Vazio existencial: o sentimento de que a vida não tem sentido

maio 5, 2019
O vazio existencial é uma espiral sem sentido. Uma sensação dolorosa de que o sentido da vida desapareceu e só há sofrimento e uma experiência de desconexão com o mundo exterior.

A vida não tem sentido. Essa é a crença principal daqueles que experimentam o doloroso sentimento de ‘viver por viver’, o peso da injustiça e uma espécie de desconexão com tudo que os rodeia. É o que chamamos de vazio existencial.

São geralmente pessoas reflexivas que exploram questões de grande importância, como a morte ou a falta de liberdade. No entanto, não conseguem se livrar de um vazio existencial profundo que as engole cada vez mais. Um vazio que a sociedade alimenta através das suas mensagens relacionadas a valores individuais e satisfação imediata.

Muitas vezes, também são aqueles que navegam na busca do prazer com o único propósito de anestesiar o seu sofrimento. A diferença é que eles não percebem o vazio que experimentam.

Para ambos, não há respostas para o sentido da vida. Nada os preenche, nada os satisfaz, e isto acaba por aprisioná-los em um estado psicológico de muito sofrimento. Na maioria dos casos, essa situação os leva a uma depressão profunda ou a um comportamento autodestrutivo.

O vazio existencial é a espiral do absurdo e o resultado de reconhecer a si mesmo como alguém que vê o mundo de uma perspectiva diferente para as inconsistências detectadas, ou como alguém que tenha ‘se deixado levar’ pela busca do prazer para evitar o sofrimento. Um fenômeno muito difundido hoje. Vamos nos aprofundar.

Vazio existencial

Nas profundezas do abismo

O desenvolvimento de um sentido de vida pode ser frustrado quando as metas e objetivos não são completados ou cumpridos; quando o choque entre expectativas e realidade é tão forte que somente a desilusão aparece, ou quando situações de crise ameaçam a sensação de segurança e certeza, e a pessoa não têm as ferramentas adequadas para lidar com elas.

Tudo isso leva a um profundo estado de frustração existencial que esvazia a pessoa por dentro e que às vezes leva a um abismo doloroso. É como se em seu interior houvesse um denso deserto, aquele em que o ilógico domina a existência e quase toda a capacidade de se conectar e sentir os outros é perdida.

Para o psicólogo Benjamin Wolan, este estado era chamado de neurose existencial. Ele o definiu como “a incapacidade de encontrar sentido na vida, a sensação de que não há nenhuma razão para viver, para lutar, para esperar… Um sentimento de ser incapaz de encontrar um objetivo ou uma diretriz na vida, a sensação de que mesmo que os indivíduos se esforcem muito em seu trabalho, na realidade eles não têm aspiração nenhuma”.

Alguns autores, como o psicoterapeuta Tony Anatrella, apontam para a busca constante de satisfação do ego como a causa dessa perda de sentido, uma vez que são ações egoístas que impedem a capacidade de transcendência pessoal.

Vazio existencial: a supremacia dos valores individuais

Outros autores afirmam que a perda do sentido está associada ao desaparecimento do outro, à supremacia dos valores individualistas e à obtenção do prazer como um mecanismo equivocado para ser feliz. Deste modo, a pessoa se apega aos seus desejos individuais e o sentido de referências sociais, como a coexistência, solidariedade ou respeito mútuo, entre outros, é diluído.

Assim, quando se confunde a realidade e os meios para alcançar a felicidade se tornam fins em si mesmos, existe o risco de cair no vazio existencial. As emoções agradáveis de curto prazo, como prazer ou alegria, proporcionam satisfação, mas não autorrealização, e como todo prazer, implicam o perigo de criar escravidão ou vício.

De alguma forma, o homem tem a necessidade de fazer algo com a sua vida, que não seja apenas bom, mas também feito por ele mesmo. Portanto, o sentido da vida está relacionado ao destino que você quer e precisa. Através desse desejo, o homem procura oferecer liberdade ao seu próprio desenvolvimento, pois quando vive plenamente, a sua liberdade transcende os limites de sua imanência e entende que o sentido da sua vida não se reduz apenas a algo material e finito, mas transcende, vai mais além.

O problema é quando isso não acontece como esperado, quando as circunstâncias não atendem às expectativas do seu projeto de vida e a ‘falta de sentido’ o leva ao abismo do vazio existencial.

Homem pensando no vazio existencial

A dimensão noética do homem

Segundo o psiquiatra suíço Viktor Frankl, o homem tem três dimensões principais:

  • Dimensão somática: é composta pelo campo corporal e biológico.
  • Dimensão psíquica: trata-se da realidade psicodinâmica, isto é, do universo psicológico e emocional.
  • Dimensão noética ou dimensão espiritual: ela abrange os âmbitos fenomenológicos da alma. Portanto, essa dimensão transcende as outras duas. Além disso, graças a ela, o ser humano pode integrar as experiências prejudiciais da existência e desenvolver uma vida saudável em um nível psicológico.

