Classificação das terapias cognitivas

março 24, 2020
Classificar as terapias cognitivas é um exercício pragmático. Ter um mapa detalhado das alternativas nesse campo pode nos ajudar muito na hora de escolher, por exemplo, qual especialista queremos consultar.

A classificação das terapias cognitivas se baseia no fato de que o traço comum de todas elas é considerar a cognição como elemento determinante do comportamento. No entanto, elas se diferenciam na importância que dão para os distintos processos implicados. Esses processos cognitivos podem ser ativados na terapia e motivar a aprendizagem de comportamentos.

As terapias cognitivas sempre desenham tratamentos baseados em uma visão cognitiva do problema. Consideram que a aprendizagem é muito mais complexa que a formação de associações estímulo-resposta. A partir da intervenção terapêutica, é necessário abordar os processos cognitivos, já que estes são considerados os determinantes principais do comportamento.

As terapias são diversas e carecem de um marco teórico unificador que as torne coesas em um modelo teórico geral, mas é comum que sejam classificadas dentro de um mesmo grupo: as terapias cognitivo comportamentais.

Os mecanismos da mente humana

Classificação das terapias cognitivas

Foram propostos três tipos principais de terapias cognitivas (Mahoney y Arnkoff, 1978):

  • Os métodos de reestruturação cognitiva, que supõem que os problemas emocionais são uma consequência de pensamentos desadaptados e, por isso, suas intervenções tratam de estabelecer padrões de pensamentos melhores.
  • As terapias de habilidades de enfrentamento, que tratam de desenvolver um repertório de habilidades para ajudar o paciente a enfrentar uma série de situações estressantes.
  • As terapias de solução de problemas, que constituem uma combinação dos dois tipos anteriores e que focam no desenvolvimento de estratégias gerais para tratar um amplo espectro de problemas pessoais, insistindo na importância de uma colaboração ativa entre o paciente e o terapeuta.

Terapias cognitivas baseadas na reestruturação cognitiva

Estão dirigidas para a identificação e mudança de padrões cognitivos, como as crenças irracionais, os pensamentos distorcidos ou as autoverbalizações negativas.

As correntes mais representativas seriam a terapia racional emotiva de Ellis, a terapia cognitiva de Aaron Beck e a a terapia de reestruturação emocional de Marvin Goldfried.

Terapia racional emotiva (TREC) de Albert Ellis

Essa teoria propõe que a maioria dos problemas psicológicos são decorrentes da presença de padrões de pensamento desadaptados (irracionais). As pessoas controlam, em grande medida, seus próprios destinos, sendo que seus comportamentos são muito influenciados por crenças e valores pessoais.

A terapia racional emotiva comportamental (TREC) é uma forma de psicoterapia de duração breve que ajuda a identificar os pensamentos e emoções que conduzem para a autoderrota. Ela revisa e põe à prova a racionalidade desses sentimentos, substituindo-os por crenças mais produtivas e convenientes.

A corrente da TREC tem como foco principalmente o presente para ajudar a entender os mecanismos e esquemas de pensamento e crenças que causam mal-estar. Um mal-estar que, por sua vez, gera ações e comportamentos danosos que interferem no cumprimento de objetivos e do equilíbrio emocional.

Terapia cognitiva de Beck

Os transtornos emocionais e os comportamentais seriam o resultado de uma alteração do processamento da informação fruto da ativação de esquemas latentes. Os elementos centrais dessa teoria são:

  • As pessoas desenvolvem, na sua infância, uma série de esquemas básicos que servem para organizar seu sistema cognitivo.
  • Podem ter pensamentos ou representações mentais de modo automático, sem a intervenção de um processo de racionalização prévio.
  • Podem cometer distorções cognitivas e erros no processamento da informação.
  • Os acontecimentos de vida estressantes podem ativar esquemas básicos disfuncionais.

Terapia de reestruturação racional sistêmica de Goldfried

Ela foi desenvolvida a partir da TREC de Ellis, como uma tentativa de conseguir uma maior especificação e adequá-la a um procedimento de autocontrole. O objetivo é ensinar aos clientes habilidades de enfrentamento e gestão de situações problemáticas que permitam adotar perspectivas mais razoáveis sobre os acontecimentos perturbadores.

