"Como você está?": a frase que todos gostamos de ouvir

"Como você está?": a frase que todos gostamos de ouvir

Última atualização: 08 junho, 2022

Um “como você está?”, acompanhado de um sorriso sincero e um olhar acolhedor à espera de nossa resposta, é algo terapêutico e reconfortante. Porque às vezes nada mais é necessário. Porque às vezes essas duas palavras mágicas são o suficiente para sentirmos que estamos seguros, ligados a alguém importante e acolhidos com os cinco sentidos do coração para entendermos que, aconteça o que acontecer, tudo ficará bem.

A psicologia evolucionista, por mais curioso que pareça, tem muito a dizer sobre esse mesmo assunto. Dentro dessa perspectiva, defende-se a ideia de que o ser humano desenvolveu a sua inteligência social promovendo o cuidado e proteção dos membros do grupo, rejeitando assim o caçador ou coletor que andava “por conta própria”, o indivíduo que não colaborava, que buscava apenas o próprio benefício, que renegava ou deixava de apoiar os seus pares.

“O princípio mais profundo do caráter humano é o desejo de ser apreciado, reconhecido e valorizado”

-William James-

As múltiplas evidências arqueológicas e etnográficas também nos mostram que, no início da agricultura, a cooperação pacífica e o altruísmo eram comuns e que, sem dúvida, conseguimos progredir como espécie graças a isso. Da mesma forma, também há evidências de que os neandertais cuidavam de seus anciãos com grande atenção. Eles os honravam sem esperar nada em troca e, posteriormente, realizavam cerimônias fúnebres com um claro simbolismo emocional e religioso.

Tudo isso nos mostra claramente que se preocupar com os outros, cuidar deles, dar atenção… é possivelmente o que mais dignifica uma determinada espécie, um grupo social. Além disso, qualquer comportamento destinado a fornecer alívio, apoio ou cuidado tem um impacto positivo no nosso bem-estar físico e psicológico, ajudando-nos assim a sobreviver, a nos conectarmos uns com os outros de maneira transcendente e significativa.

Portanto, um “como você está?” dito com sinceridade, ou até mesmo escrito através de uma mensagem de WhatsApp, pode fazer muito mais do que poderíamos acreditar em um primeiro momento…

mãos segurando coração

Estou aqui para te ajudar, estou aqui por você e não vou pedir nada em troca

David Graeber é um conhecido antropólogo que ganhou fama e notoriedade por causa do seu ativismo social. Uma de suas teorias mais recorrentes é aquela em que direciona a sua visão crítica sobre a forma como o dinheiro e a economia estão destruindo por completo o nosso altruísmo original, o nosso “gene” para favorecer a coesão, para promover a união essencial entre os grupos humanos a fim de preservar a nossa sobrevivência, o nosso bem-estar e a harmonia.

Para justificar essa ideia, Graeber nos fala sobre os Inuit da Groenlândia e também sobre os Iroqueses. Ele explica que, nessas comunidades, sempre houve não apenas uma preocupação sincera um pelo outro, mas que também não se concebia a ideia de pagar um favor ou até mesmo a obrigação de retribuí-lo. Assim como dizem os Inuit, “em nosso país somos humanos e nos preocupamos uns com os outros. Se alguém precisar de sapatos, basta pedir. Se um caçador não tiver um bom dia, os seus vizinhos vão compartilhar um pouco de sua comida com ele.

sapatos velhos com flores dentro

Conforme vemos, tanto no passado quanto em alguns pequenos resquícios do nosso presente, existem grupos de pessoas que baseiam todas as suas interações no altruísmo e em um interesse intrínseco, autêntico e constante por esse ser humano que, assim como eu, tem dificuldades, necessidades, que enfrenta medos, fome, solidão… Há, portanto, uma vontade sincera de levantar o rosto para além da pequena ilha do ego a fim de contornar as fronteiras individuais e, assim, apreciar o outro como parte de si mesmo.

Algo que, sem dúvida, deveríamos colocar em prática com mais frequência em nossas sociedades avançadas e, aparentemente, “favorecidas”.

Um “Como você está?” terapêutico, aquele que vai além dos formalismos

Vamos admitir: no dia a dia, a expressão mais recorrente na nossa linguagem cordial é o clássico “como você está?, tudo bem?”. Deixamos que ele passe sem esperar resposta, como um prelúdio para o diálogo, e raramente esperamos que a outra pessoa seja sincera, seja porque mal damos tempo para uma resposta ou simplesmente porque preferimos formalidades à sinceridade, a aparência à autenticidade emocional.

“Somente aquele que sabe cuidar do outro pode possuir a si mesmo.”

-George Gurdjieff-

Nesta sociedade da aparência, conforme diria Eduardo Galeano, parece que esquecemos aquele princípio de humanidade dos Inuits ou de nossos ancestrais mais primitivos. Mais do que sapatos, mais do que jantar ou agasalhos, o que as pessoas precisam é de apoio, consideração, proximidade, interesse e atenção.

Precisamos de palavras sinceras e de pessoas interessadas em nos ouvir. Queremos que depois de um “como você está?“, haja silêncio, espera e aquele olhar que nos transmite confiança suficiente para nos puxar, tirando-nos do nosso quebra-mar, dos nossos buracos negros.

Da mesma forma, também cabe dizer que não é necessário que algo concreto nos aconteça para precisarmos desse diálogo terapêutico capaz de promover o alívio emocional. Na maioria das vezes, esse “como você está?” alegra o nosso dia, fazendo-nos sentir parte de alguém, parte de um vínculo, como peças brilhantes de uma engrenagem com a qual a vida adquire maior sentido, maior autenticidade.

Portanto, não descuidemos dos nossos. Não caiamos em meros formalismos e pratiquemos a arte da consideração, do reconhecimento e da reciprocidade. Vamos praticar o “como você está” diariamente, realmente nos preocupando com o bem-estar das pessoas que são importantes para nós.

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Imagens cortesia de Clare Elssaeser