra de um quarto escuro.

Caminho rumo à recuperação

Vamos analisar, portanto, quais são os pontos-chave em qualquer caminho em direção à recuperação.

  • Encontrar a esperança e um motivo. As pessoas se comprometem com o processo terapêutico porque, de alguma maneira, esperam sair dele melhores do que entraram.
  • Entender o que está acontecendo conosco. Como primeiro passo, antes de iniciar qualquer tipo de intervenção, seria sábio dedicar nossos recursos a entender o que estamos enfrentando (depressão, ansiedade, falta de habilidades sociais, etc.). Sem o conhecimento do nosso “inimigo”, é complicado colocar em prática uma intervenção inteligente.
  • Elaborar um plano. Todo processo de recuperação demanda um plano que vamos traçar com convicção, embora sempre tenha uma certa margem para a adaptação.
  • Reconectar-se com a vida de outra maneira. Uma base de hábitos saudáveis sempre será uma ajuda de inestimável valor frente a qualquer dificuldade. A automatização nos permite liberar recursos que podemos dedicar exatamente a encarar essas dificuldades. Falamos de iniciar outras práticas, conhecer pessoas novas, deixar de lado as velhas rotinas.
  • Reafirmar a cada dia a nossa melhor versão. À medida que formos nos sentindo melhor, será mais fácil valorizar nossas habilidades. Vamos descobrindo quão grande a nossa força pode chegar a ser.

Para concluir, falta destacar um aspecto. Esse trajeto, essa viagem à recuperação leva algum tempo. Vamos passar por recaídas e retrocessos. No entanto, cada passo que dermos para trás servirá, muitas vezes, para pegar impulso. Porque a recuperação é, acima de tudo, uma viagem de grandes aprendizagens e autoconhecimento.

  • M. Hall, Carrie (2006) Ejercicio terapéutico y recuperación. Barcelona: Paidotribo