Terapia de autoinstruções de Meichenbaum

Essa teoria se baseia nos trabalhos de Luria e Vygotsky sobre a importância da linguagem interna na regulação do comportamento. Os antecedentes históricos da técnica do treino em autoinstruções remontam aos trabalhos feitos nos anos 60 com crianças hiperativas e agressivas.

Diferentemente da terapia racional emotiva, esse treinamento tem como foco maior a capacidade de modificar o comportamento e as emoções por meio das autoverbalizações. O sistema de crenças e de ideias irracionais do paciente é menos importante.

O procedimento seria o seguinte:

  • Modelagem.
  • Guia externa em voz alta.
  • Autoinstruções em voz alta.
  • Autoinstruções em voz baixa.
  • Autoinstruções encobertas.

Terapias cognitivas baseadas nas habilidades de enfrentamento

Essas terapias tratam de ensinar as habilidades para que uma pessoa possa enfrentar adequadamente situações problemáticas.

As mais relevantes são a terapia de inoculação de estresse de Meinchenbaum e a teoria de gestão da ansiedade de Suinn e Richardson.

Terapia de inoculação de estresse de Meichenbaum

Essa terapia se baseia em desenvolver ou dotar os sujeitos de habilidades e destrezas que permitam diminuir ou anular a tensão e a ativação fisiológica e substituir as interpretações anteriores negativas por um arsenal de pensamentos positivos para o enfrentamento do estresse.

O treinamento de inoculação de estresse envolve três fases, que em algumas ocasiões se sobrepõem entre si. Essas fases são:

  • Fase de conceitualização.
  • Fase de aquisição e treinamento de habilidades.
  • Fase de aplicação das habilidades adquiridas.

Teoria de treinamento e gestão da ansiedade de Suinn e Richardson

O objetivo dessa terapia consiste em ensinar o cliente a usar técnicas de relaxamento e outras habilidades em situações muito variadas, com a finalidade de controlar suas reações de ansiedade.

Os resultados dessa terapia parecem ser positivos, não só em relação à ansiedade generalizada, mas também em relação à ansiedade diante de fatos como provas ou o medo de falar em público.

No julgamento do autor, também parece superior à dessensibilização sistemática, provocando efeitos favoráveis nos três canais de resposta – afetivo, comportamental e somático -, reduzindo a pressão sanguínea, melhorando a execução e diminuindo os processamentos cognitivos problemáticos.

Mulher tentando relaxar

Terapias cognitivas baseadas na solução de problemas

Estas estão voltadas para corrigir o modo por meio do qual a pessoa aborda os problemas, fornecendo um método sistemático para resolver qualquer tipo de situação.

Terapia de solução de problemas de D´Zurilla e Golfried

Pretende ensinar à pessoa um método sistemático para a resolução de problemas. Proporciona métodos para que a pessoa analise e avalie possíveis opiniões e oferece uma perspectiva particular para interpretar o mundo.

É eficaz quando combinada com outras técnicas e é a terapia de solução de problemas mais usada, com maior número de aplicações e estudos experimentais.

Técnica de resolução de problemas interpessoais de Spivack e Shure

O objetivo dessa terapia é aumentar o ajuste e a competência social. Para fazer isso, trabalha as habilidades de resolução de problemas interpessoais.

É necessário definir o que consiste um problema: um problema aparece quando não se dispõe de forma imediata de uma resposta eficaz para enfrentar a situação.

As habilidades que melhoram o ajuste social seriam o pensamento alternativo, o pensamento causal (desde os 8 ou 10 anos até a adolescência) e o pensamento consecutivo (durante a adolescência).

A ciência pessoal de Mahoney

A terapia está destinada a treinar o sujeito como um cientista pessoal para o diagnóstico e o controle do seu próprio comportamento conflituoso.

Os meios para tanto são a modelagem, reforço sistemático, realização gradual de tarefas e a aquisição de habilidades de autoavaliação. É, talvez, a opção mais atraente para pessoas que valorizam a ciência, o controle e a competência.