O que o caso de Nadia nos ensinou? - A Mente é Maravilhosa

O que o caso de Nadia nos ensinou?

abril 30, 2017 em Psicologia 541 Compartilhados
O que o caso de Nadia nos ensinou?

Um programa que trata dos mais variados temas abre sua sessão matinal com rostos tristes, atitudes de indignação, e rostos de perplexidade e espanto. Nadia, a menina doente cujo pai levou a todos os programas televisivos da Espanha, acabou sendo uma encenação de fraude.

A indignação entre os ilustres jornalistas e os gestores da cadeia é alta. Eles se sentem enganados e assumem o papel de vítimas. Talvez os níveis de audiência tenham subido para números consideráveis quando a menina apareceu no programa. Ajudar os pais, uma menina doente e a caridade sempre dá muita audiência e curiosidade, além de proporcionar a oportunidade à consciência de muitas pessoas de para encontrar paz.

Quando ocorre um evento macabro e este aparece na imprensa, muitas das pessoas que conheciam o agressor, assassino ou estuprador garantem que ele parecia normal e amigável. Os jornais se encarregam de nos colocar em estado de alerta para o fato de que estamos rodeados de pessoas perigosas que parecem ser normais.

No entanto, eles, com seus rostos de dor formal e grande encenação, mostraram ser neste caso “o vizinho que nunca cumprimentava”. É o que aprendemos com o caso de Nadia.

Nadia: a menina doente que passeava pelos programas de televisão

Às vezes estamos rodeados de pessoas que podem ser pontualmente prejudiciais para a sociedade, mesmo que pareçam disfarçadas de “pai corajoso”. Nós aprendemos com este caso que a ignorância cresce ao mesmo tempo que as receitas dos “meios de comunicação de massa”.

Muitas pessoas são tachadas como tendo “pouco coração” ao não compartilhar fotos de bebês com tumores nas redes sociais, ao afirmar que interromperiam uma gravidez perante uma malformação congênita grave, ao dizer que não acreditam na caridade como forma de adquirir verdadeira dignidade social e que as terapias alternativas, no mínimo, parecem um pouco estranhas. Somos classificadas como pessoas céticas, sem o menor senso de empatia e compreensão para muitos.

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Apesar disso, ainda existe um setor importante da população que jamais teria transformado uma menina na protagonista de um espetáculo vexatório. Uma consequência do auge da pseudociência, da mercantilização da dor e dos interesses em mostrar caridade e “gestos de compreensão” diante do sofrimento alheio para parecer boas pessoas, ao invés de evitar acabar promovendo o oposto.

A pseudociência e os remédios mágicos na televisão em horário nobre

Programas de televisão com participantes que não sabem diferenciar a tricotiodistrofia de uma doença terminal, nem têm a menor intenção de fazê-lo, uma vez que assumem que seu público é ignorante o suficiente para nunca pensar em procurar no Google.

Um público que acredita que uma caverna do Afeganistão esconde um médico de renome especializado em manipulação genética que, ao realizar furos no pescoço de Nadia, poderia salvá-la da morte.
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Ninguém se preocupou em entrevistar grandes médicos como Juan Ferrando, do Hospital Clínic de Barcelona, ou a geneticista Ana Patiño, da Clínica Universidad de Navarra, que confirmou com uma análise genética a tricotiodistrofia da menina em 2006. Ambos atordoados pela exposição na mídia do caso e pela angariação de fundos para essa menina de 11 anos que seria submetida a um tratamento experimental em Houston, os quais não têm nenhum registro de sua existência.

O pai, que usa diferentes esferas místicas em volta do pescoço, garantindo estar satisfeito com este tratamento criado por cientistas da NASA, deixa os participantes e a apresentadora comovidos. Disposto a dar tudo, apesar de ele próprio sofrer de câncer de pâncreas (do qual não há registro algum).

Da mentira à pornografia: a certeza do absurdo moral televisivo

Depois de saber que todos (incluímos todos por assumir que não foram só eles que fizeram este show) foram enganados, os programas de televisão assumem sua culpa como aquele que diz que atirou um cachorro pela janela porque pensou que tinha um colchão lhe esperando no chão. Sem a menor autocrítica, sem assumir a sua responsabilidade pela propagação da ignorância, estes espaços ecoam as supostas fotos de conteúdo sexual da menina.

Antes de abordar conteúdos emocionais, eles se dedicam a explicar detalhadamente quais eram as posturas da menina nessas fotos, como e de que ângulo poderiam ter sido tiradas. Se a menina estava nua, se ela estava drogada. O escárnio público não tem fim. O pai malvado e a mãe ignorante já foram processados, mas eles continuam jogando esse jogo e perpetrando uma intromissão à honra e à intimidade da menina.

Talvez Nadia não tenha morrido tão cedo como muitos afirmaram, mas sua intimidade foi violada pela vida.

O que o caso de Nadia nos ensinou

O caso de Nadia nos ensinou muitas coisas. Nos ensinou que os pais podem ser o pior que pode acontecer a uma filha, por mais que nos escandalizemos. Nos ensinou qual é o “trabalho exaustivo” de investigação de certos jornalistas diante de um caso tão delicado.

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Nos ensinou que fotos de conteúdo sexual de uma criança de 11 anos (conhecida do público) podem continuar conquistando audiências. Que os meios de comunicação não têm a menor intenção de mostrar rigor. Que as terapias que são uma farsa podem arrecadar mais dinheiro do que uma pesquisa médica séria.

Que ligamos a televisão e escutamos esses detalhes em pensar que Nadia pode ser algum dia qualquer pessoa do nosso cotidiano. Que o espetáculo e a audiência justificam tudo e que os vizinhos que sempre cumprimentavam podem estar a um botão de distância do controle da nossa televisão. Só resta pedir perdão como espectadores deste circo sem ter apresentado uma queixa por isso.

Só resta pedir perdão a todos esses pais e mães que lutam todos os dias por um tratamento justo e eficaz para as doenças de seus filhos, acreditando mais na justiça do que na eficácia da investigação, e mais na ciência do que na caridade hipócrita de um programa de televisão. Perdão a todos eles e, acima de tudo, a Nadia. Você nunca deveria ter passado por isso, e os outros nunca deveriam ter permitido que isso acontecesse.

Imagens de El confidencial e El periódico

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