Seu cérebro elimina o que não é útil, o que sobra, o que não faz falta

· junho 24, 2017

Desaprender para aprender, eliminar o que não faz falta para dar espaço ao útil e ao significativo. Nosso cérebro, por mais curioso que pareça, também realiza delicadas tarefas de reciclagem enquanto dormimos ou meditamos para se depurar, para remover as “ervas daninhas” e permitir que floresçam conexões neuronais mais fortes, pensamentos e aprendizados muito mais úteis e valiosos.

Arthur Conan Doyle mostrou em “Um Estudo em Vermelho” como John Watson se surpreendia em um dado momento com algo assombroso sobre seu novo e extravagante companheiro de apartamento. Sherlock Homes desconhecia que a Terra girava ao redor do Sol. O célebre detetive lhe deu um excelente raciocínio sobre por que isso acontecia, e outra série de dados que para a maioria eram evidentes.

“Lembro-me inclusive do que não quero. Não posso me esquecer do que quero”.
-Cicerón-

O cérebro de uma pessoa – Homes explicava – é como um pequeno sótão vazio no qual é preciso colocar os móveis que cada um preferir. As pessoas amontoam neste espaço uma série de objetos que encontram por aí. Pouco a pouco não sobra espaço para os conhecimentos úteis. No entanto, o artesão hábil tem muitíssimo cuidado com o que coloca no sótão do cérebro: só admite ferramentas que possam ajudá-lo a realizar seu trabalho.

Quase sem saber, Conan Doyle nos mostrou nesta pequena introdução de “Um Estudo em Vermelho” um princípio básico sobre a economia ou jardinagem interna em que o cérebro decide quais conexões sinápticas alimentar e quais destruir. Ele o faz com base em nosso estilo de vida, interesses, experiências e aprendizagens.

Os neurologistas costumam dizer metaforicamente que temos um “botão” de apagar que nos permite economizar espaço, eliminar o que não é útil para construir conexões novas e mais fortes com as quais consolidar aprendizados mais significativos. Trata-se de um processo no qual, por mais curioso que pareça, nós também podemos trabalhar. Explicamos como a seguir.

O cérebro elimina o que não é útil

No cérebro, aprender também significa “destruir”

Muitos de nos seguimos conservando a clássica ideia de que quanto mais conexões sinápticas estabelecermos em nosso cérebro, melhor. Dizemos que é assim que consolidamos mais aprendizados, mais aptidões, habilidades, dados, conhecimentos. No entanto, a teoria de Sherlock Homes continua tendo razão neste caso: o cérebro não é um sótão vazio no qual devemos acumular coisas desconexas, aleatoriamente e de forma massiva.

O cérebro é um órgão sofisticado que gosta de economizar e se especializar em capacidades de acordo com seu proprietário. Daremos um exemplo: decidimos aprender a tocar piano e resolvemos fazer aula uma hora por semana. Neste caso, o impacto em nosso cérebro será mínimo. No entanto, se levarmos a sério e começarmos a praticar diariamente, coisas incríveis irão acontecer.

Uma delas é a chamada poda sináptica, ou seja, para criar novas sinapses e novos circuitos neste aprendizado musical, o cérebro primeiro eliminará conexões neuronais antigas que não são mais úteis. Ele precisa de espaço e também precisa construir novas rotas, novas pontes, e desemaranhar cabos para que flua uma “energia nova”.

Para compreender melhor podemos imaginar nosso cérebro como um jardim. Em vez de flores o que cresce são as conexões sinápticas entre os neurônios, vias pelas quais se movem neurotransmissores como a dopamina ou a serotonina. No entanto, para que estas novas estruturas floresçam, primeiro é preciso eliminar as ervas daninhas, cortar e retirar as folhas velhas para abrir espaço. Esta tarefa é efetuada pelas células microgliais, entidades mágicas às quais devemos nossa capacidade de consolidar novos aprendizados. É algo maravilhoso.

Neurônios do cérebro

Dormir ou meditar, duas estratégias para que seu cérebro elimine o que não é útil

Já sabemos que nossa capacidade de aprender transcende, em muitos casos, nossa própria biologia. Agora, você vai gostar de saber que para que estes novos conhecimentos se consolidem de forma adequada, precisamos dormir. Os neurologistas costumam dizer que um cérebro privado de sono é como uma selva selvagem na qual é impossível avançar. É algo caótico, escuro, asfixiante e colapsado.

Para abrir caminhos, limpar o terreno e conseguir espaço livre precisamos de um descanso profundo e reparador. É aí que entra em ação o sistema glinfático; é quem realiza esta tarefa trabalhosa de eliminar as substâncias de descarte, resíduos e todas as células mortas decorrentes da poda sináptica. Por outro lado, cabe destacar que um pequeno cochilo de 15 minutos no meio do dia ou até 20 minutos de meditação profunda também são úteis para dar espaço a novas conexões neuronais.

Menina dormindo para consolidar o aprendizado

Além disso, e como dado importante para concluir, os neuropsicólogos nos lembram que às vezes o simples fato de deixar de concentrar nossa atenção em um aspecto ou de “romper” o ciclo de pensamentos obsessivos que focam em um mesmo tema ou uma mesma pessoa também nos permite “desativar” estas sinapses e retirar sua força. É como apertar o botão “apagar”, permitindo assim que o sótão de nosso cérebro seja um lugar mais confortável, espaçoso e mais em sintonia com as nossas necessidades.

Um tema, sem dúvida, interessante, e que vale a pena ter em mente.