Conceitos e recursos clínicos da terapia de aceitação e compromisso

julho 29, 2019
Apresentamos a seguir um resumo dos principais recursos e conceitos clínicos da ACT, terapia de aceitação e compromisso.

A terapia de aceitação e compromisso (ACT) pertence ao grupo das terapias conhecidas como terapias de terceira geração.

O objetivo dessas terapias é fazer uma mudança no que diz respeito ao tratamento psicológico, dando um peso maior a aspectos que estavam um pouco esquecidos. Entre eles, podemos citar a aceitação, a consciência plena, a desativação cognitiva, a dialética, os valores, a espiritualidade e as relações.

Para as terapias de terceira geração, o transtorno não se encontra dentro da pessoa. Na verdade, é ela que se encontra em uma circunstância ou situação problemática.

Os conflitos não estariam, portanto, dentro da pessoa, mas sim na sua interação com o contexto atual, considerando também o seu contexto histórico. Os dois grandes princípios que servem como base para as intervenções das terapias de terceira geração, assim como a ACT, são:

  • A aceitação. Supõe abandonar de forma radical a busca incessante da felicidade e do bem-estar imediato. A chave é normalizar o mal-estar como uma experiência de vida normal.
  • A ativação. A ideia é perseguir os objetivos pessoais e valores apesar dos sintomas de mal-estar. Nesse tipo de terapia, a eficácia não é medida pela quantidade de sintomas eliminados, mas sim pelos sucessos pessoais do paciente a partir de um processo de compreensão dos próprios valores.

A terapia de aceitação e compromisso começou a ser utilizada na década de 80. Seu fundador foi Steven Hayes, professor da Universidade de Nevada.

A ACT é definida como uma forma de psicoterapia da experiência, do comportamento e da cognição baseada na teoria dos marcos reacionais. Essa teoria aborda a linguagem e a cognição humana a partir dos conceitos do behaviorismo radical.

A ACT faz uso de uma multiplicidade de recursos clínicos que permitem abordar o sujeito para que ele possa alcançar, enfim, a aceitação e a ativação.

Garota preocupada

Conceitos importantes da Terapia de Aceitação e Compromisso

A terapia de aceitação e compromisso supõe uma grande mudança no que diz respeito às terapias anteriormente disponíveis. Principalmente em relação ao modo de nos relacionarmos com nossos conteúdos mentais.

Também é inovadora a rejeição a uma classificação diagnóstica, invocando como único elemento de análise e planejamento de intervenção o comportamento do paciente e sua função dentro de um contexto. Nesse sentido, é possível enumerar uma série de conceitos importantes dentro da ACT:

  • A evitação experiencial. Supõe a rejeição ou fuga de qualquer sintoma, emoção ou pensamento que gere mal-estar na pessoa. Ao criar essa rejeição, o paciente tenta, a todo custo, controlar seus eventos privados, suas sensações e sentimentos, assim como as circunstâncias que os geram. A evitação experiencial surge por estarmos inseridos em uma cultura que promove o bem-estar acima de tudo, inclusive dos próprios valores. Temos que deixar claro também que a evitação experiencial não é necessariamente sempre patológica. No entanto, pode ser a partir do momento em que limita o que a pessoa faz ou quer fazer com a sua vida.
  • Os valores pessoais. São aquelas coisas às quais damos mais importância em nossas vidas. Os valores pessoais supõem objetivos que gostaríamos de alcançar ou de realizar porque acreditamos que nos gerariam satisfação.

Segundo esses dois conceitos principais da ACT, a pessoa ficaria presa em um círculo vicioso no qual, por não estar disposta a sofrer (evitação experiencial), acabaria se mantendo refém de coisas que não estariam em consonância com seus valores pessoais.

No entanto, mesmo assim, a pessoa se mantém nessa área por comodismo.

Não podemos esquecer que essa solução é superficial e efêmera. Para alcançar nossos verdadeiros objetivos e conseguirmos nos tornar quem realmente somos e queremos ser, é necessário aceitar de forma radical o mal-estar que pode aparecer nesse caminho.

Recursos clínicos da ACT

O primeiro passo que costuma ser dado na terapia de aceitação e compromisso, tendo em conta que não é uma terapia estruturada, é a realização de uma análise funcional do paciente específico que está sendo tratado.

Essa análise permite conhecer os valores da pessoa e seu nível de comprometimento com eles. A partir daí, poderemos definir os objetivos terapêuticos. Entre os recursos clínicos que a ACT propõe, podemos encontrar os que iremos enumerar a seguir:

  • Desesperança criativa. Os pacientes já tentaram implementar algumas soluções antes de chegar à terapia. O problema é que essas tentativas de solução não tiveram sucesso. De fato, muitas vezes essas soluções podem até mesmo se converter em parte do problema.

