Como o ser humano percebe a dor e a temperatura?

setembro 20, 2019
Perceber a dor e a temperatura é uma habilidade extremamente valiosa para a nossa sobrevivência. Mas como o nosso corpo faz isso? Como essas informações chegam ao nosso cérebro e como elas são tratadas?

Você já se perguntou como um ser humano percebe a dor e a temperatura? O que nos permite ter esse conhecimento tão relevante para a nossa sobrevivência?

Neste artigo, falaremos sobre o sistema somatossensorial, responsável não apenas por nos fazer perceber a dor e a temperatura, mas também por dar utilidade ao sentido do tato. Além disso, se encarrega da propriocepção: conhecer a posição em que nosso corpo está.

O sistema somatossensorial é um dos sistemas mais amplos do corpo humano. Ele é responsável pelo processamento de todas as informações sensoriais (por exemplo, a dor e a temperatura), provenientes do soma – corpo, ossos, músculos, vísceras – ou da pele, porque todos os seus receptores estão distribuídos pelo organismo.

Existem, portanto, dois sistemas somatossensoriais:

  • Sistema somatossensorial cutâneo: é composto pelos receptores da pele e, portanto, é periférico – se encontra em todo o corpo. Possui receptores cinestésicos que informam a posição e os movimentos do corpo. Eles também são encontrados em locais como articulações e tendões.
  • Sistema somatossensorial orgânico: possui receptores nos ossos e vísceras e é interno.
Mulher com dor de cabeça?

Sistema somatossensorial cutâneo: a chave para a compreensão da percepção

Para entender como o ser humano percebe a dor e a temperatura, é importante compreender como os receptores cutâneos funcionam. Entre eles, se encontram os receptores mais sensíveis e capazes de gerar sensações de dor.

A pele é o maior órgão do corpo e, portanto, o maior receptor. Em toda a pele, há um grande número de receptores agrupados de maneira diferente, o que nos permite definir a sensibilidade ou qualquer uma das quatro sensações que recebemos através dela: pressão, vibração (toque), dor e temperatura.

Portanto, através dos receptores do sistema somatossensorial cutâneo, recebemos informações do ambiente na forma de pressão, toque, dor, frio e calor.

A pele tem uma sensibilidade diferente para dor e temperatura, dependendo da densidade de seus receptores.

É importante que a pele tenha pelos?

Poderíamos distinguir entre pele com e sem pelos. A pele com pelos é a grande maioria, mas na região sem pelos, se agrupam muito mais receptores. Portanto, ela é mais sensível porque há mais receptores cutâneos.

Os órgãos sensoriais mais sensíveis seriam os lábios, os órgãos genitais externos e as pontas dos dedos, pois há uma maior densidade de receptores nestes locais.

Embora isso não tenha sido totalmente comprovado, acredita-se que a pele com pelos seja mais sensível à vibração ou ao toque, pois isso faz com que o pelo se mova.

Quais são os receptores que temos na pele?

Os receptores cutâneos estão divididos em duas categorias: terminações nervosas livres e receptores encapsulados.

As terminações nervosas livres (TNL) são extensões nervosas que atingem a pele e são possivelmente os receptores sensoriais mais simples. Eles estão espalhados por toda a pele e são os receptores mais sensíveis à percepção da dor.

Embora eles também sirvam para perceber todo o restante, são especializados em dor. Há especificidade, mas não exclusividade.

O mecanismo de transdução das TNL é apenas o alongamento de uma parte específica das mesmas, que permite a abertura dos canais de sódio e, a partir daí, a despolarização da membrana, atingindo o potencial de ação. Produz o frio por contração e o calor por dilatação.

Receptores encapsulados: tudo que fazem dentro da sua cápsula

Os receptores encapsulados são um tipo de receptor cutâneo. São nomeados dessa forma por estarem cobertos por uma cápsula. Há quem fale de quatro tipos, outros de cinco. Esses receptores são classificados da seguinte maneira:

Corpúsculos de Paccini: sensíveis à pressão e ao toque

Eles são encontrados na pele sem pelos e, em menor grau, na pele com pelos. Estão agrupados densamente nos lábios, nas glândulas mamárias e nos genitais externos. São especialmente sensíveis à pressão, vibração e, em menor grau, à dor e à temperatura.

Os pequenos corpúsculos de Ruffini

São pequenos receptores encapsulados. Eles têm terminações nervosas, como terminações nervosas livres, apenas cercadas pelo tecido conjuntivo. São encontrados na pele com pelos e respondem a vibrações de baixa frequência.

