Exercício e saúde mental: quando a prática se torna excessiva?

abril 21, 2019
De acordo com um estudo, o exercício melhora significativamente nossa saúde mental, o que teria uma influência direta em nosso humor e em nossos comportamentos de autocuidado. 

Exercício e saúde mental são dois fatores com uma relação direta em nosso humor. Muitos estudos sugerem que o exercício pode ajudar as pessoas a lidar com problemas de saúde mental, bem como a aumentar o bem-estar. Por outro lado, um estudo recente confirma uma hipótese que deve servir de alerta: o exercício em excesso pode afetar negativamente a saúde mental.

O estudo observacional, o maior deste tipo realizado no mundo até hoje, descobriu que pessoas que praticam exercícios relatam menos dias com problemas de saúde mental (em média 1,5 dia a menos por mês) em comparação com as pessoas que não praticam exercícios.

O estudo também descobriu que os esportes em equipe, o ciclismo, o exercício aeróbico e ir à academia estão associados com as maiores reduções no mesmo sentido. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Yale em New Haven, Connecticut (Estados Unidos).

O estudo foi realizado com o objetivo de entender melhor como o exercício afeta a saúde mental de uma pessoa. Além disso, tentou-se identificar quais tipos de exercício são melhores para obter um impulso emocional. Também se perguntaram o quanto de exercício é demais. Um documento com esta e outras descobertas foi publicado na revista The Lancet Psychiatry.

“O exercício está associado a uma menor carga de saúde mental nas pessoas, independentemente de sua idade, raça, sexo, renda familiar e nível educacional”, diz o Dr. Adam Chekroud, autor principal do estudo. Chekroud também explica: “[…] os detalhes da distribuição do exercício, assim como o tipo, a duração e a frequência, desempenharam um papel importante nessa associação. Agora estamos usando isso para tentar personalizar as recomendações de exercícios e unir as pessoas a um regime específico de exercícios que ajude a melhorar sua saúde mental”.

Relação entre exercício e saúde mental

Relação entre exercício e saúde mental

Mais exercício nem sempre foi melhor. O estudo descobriu que praticar exercício por 45 minutos de três a cinco vezes por semana foi associado com os maiores benefícios. O estudo incluiu todos os tipos de atividade física, desde cuidar de crianças, realizar tarefas domésticas, cortar a grama e pescar até praticar ciclismo, ir à academia, correr e esquiar.

Sabemos que o exercício reduz o risco de sofrer de doença cardiovascular, acidente vascular cerebral, diabetes; portanto, reduz a mortalidade. No entanto, sua associação com a saúde mental ainda não está clara. A pesquisa descrita sobre o efeito do exercício na saúde mental tem resultados contraditórios.

Enquanto algumas evidências sugerem que o exercício pode melhorar a saúde mental, a relação pode ir em ambos os sentidos. Por exemplo, a inatividade pode ser um sintoma e um contribuinte de uma má saúde mental, e ser ativo pode ser um sinal de resiliência ou até contribuir para a mesma. Os autores apontam que seu estudo não consegue estabelecer o que é causa e o que é efeito.

No estudo, os autores usaram dados de 1,2 milhão de adultos nos 50 estados dos EUA que completaram o levantamento do sistema de vigilância do fator de risco comportamental em 2011, 2013 e 2015. Este incluiu dados demográficos, assim como informações sobre saúde física, saúde mental e comportamentos de saúde. O estudo não levou em conta outros transtornos mentais além da depressão.

Os participantes deveriam calcular em quantos dias, dos últimos 30, haviam tido a sensação de que suas mentes não funcionavam bem frente ao estresse, à depressão e a outros problemas emocionais.

Também foram questionados sobre a frequência com que haviam praticado algum tipo de exercício nos últimos 30 dias fora de seu trabalho regular, assim como quantas vezes por semana ou por mês praticaram este exercício e durante quanto tempo. Todos os resultados foram ajustados por idade, raça, sexo, estado civil, renda, nível educacional, situação empregatícia, índice de massa corporal, saúde física autodeclarada e diagnóstico prévio de depressão.

