Como uma infância difícil afeta os relacionamentos adultos?

05 Janeiro, 2021
Quase ninguém sai ileso de um trauma na infância. Essas cicatrizes do passado continuam doendo excessivamente e condicionam os nossos relacionamentos do presente de muitas maneiras. Vamos analisar.

Insegurança, dependência emocional, baixa autoestima, vínculos abusivos… Se nos perguntarmos como uma infância difícil pode afetar os relacionamentos adultos, é preciso notar que não há uma resposta única. O impacto causado por uma infância de maus-tratos, abusos, abandono ou falta de afeto é complexo, profundo e muito particular em cada mente e cada pessoa.

O que está subjacente, na maioria dos casos, é a sombra do transtorno de estresse pós-traumático (PTSD). Assim, algo que precisa ser lembrado é o fato de que toda experiência da infância é fundamental para o desenvolvimento emocional. Tudo que experimentamos não apenas marca, mas também delineia as bases do nosso bem-estar psicológico e da nossa vulnerabilidade mental.

Como Agatha Christie apontou, a melhor coisa que pode nos acontecer na vida é ter uma infância feliz, pacífica e enriquecedora. No entanto, infelizmente, isso nem sempre acontece. Há muitos homens e mulheres que carregam consigo um passado despedaçado e feridas abertas que condicionam completamente o seu presente.

Vamos analisar mais detalhes a seguir.

“Certas imagens da infância ficam gravadas no álbum da mente como fotografias, como cenários aos quais, por mais que demore, sempre voltamos.”
-Carlos Ruiz Zafón-

Mulher triste sentada

As consequências de uma infância difícil nos relacionamentos adultos

As infâncias difíceis, assim como os traumas, são mais comuns do que pensamos. Estudos como os realizados em colaboração com organizações como a Universidade de Zurich, a Universidade de Vermont e a Universidade de Virginia Commonwealth apontam para algo tão impressionante quanto chocante. Cerca de 60% das crianças que participaram do estudo já tinham passado por algum evento traumático.

O número é, sem dúvida, muito alto. No entanto, também devemos ter em mente a grande variabilidade de eventos adversos que podem ser vivenciados nos primeiros anos de vida: o abandono de um dos pais, a morte de um deles, presenciar violência familiar, sofrer abusos, a violência psicológica, o sofrimento pela falta de afeto, sofrer bullying, etc.

Da mesma forma, um fato que nos mostram neste trabalho é que uma infância problemática lança uma longa e complicada sombra ao longo do ciclo da vida. O risco de sofrer de vários transtornos psiquiátricos é alto e a dificuldade em estabelecer vínculos subsequentes com outras pessoas também é complexa. Tudo isso nos leva a perguntar: “como uma infância difícil afeta os relacionamentos adultos?” Veremos abaixo.  

Problemas no desenvolvimento da identidade: se você não sabe quem é, não sabe o que quer

Na nossa infância e adolescência, são desenvolvidos os fundamentos da nossa identidade. É verdade que eles continuarão a amadurecer até a idade adulta. No entanto, precisamos consolidar pilares sólidos feitos de segurança, sabendo que somos amados, sendo capazes de confiar em nós mesmos e nos outros, sentindo-nos capazes, animados e rodeados de figuras que nos proporcionam segurança…

Se crescemos nos sentindo ameaçados, o desenvolvimento do cérebro sofre. Sentir angústia desde a infância veta nossa oportunidade de estabelecer uma identidade confiante, forte e otimista. Tudo isso dificultará a construção de relacionamentos de qualidade, pois não saberemos com certeza o que realmente queremos.

Sensação de vazio que ninguém pode preencher e relacionamentos destrutivos

Se nos perguntarmos como uma infância difícil afeta os relacionamentos adultos, há um fato que se repete: a sensação de vazio. É comum chegar à idade adulta com a sensação de que algo está errado ou de que algo está faltando. Assim, quase sem nos darmos conta, esperamos que os outros diminuam este sentimento, que acalmem aquele frio e preencham as lacunas deixadas por uma infância complicada.

Portanto, é muito difícil conseguir manter relacionamentos sólidos e satisfatórios. O comum é esperar tudo dos outros e acabar frustrado e até mesmo ferido novamente. Porque aqueles que sofreram traumas na infância costumam estabelecer relacionamentos destrutivos na idade adulta. Acabam tolerando manipulações, decepções e amores ou amizades que machucam, desde que tenham alguém por perto. Qualquer coisa para alimentar esses vazios emocionais.

Transtornos de apego: eu evito ou fico obcecado

Um dos efeitos de uma infância difícil é a alteração do processo de apegoSabemos que o saudável é estabelecer aquele apego maduro e seguro com o qual nos relacionarmos com alguém por meio de uma boa autoestima, poder amar sem medo e sem aquela necessidade que restringe as liberdades do outro.

Pois bem, quando alguém sofre um trauma na infância, é comum sofrer alterações no apego ao estabelecer vínculos afetivos. Normalmente, as seguintes dinâmicas aparecem:

  • Apego evitativo ou inseguro. Nesse caso, temos a situação clássica em que se prefere manter a independência para não sofrer mais. Assim, na eventualidade de uma relação ser iniciada, estarão sempre presentes a falta de confiança, a incapacidade de se abrir com o outro e a evidente impossibilidade de amar plenamente. A frieza é o recurso que o medo usa para evitar o sofrimento novamente.
  • Apego ansioso. Nessa tipologia, vemos exatamente o oposto do apego evitativo. Há uma grande necessidade de se relacionar com o outro, e essa dependência é tão absoluta que, longe de experimentar a felicidade, o que a pessoa sente é o medo. Medo de ser abandonado, medo de que deixem de nos amar, de ser como o outro quer ou deseja…
Homem chateado

Como uma infância difícil afeta os relacionamentos adultos? A criação de um eu falso que distorce tudo

Quando somos crianças e desejamos que nossos pais nos amem, cuidem de nós e nos tornem visíveis, tentamos fazer de tudo para agradá-los e para chamar a atenção. Acabamos criando um falso eu que só quer ser apreciado, valorizado e amado. Aos poucos, esse recurso desesperador se integra a nós e o usamos para quase todas as situações.

Colocamos de lado parte do nosso ser para fazer amigos, para sermos visíveis aos outros, para fazer aquela pessoa nos amar como nossos pais não nos amaram. O falso eu pode funcionar para nós às vezes, mas chega um dia em que o eu autêntico pede para ser libertado. Dentro dele há raiva, frustração, angústia e uma profunda tristeza. Todo esse acúmulo de emoções subjacentes acabará emergindo.

Para concluir, se nos perguntarmos como uma infância difícil afeta os relacionamentos adultos, a resposta pode ser resumida em uma palavra: infelicidade. Não é fácil se desenvolver em nossa pele adulta quando há uma criança ferida dentro de nós, da qual não cuidamos adequadamente. Será preciso administrar esse trauma para seguir em frente, para alcançar equilíbrio e o bem-estar.

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  • Estévez, A., Chávez-Vera, M. D., Momeñe, J., Olave, L., Vázquez, D., & Iruarrizaga, I. (2018). The role of emotional dependence in the relationship between attachment and impulsive behavior. Anales de Psicologia34(3), 438–445. https://doi.org/10.6018/analesps.34.3.313681
  • Vargas, T., Lam, P. H., Azis, M., Osborne, K. J., Lieberman, A., & Mittal, V. A. (2019, October 24). Childhood trauma and neurocognition in adults with psychotic disorders: A systematic review and meta-analysis. Schizophrenia Bulletin. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/schbul/sby150