Assim, quando a pessoa experimenta um estado profundo de tédio, desânimo e se perde no labirinto de sua existência, tem conflitos em sua dimensão espiritual. Ela não é capaz de integrar as suas feridas e nem consegue identificá-las. Dessa forma, não consegue encontrar uma razão para a sua existência, de modo que se afoga no sofrimento e experimenta uma falta de significado, coerência e propósito.

Frankl afirma que esse vazio é a raiz de muitos transtornos mentais. Ou seja, a ruptura na dimensão noética ou espiritual, aquela sensação de que a existência não tem sentido, é expressa na dimensão psicológica através de três grupos de sintomas principais:

  • Sintomas depressivos.
  • Sintomas agressivos com ou sem descontrole dos impulsos.
  • Vícios.

Dessa forma, as pessoas presas no vazio existencial se sentem como se algo cobrisse os seus olhos e sentimentos com um véu inconsciente, que os impede de encontrar o sentido da sua vida e que os leva à insatisfação e ao desespero crônicos. Então, o que fazer para encontrar esse sentido?

Vazio existencial: em busca de um sentido

“Viva como se já estivesse vivendo pela segunda vez e como se na primeira vez você tivesse agido tão errado como está prestes a agir agora”.
– Viktor Frankl –

Segundo o psicólogo suíço Carl Jung, o homem precisa encontrar um significado para continuar o seu caminho no mundo. Portanto, sem esse significado, está perdido em uma terra de ninguém e vagando no labirinto da existência.

Frankl enfatiza que o caminho para o sentido da vida é mediado por valores e que a consciência social é o instrumento que o revela. Agora, embora os valores surjam de uma intimidade pessoal, eles acabam culminando em valores universais, que coincidem com sistemas culturais, religiosos ou filosóficos.

Portanto, a conexão com o outro é importante para não perder o sentido da vida, assim como a manutenção dos laços afetivos. No entanto, não se deve colocar neles toda a responsabilidade para ser feliz. De certa forma, uma vida com sentido é uma vida enraizada no social.

O sociólogo e filósofo francês Durkheim explica muito bem o problema de deslocamento social e as consequências que isso implica: “quando a pessoa se individualiza além de um certo ponto, quando se separa radicalmente de outros seres, homens ou coisas, se fecha para as mesmas fontes nas quais  normalmente deveria se alimentar, e não tem nada com que se envolver. Ao criar um vazio ao seu redor, também cria um vazio dentro de si mesma e não tem mais nada para refletir além da sua própria miséria. Não tem outro pensamento do que o nada que está nela e a tristeza que é a sua consequência”.

Como lidar com o vazio existencial

O importante é o sentido que damos a vida

Agora, não é uma questão de procurar culpados ou salvadores, mas sim de adotar uma atitude reflexiva e responsável que nos permita investigar interiormente, encontrar um propósito e sair desse vazio existencial. Porque na realidade, não há pergunta mais complicada do que o significado da vida para nós.

É conveniente afirmar que existem várias maneiras de definir o sentido da vida e, até mesmo, cada um de nós pode mudar o seu propósito de vida ao longo da sua existência. Portanto, o que importa, como afirmou Viktor Frankl, não é o sentido da vida em um nível geral, mas o significado que lhe damos em um determinado momento.

Além disso, Frankl afirma que não devemos investigar o sentido da vida, mas entender que somos nós que lhe damos um propósito. Isto é, podemos contestar a vida respondendo com a nossa própria vida. Isso significa que a responsabilidade é a essência íntima de nossa existência.

Apesar de termos investido tempo, energia, esforço e coração, a vida, às vezes, não é justa. Nestes momentos ficamos desanimados e isto é totalmente compreensível. No entanto, temos duas opções: aceitar que não podemos mudar o que aconteceu, que não há nada a fazer e que somos vítimas das circunstâncias, ou aceitar que não podemos mudar o que aconteceu, mas que podemos mudar a nossa atitude em relação a isso.

Conclusão

Portanto, somos responsáveis ​​pelas nossas ações, nossas emoções, pensamentos e decisões. E por esse motivo, temos a opção de decidir o porquê, diante do que ou de quem devemos nos considerar responsáveis.

Por isso, o sentido da vida está sempre mudando, nunca cessa. Todos os dias e em todos os momentos, temos a oportunidade de tomar decisões que determinarão se estamos sujeitos às nossas próprias circunstâncias ou se agimos com dignidade, ouvindo o nosso verdadeiro eu com responsabilidade e livres das armadilhas do prazer e da satisfação imediata.

“O ser humano não é apenas mais uma coisa entre tantas outras; as coisas se determinam umas às outras. Mas o homem, em última análise, é o seu próprio fator determinante. O que acontece dentro dos limites de suas faculdades e de seu ambiente deve fazê-lo por si mesmo”.
– Viktor Frankl –

  • Adler, A. (1955): “El sentido de la vida”. Barcelona, Luís Miracle.
  • Bauman, Z. (2006). Modernidad líquida. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica.
  • Frankl, V. (1979): “Ante el vacío existencial”. Barcelona, Heder.
  • Rage, E. (1994): “Vacío existencial carencia de un sentido vital”, Psicología Iberoamericana., 2(1): 158-166