Resultados do estudo

Em média, os participantes experimentaram 3,4 dias com problemas de saúde mental por mês. Em comparação com as pessoas que relataram que não praticaram exercícios, as pessoas que praticaram relataram 1,5 dia a menos com problemas de saúde mental a cada mês, uma redução de 43,2% (2,0 dias para as pessoas que praticaram exercícios contra 3,4 dias para pessoas que não praticaram).

A redução no número de dias de saúde mental ruim foi maior para as pessoas que haviam sido diagnosticadas previamente com depressão, onde o exercício foi associado com 3,75 menos dias de saúde mental ruim, em comparação com as pessoas que não praticaram exercícios, equivalente a uma redução de 34,5% (7,1 dias para pessoas que se exercitaram em comparação com 10,9 dias para pessoas que não se exercitaram).

Em geral, 75 tipos de exercícios foram registrados e agrupados em oito categorias: exercícios aeróbicos e de academia, ciclismo, tarefas domésticas, esportes coletivos, atividade recreativa, correr e trotar, caminhar ou esportes aquáticos.

Todos os tipos de exercício foram associados a uma melhor saúde mental. No entanto, as associações mais fortes para todos os participantes foram observadas nos esportes coletivos, no ciclismo e nos exercícios aeróbicos e de academia (redução nos dias de saúde mental ruim de 22,3%, 21,6% e 20,1%, respectivamente). Inclusive, a realização de tarefas domésticas foi associada a uma melhora (redução de dias de saúde mental ruim de cerca de 10%, ou cerca de meio dia a menos por mês).

A associação entre o exercício e a melhora da saúde mental foi maior do que a da saúde mental com outros fatores sociais ou demográficos (uma redução de 43,2% na saúde mental ruim). Por exemplo, as pessoas com ensino superior tiveram uma redução de 17,8% de dias de saúde mental ruim em comparação com as pessoas sem escolaridade; as pessoas com IMC normal tiveram uma redução de 4% em comparação com as pessoas obesas. Além disso, as pessoas com renda anual acima de US$ 50.000 apresentaram uma redução de 17% em comparação com as pessoas que ganham menos.

Exercício e saúde mental: um binômio nem sempre vencedor

A frequência e o tempo que as pessoas passavam praticando exercícios também foi um fator importante. As pessoas que praticavam exercício de três a cinco vezes por semana afirmaram ter uma melhor saúde mental do que aquelas que praticavam menos ou mais exercício por semana (que é associado com cerca de 2,3 dias a menos de saúde mental ruim em comparação com as pessoas que praticavam exercício duas vezes por mês).

Praticar exercício durante 30 a 60 minutos foi associado a uma maior redução em dias de saúde mental ruim (associado a cerca de 2,1 dias a menos de saúde mental ruim em comparação com as pessoas que não praticavam exercícios). Ainda foram observadas pequenas reduções nas pessoas que praticavam exercícios por mais de 90 minutos por dia. No entanto, praticar exercícios por mais de três horas por dia foi associado a uma saúde mental pior do que a falta de exercício.

Os autores apontam que as pessoas que praticam quantidades excessivas de exercícios podem ter características obsessivas. Estas podem colocá-las em maior risco de sofrer de uma má saúde mental.

Exercício e saúde mental: um binômio nem sempre vencedor

Comentários finais

Os pesquisadores afirmam que a descoberta de que os esportes coletivos estão associados à menor carga de uma saúde mental ruim pode indicar que as atividades sociais promovem a resiliência e diminuem a depressão ao reduzir o isolamento social, dando aos esportes sociais uma vantagem sobre outros tipos de esportes.

O estudo utilizou a autoavaliação das pessoas sobre seus níveis de saúde mental e de exercício físico. Portanto, nos referimos à saúde mental percebida, e não à saúde mental objetiva. Além disso, os participantes foram questionados apenas sobre sua principal forma de exercício. Assim, poderia haver uma variância descontrolada se levarmos em conta as pessoas que praticam mais de um exercício.