O toque suave dos corpúsculos de Meissner

Eles são responsáveis ​​pela sensibilidade ao toque suave. São encontrados na pele sem pelos e inseridos nas papilas da derme.

Os sensíveis bulbos terminais de Krause

Os bulbos terminais de Krause são encontrados apenas na interseção da membrana mucosa com a pele seca. As suas fibras não são mielinizadas e são extremamente sensíveis à pressão. O seu limiar de ativação por pressão é o mais baixo de todo o corpo humano.

Os lentos discos de Merkel

Os discos de Merkel ocupam um lugar semelhante aos corpúsculos de Meissner, nas papilas da derme. São receptores de adaptação lenta e respondem a uma mudança contínua de estímulos, não diretamente – por exemplo, a percepção da adaptação à temperatura.

A percepção da dor

A percepção da dor e da temperatura, neste caso específico, constitui-se como um sistema de alerta adaptativo que nos permite evitar fontes que causam danos, embora seja uma sensação que pode ser influenciada por fatores emocionais, psicológicos, sociais, medicamentosos, placebos, hipnose…

Portanto, é uma emoção muito subjetiva, que sugere que deve haver mecanismos neurais que modifiquem ou interfiram na transmissão da dor. Isso não está baseado apenas nos receptores cutâneos.

A dor está dividida em dois tipos:

  • Dor evitável: a melhor resposta do organismo é a retirada da fonte da dor, ou seja, o comportamento.
  • A dor inevitável: existe no nível periférico e no nível central e, como o nome indica, não podemos fugir dela.

A nível periférico – onde encontramos a dor inevitável – percebeu-se que no organismo há informações moleculares ligadas à dor.

Quando há dor, algumas células são danificadas e secretam histamina e prostaglandina. A segunda, por si só, não tem efeito, mas a histamina sim, o que faz com que o limiar de dor das células caia.

A prostaglandina faz com que as células danificadas sejam mais sensíveis à histamina, e o limiar da dor diminui ainda mais. Existem mecanismos farmacológicos para bloquear a histamina (anti-histamínicos) e a prostaglandina (ácido acetilsalicílico).

Podemos bloquear a dor? O tálamo tem a solução

A nível central, os estudos sobre a dor foram direcionados ao tálamo. A dor é adaptativa, mas se ocorrer com grande intensidade, poderá bloquear o comportamento. Isso, às vezes, é contraproducente, e alguns se perguntam como poderíamos não sentir dor. Isso é possível? Como o tálamo é bloqueado?

A inibição da dor geralmente é chamada analgesia, influenciada por fatores emocionais e fisiológicos. No entanto, em pessoas que sofreram acidentes cerebrais, observou-se que a lesão ou bloqueio do núcleo ventral posterior do tálamo geralmente ocorre com a perda de sensações cutâneas, ou seja, sensações superficiais de toque e dor.

Assim, lesões ou bloqueio dos núcleos intralaminares eliminam a dor profunda, mas não a sensibilidade da pele. Os núcleos dorsomediais estão relacionados ao sistema límbico e geralmente interferem nos componentes emocionais da dor, eliminando-os.

Como o cérebro trabalha para percebermos a dor?

A percepção da temperatura

A percepção da temperatura é relativa, já que não temos receptores para percebê-la de forma absoluta.conseguimos perceber as mudanças repentinas de temperatura – por exemplo, colocando a mão em um recipiente com água muito fria e outro com água muito quente.

Existem dois tipos de receptores, uns para o frio e outros para o calor, distribuídos de forma heterogênea por toda a pele.

Os receptores frios estão mais próximos da epiderme, enquanto os receptores de calor estão em uma área mais profunda. São os mesmos receptores, diferem apenas na localização.

A transdução nesses receptores é produzida pela deformação da membrana ou do cone do receptor devido ao efeito de dilatação ou contração da pele. Isso provoca a abertura da membrana e dos canais de sódio.

Se os receptores estiverem densamente agrupados, a sensação de calor será mais intensa. Os núcleos associados para que tenhamos dificuldade em perceber o frio e o calor são os intralaminares e, em menor grau, os ventriculares.

Portanto, é extremamente interessante observar que a percepção da dor se deve, entre outras coisas, a pequenos receptores na pele e a uma excelente participação do tálamo; o mesmo acontece com a temperatura.

Todas essas funções parecem ter se desenvolvido motivadas pela busca da nossa sobrevivência, e essas ferramentas que possuímos nada mais são do que uma herança de algo de que os nossos antepassados ​​precisavam muito mais do que nós.

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