As catástrofes pessoais são as melhores guias para nossas emoções

As catástrofes pessoais são as melhores guias para nossas emoções

19, março 2017 em Emoções 1226 Compartilhados
As catástrofes pessoais são as melhores guias para nossas emoções

Às vezes sinto que vou cair, que estou desabando. E penso… se eu sou mais forte que tudo isso, se já superei coisas piores antes, se a minha amiga tem uma situação pessoal pior e é sempre otimista… mas a verdade é outra: somos projetos conduzidos por emoções. Então às vezes assumo que me sinto mal e que não tem porque ser racional. E choro, choro muito, para ver se as feridas cicatrizam com lágrimas. Ou com sorvete. Ou com abraços. E, de fato, às vezes sim.

Mas em outras… não encontro nada que acalme esse desgosto que sinto por dentro. E insisto com os que me amam que não, não é culpa deles. E que não, não podem fazer nada, apenas estar… às vezes isso é mais do que fazer alguma coisa. Me sinto frustrada e tenho raiva. Porque sim, nós psicólogos somos uma espécie de topógrafo e fazemos mapas para que os outros encontrem a chave da sua felicidade. O que não significa que, necessariamente, os tenhamos para nós mesmos. Como dizem por aí, “em casa de ferreiro, espeto de pau”.

Você já se sentiu assim alguma vez?

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O que são as meta-emoções?

A meta-emoção é uma emoção que surge com o reconhecimento de outra emoção, como quando a gente se sente culpado por ter se chateado com um amigo. Você realmente tem motivos para se sentir assim? Se a sua resposta for não, ótimo, não é necessário continuar lendo se não quiser. Mas, como é normal, a maior parte de nós pensa que sim. Que do contrário, não nos sentiríamos assim. Se este é o seu caso e você quer saber o que fazer a respeito, agora veremos como identificar e administrar esses tipos de emoções.

O fato é que é normal que uma emoção nos suscite outras emoções. O verdadeiro problema é não saber identificar e canalizar essas meta-emoções, se estas começarem a interferir em nossas vidas e nosso jeito normal de agir. É o caso de muitos pais e mães de família que se sentem culpados por se sentirem felizes.

Do que estou falando? As famílias que foram tocadas pela crise foram forçadas a sobreviver mais do que viver e, portanto, o lazer é absolutamente prescindível, e mais ainda se existem crianças no meio. O que isto provoca? Que quando os responsáveis principais pelo sustento deste núcleo familiar têm um espaço para se desligarem (ir ao jogo com os amigos, tomar um café com os colegas de trabalho…) ou uma necessidade (como um agasalho, ir ao cabeleireiro) a omitem porque “existem outras prioridades”. E se decidirem fazer estas atividades, muitas vezes acabam se sentindo culpados por terem sentido prazer. A mesma coisa acontece quando se tem um familiar doente.

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A catástrofe natural

A mera aprendizagem de que uma experiência não foi positiva é positiva. Eu chamo isto de “catástrofes naturais”. São todos aqueles acontecimentos vitais muito negativos e doloridos inevitáveis que mudam a gente. Mudam, incrivelmente, para o bem. É verdade que às vezes parece que a vida está nos colocando à prova e você se pergunta “o que eu fiz para merecer isto?”

O pior é que, muitas vezes, não existe resposta. Você não fez nada para merecer e, ainda assim, adoece um familiar, você é despedido do seu trabalho ou sofre um grave acidente de trânsito. E não, você nunca mais será o mesmo, e também não sabe como continuar em frente com esse “novo eu”. Em você mesmo, não para os que o cercam, que notam que você mudou e que está fora do normal. A dor continua ali, mas já como alguma coisa que é parte de você. Você já a assumiu e sabe que ela não irá partir, mas ao mesmo tempo você é capaz de ver o lado bom de tudo aquilo e se sente bem por isso.

São catástrofes naturais porque você não pode preveni-las, arrasaram tudo o que você sabia e, agora que já são história, ainda existe uma marca muito notória do dano que causaram. Todos temos nossas próprias catástrofes naturais. Ninguém está a salvo delas, mas só você é quem decide o que fazer quando um dia ela atingir.

No ano de 2011, de seus 365 dias, apenas 6 minutos de todos esses dias causaram uma buraco na vida de muitas pessoas no mundo todo. O tsunami no Japão causou a morte de 15.893 pessoas, 172 feridos e 8.405 desaparecidos. Aconteceram duas reações muito diferentes entre as pessoas que viveram esta experiência. Por um lado, aqueles que temem e temerão o mar o resto das suas vidas, mas por outro, estão os que conseguiram incorporar este acontecimento como parte da sua experiência de vida.

Completar ciclos para poder continuar

Pare, respire e pense… a vida está cheia de ciclos que precisamos completar e fechar. Ninguém tem uma vida perfeita, tudo passa. Não só isso, precisamos de momentos difíceis para perceber de verdade como é importante aproveitar a crista da onda quando estamos no ponto mais alto.

Então, como você pode completar esses ciclos? Bom, a resposta a essa pergunta me leva a um livro que li faz algum tempo e que não tinha nada a ver absolutamente com o que é um típico manual de autoajuda. O livro trata de como aconselhar pessoas a se despedir de doentes terminais conscientes da sua condição. Pois bem, tudo se resume a quatro frases: sinto muito, eu o perdoo, amo você e obrigado.

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Liberte suas emoções

Bom, agora você estará se perguntando o que fazer com esta informação se não está em um processo terminal de doença. Você pode dizer estas quatro frases para a pessoa ou situação que não o deixa seguir em frente. Isto é, reconhecer nossos erros e os dos outros, mas também o lado bom deles, reconhecer o apreço que você tem por essa pessoa ou sorrir diante dessa etapa da sua vida e agradecer por ter vivido a experiência.

O perdão não exime, mas permite deixar partir aquilo que está prendendo você e lhe oferece a possibilidade de se ver ou ver os outros como entidades muito mais complexas e ricas. Aquilo já não o afeta, você continua em frente. O livro fala de uma mulher que perdoou seu pai, por quem havia sido abusada na infância, no leito da sua morte.

Somos humanos, cometemos erros, e perdoar a vida e a si mesmo por esses momentos ou decisões dos quais você não tem orgulho e incorporá-los como parte do seu passado, sem se sentir desconfortável por isso, é um dos desafios mais belos que existem. São estas pessoas que farão com que a catástrofe pessoal passe a ser um ponto forte de suas vidas e da sua personalidade. E voltarão. Voltarão a olhar cara a cara para o mar e dizer “continuo aqui”.

Ninguém pode escolher uma catástrofe natural, mas podemos escolher fugir ou sair fortalecidos dela. A minha começou há algum tempo atrás, e eu não mudaria nada do que me aconteceu desde então, que inclusive me levou a escrever aqui.

Bibliografia recomendada:  Anchía, R. J., Partido, J. P. N., & Salvá, C. P. (2004). PROPUESTA DE UN MODELO TEÓRICO DE REGULACIÓN COGNITIVA DE EMOCIONES NEGATIVAS. La regulación emocional como variable moduladora de los efectos de la emoción sobre la memoria. In Motivos, emociones y procesos representacionales: De la teoría a la práctica (pp. 401-410). Departamento de Psicología Básica.

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