O que fazer quando os pacientes não fazem as tarefas da terapia

julho 2, 2019
Parte da mudança terapêutica está relacionada à realização de tarefas pelo cliente. No entanto, quando estas não são concluídas, assume-se que o indivíduo não quer mudar. Neste artigo, falamos sobre como abordar essa resistência e explicamos por que ela geralmente é um problema ou erro do terapeuta, e não do cliente.

Muitas vezes, mesmo sabendo que seria importante, os pacientes não fazem as tarefas da terapia. Estas resistências dos mesmos são atitudes, comportamentos ou cognições que podem atrasar ou evitar a mudança terapêutica.

Algumas dessas resistências se apresentam em uma primeira fase de avaliação. O cliente pode questionar o tratamento proposto, recusando-se a falar sinceramente, respondendo as perguntas do terapeuta de forma sucinta e com pouca informação, rebatendo o profissional constantemente ou não fazendo as tarefas.

Embora muitas vezes estas resistências sejam provocadas por intervenções pouco adequadas na etapa motivacional, um grande número de terapeutas opta por atribuir toda a responsabilidade pelas mesmas aos clientes, aludindo à passividade, obstinação ou interesse em boicotar a terapia.

As resistências são um problema do terapeuta

O terapeuta pode, sem dúvida, terminar a terapia se observar que esta não é mais proveitosa para o cliente. No entanto, assumir que este não quer ou não pode ser tratado por causa das resistências que apresenta não é a maneira mais conveniente de agir.

A abordagem motivacional na terapia – que podemos observar, por exemplo, na entrevista motivacional, baseada em ajustar o estilo da terapia às diferentes fases de mudança do cliente – assegura que as resistências do paciente são um problema do terapeuta.

Portanto, mais do que se convencer de que o cliente não quer ser tratado e de que não vai melhorar, o mais recomendável seria coletar essas resistências e refletir sobre o que pode ter feito com que o cliente colocasse obstáculos à mudança.

Quando há pacientes que não fazem as tarefas da terapia, o “culpado” pode ser o tipo de terapia ou o fato de que o trabalho realizado não seja apropriado para as características da pessoa.

Para isso, é bom expor o problema em sessão, uma vez que a sinceridade e a genuinidade são especialmente relevantes para estabelecer um bom relacionamento terapêutico e encontrar soluções para as resistências que surgem.

Mulher fazendo terapia

Exemplo de resistência: a idade do terapeuta

Uma situação que pode nos preocupar é que o cliente questione o profissionalismo do terapeuta pelo mesmo não ter cabelos grisalhos, um bigode exuberante ou não usar um paletó.

O que começa como um simples comentário no início do tratamento pode, mais tarde, se tornar uma resistência, de acordo com a qual o cliente questiona o psicólogo.

O paciente duvida que o que ocorre em sessão será útil, ou estima que a idade do terapeuta é insuficiente para trabalhar certos tópicos, desde questões relacionadas a crianças até problemas sexuais ou de parceiros.

Abordar a contrariedade e usar certas estratégias, como as descritas acima, pode transformar as expectativas de tratamentos aparentemente complicados em uma oportunidade de fortalecer a aliança terapêutica.

Algumas das estratégias propostas por Labrador (2011) em seu manual Situações Difíceis na Terapia referem-se a explicitar o problema e perguntar ao cliente sobre as suas reservas e as habilidades que ele acredita que o terapeuta não tem.

Além disso, também é aconselhável expor os pontos fortes da jovialidade do terapeuta, como a motivação ou o contato com os avanços psicológicos mais recentes, por ter saído de um ambiente acadêmico.

Como lidar com os pacientes que não fazem as tarefas da terapia?

Durante a avaliação e a intervenção em si, é muito possível que o cliente não faça suas tarefas. Mesmo as mais básicas, como a manutenção de um diário simples, são muito significativas, pois são necessárias para a análise funcional e a elaboração de um plano de tratamento.

Por essa razão, é extremamente importante fazer com que o cliente traga suas anotações toda semana. Estas são algumas estratégias para conseguir isso:

  • Não assumir que o cliente entendeu a explicação de como fazer os registros. Podemos não ter sido claros ou nossa linguagem pode não ter sido adaptada às necessidades do indivíduo. Portanto, se necessário, explique novamente em que consiste a tarefa.
  • Motivar e ressaltar o valor da tarefa. Insista e explique que as anotações, apesar de serem úteis para nós, são muito valiosas para eles, e que não fazê-las vai contra o que querem alcançar.
  • Certifique-se de que a maneira de solicitar as anotações seja apropriada. Em vez de dizer “você tem que completar o diário e trazê-lo para mim no dia seguinte”, seria muito mais conveniente motivar, enfatizar que o trabalho é de ambos e que as tarefas são úteis para ambos.
  • Certifique-se de que o suporte e o material para manter o diário sejam adequados. Os níveis educacionais e socioculturais dos nossos clientes podem ser muito diferentes uns dos outros e, embora seja normal pensar que lápis e papel são ferramentas que todos sabem usar, isso nem sempre é verdade.

Há pessoas que, por suas ocupações, não podem levar consigo um pedaço de papel aonde quer que vão. Outros não são mestres na arte de escrever, e a tarefa pode ser algo que gere ansiedade. Outros podem ser tão esquecidos que nem se lembram de escrever nada durante o dia e, quando começam a escrever à noite, esquecem tudo.

Por esse motivo, oferecer outras opções, como fazer as anotações no celular, gravá-las ou usar aplicativos como Mentalcheck ou Self-Monitoring pode ser muito útil. Estas abordagens nos ajudam a ultrapassar a barreira dos registros incompletos e a realizar uma avaliação mais aprofundada.

  • Estabelecer ajuda externa. Por exemplo, se o cliente esquecer de fazer suas anotações, uma mensagem de texto pode ser enviada no meio da semana como lembrete .Também é possível estabelecer uma série de alarmes na terapia, ou elaborar lembretes para serem colocados em locais visíveis.
Sessão de terapia

Condicionar a terapia como última opção

E se, mesmo fazendo todos esses ajustes, continuarmos tendo pacientes que não fazem as tarefas da terapia?

Caso não pareça haver qualquer questão de peso que esteja impedindo a conclusão das mesmas, como um último recurso, o terapeuta pode dizer que a terapia só poderá continuar se as tarefas forem realizadas.

A ideia de condicionar a terapia consiste em ligar para o cliente no dia anterior à consulta e perguntar se a tarefa foi concluída. Se a resposta for negativa, a sessão do dia seguinte será cancelada, e assim por diante.

Naturalmente, este deve ser considerado como um último recurso. Afinal, embora as tarefas sejam essenciais para a prática clínica, muitos pacientes não podem postergar o tratamento devido à natureza das suas dificuldades.

O objetivo final das intervenções descritas acima é oferecer ao cliente a terapia mais apropriada, eficaz e útil para o problema que apresenta. Elas devem ser colocadas em prática caso a tarefa em questão seja considerada indispensável. Se existe a possibilidade de alterar o tipo de tarefa ou eliminá-la e encontrar outros meios para atingir o objetivo, esta será a alternativa mais recomendada.

  • Labrador, F. (2011). Situaciones difíciles en terapia. Madrid: Pirámide.