A desesperança criativa quer nos ensinar que quando as tentativas que alguém realiza para solucionar seus problemas (ruminação, beber álcool, controlar tudo, etc) não trazem resultados, outras alternativas devem ser consideradas.

Para questionar essas tentativas carentes de sucesso, podemos usar a metáfora da areia movediça. Quanto mais tentamos escapar da areia movediça, mais nós acabamos afundando nela. O mais sensato seria, então, relaxar o corpo e entrar em contato com a areia.

  • Orientação por valores. É útil ajudar o paciente a entender quais questões da vida são valiosas para ele e que direção ou caminho ele acredita que são os adequados para chegar a esse lugar. Os valores são as diretrizes para o comportamento.
  • O controle é o problema. O controle de si mesmo para tentar não sofrer muitas vezes provoca uma piora da situação. Se eu tento controlar o fato de pensar, tentando não pensar em uma coisa qualquer, o que acontece? Quanto mais eu tento não pensar, com mais força a imagem que eu não queria se fixa na minha mente. Por isso, temos que nos dar conta de que pode ser melhor parar de tentar controlar o incontrolável.
  • A aceitação. Aceitar supõe abrir-se para a experiência de sentir. É abraçar os nossos demônios ainda que não gostemos deles. E, claro, não olhá-los com preconceito, não julgá-los. Temos apenas que ficar com o que realmente são: sensações, emoções, pensamentos. Nada além disso.
  • Desfusão cognitiva. Supõe desvincular-se dos eventos privados. Assim como nós não nos fundimos com o nosso sangue ou qualquer outro fluído do nosso corpo, mesmo sendo parte de nosso organismo, por que fazemos isso com os nosso pensamentos e emoções? A ideia é chegar à conclusão de que os pensamentos são produtos mentais, que emanam de um cérebro vivo e, portanto, são eventos normais.
  • O eu como contexto. Supõe não encontrar a identidade na forma de pensar ou sentir. Uma coisa é o que uma pessoa pensa, como alguém pensar em alguns momentos “eu devo ser perfeito no meu trabalho”. Outra coisa é esse pensamento definir a pessoa em sua totalidade. Nós não somos nossos pensamentos, somos muito mais.
  • A ação comprometida. Supõe definir metas e se comprometer com a execução das mesmas apesar dos obstáculos que podem surgir no caminho – e vão surgir.
  • As metáforas. É um dos recursos clínicos mais importantes da ACT. Servem para que o paciente aprenda de uma forma mais fácil tudo que foi falado anteriormente. É importante que tais conceitos não sejam explicados de forma abstrata e arbitrária. Deve haver uma relação ou algum tipo de analogia com a problemática de cada pessoa.
  • A exposição. Supõe uma abertura total aos pensamentos e sentimentos mais dolorosos. Conseguir se expor e estar disposto a experimentar as emoções é essencial, sabendo que, após um tempo, elas diminuirão de intensidade.
  • Mindfulness. Por último, a prática do mindfulness é um recurso de relevância na ACT. Essa técnica possibilita uma mudança no relacionamento com os nossos pensamentos, sentimentos, memórias e padrões de regulação verbal que comumente julgamos como problemáticos e que não podemos controlar.
Mulher em sessão de terapia

A terapia de aceitação e compromisso se mostrou efetiva em inúmeros estudos de caso e pode ser realizada tanto em formato individual quanto em grupo.

Uma de suas vantagens é que seus resultados se mostraram especialmente positivos já durante o início da terapia, evitando que a questão se torne crônica.

O único inconveniente é a grande dificuldade que a aceitação dos pensamentos e emoções negativas supõe, principalmente dentro de um sistema que promove a felicidade e a satisfação o tempo todo.

Isso é algo que está presente em nosso contexto, seja na forma de publicidade, nas músicas, no cinema ou nas relações interpessoais. Quem nunca ficou deprimido e ouviu a seguinte frase como conselho: “Anime-se! Você só vive uma vez!”

Essa cultura do bem-estar torna muito difícil não fugir dos estados negativos. A chave é a constância na terapia e a prática de todos os recursos clínicos expostos. Dessa forma, pouco a pouco vamos criando o hábito da aceitação radical.

Entender que as emoções, sejam elas boas ou ruins, são válidas, necessárias e fazem parte da vida é essencial.

  • Ruiz, M.A., Díaz, M. I., Villalobos, A. (2012). Manual de Técnicas de Intervención Cognitivo Conductuales. Desclée De Brouwer, S.A