Consciência situacional, uma estratégia resiliente

10 Dezembro, 2020
Saber em que situação estamos, esclarecer ameaças e oportunidades, ver as coisas em perspectiva sem o filtro do estresse ou do medo... Todas essas habilidades definem um tipo de competência que pode melhorar a nossa capacidade de enfrentamento e resiliência.

A consciência situacional define uma capacidade excepcional de sobrevivência, superação e resiliência. Consiste em traçar um mapa mental para entender onde estamos, o que nos rodeia e quais são os desafios que temos pela frente. Além disso, essa habilidade altamente sofisticada nos permite, acima de tudo, assumir claramente o que está acontecendo para que possamos traçar um plano de enfrentamento.

Muitos vão pensar que esse recurso é próprio de qualquer super-herói ou uma espécie de escoteiro. No entanto, por mais impressionante que possa parecer, todos nós somos capazes de desenvolver essa série de processos cognitivos tão marcantes. Na psicologia, sabe-se que o ser humano é capaz de processos incríveis, que podem ser treinados para tomar decisões mais acertadas e assumir o controle em tempos de crise.

Além disso, algo interessante a se considerar é que o “despertar” da consciência situacional é uma estratégia muito valiosa no momento atual. Em épocas complexas, marcadas por mudanças e desafios, o cérebro precisa mais do que nunca saber como agir diante da presente incerteza e das possíveis encruzilhadas que podemos encontrar.

Estar à beira do precipício

Consciência situacional: o que é e como desenvolvê-la?

Quando as pessoas enfrentam momentos de estresse, algo notável acontece e quase não percebemos. As dificuldades tendem a reduzir a percepção e focalizá-la no medo. Elas concentram todas as suas energias em aumentar as preocupações. Quase sem perceber, ficamos suspensos em uma pequena ilha no meio de um oceano de angústia. Somos incapazes de ver além dos próprios limites desta situação complicada.

A consciência situacional é como dar um passo para trás, levantar os olhos e perceber tudo ao nosso redor. É levantar o rosto para que a brisa nos refresque, ver o que está à nossa frente e considerar as oportunidades que temos. Assim, grande parte da atitude resiliente precisa dessa capacidade que, ao transitar nas adversidades, adquire novas habilidades de sobrevivência.

Atualmente, grande parte dessa dimensão é aplicada principalmente no campo militar e, em particular, na aviação. Uma das figuras mais notáveis ​​nesta área é a pedagoga espanhola María Gabriela López García, pioneira no uso do neurofeedback para ensinar esta técnica cognitiva. No entanto, deve-se destacar que esse recurso também tem despertado interesse na psicologia. Vejamos como desenvolvê-lo.

Desperte todos os seus sentidos, perceba e tome consciência de tudo ao seu redor

O primeiro passo para ativar a consciência situacional é saber onde estamos. Agora, no campo da psicologia, não estamos nos referindo a um espaço físico específico que se possa, por exemplo, localizar em um mapa. Falamos do ponto vital marcado pelo aqui e agora, pela experiência presente.

Para encontrá-lo, será útil nos fazermos as seguintes perguntas:

  • Como estou me sentindo agora?
  • O que desencadeou esse estado de espírito?
  • O que eu acho sobre como me sinto? Eu gostaria de me sentir diferente?
  • Que tipo de contexto me contém? É favorável ou existe algum tipo de ameaça? Que aspectos potenciais ou esperançosos apresenta?
  • Que tipo de pessoas me cercam? Elas me fazem feliz?

Representação mental e reconhecimento de padrões

O próximo elemento a treinar é a representação mental. Consiste em traçar uma espécie de mapa mental que nos permita ter uma melhor perspectiva das coisas. De que maneira? Comparar o que vivemos aqui e agora com a nossa experiência passada, com os aprendizados que obtivemos em nosso ciclo de vida.

O cérebro é frequentemente dirigido por padrões. O nosso conhecimento e experiências passadas desenham esquemas mentais para nos ajudar a reagir diante dos desafios atuais. Todos nós temos uma jornada pessoal, um passado que traça quem somos hoje. Para delimitar essa representação mental, esclarecer os seguintes aspectos pode nos ajudar:

  • Quais são os meus valores? Estou agindo de acordo com eles nesse momento?
  • Caso você esteja passando por uma situação adversa, quais são os gatilhos?
  • Um dos padrões que nos definem é a personalidade, além da atitude e das habilidades de enfrentamento. Elas são adequadas para a situação atual? Elas me serviram no passado? Devo mudar algo para me adaptar ao ambiente que me rodeia?
Mulher observando o mar

Consciência situacional: projeção

A consciência situacional parte de um elemento-chave: assumir que o presente está repleto de desafios e que devemos estar constantemente nos atualizando. A preparação atual nos permitirá enfrentar o futuro de uma forma melhor. A mente deve lidar com a experiência do passado, estar atenta a cada acontecimento no aqui e agora e, por sua vez, vislumbrar quais são os desafios no horizonte.

É preciso combinar calma interior com intuição. É necessário aprender a acalmar o medo, a administrar o estresse para abrir a nossa percepção, ampliar o foco e projetar metas ajustadas para o amanhã. Desenvolver um olhar atento e relaxado leva tempo, pois as incertezas e os problemas atuais podem diminuir o ânimo e até a esperança.

Porém, nada é tão importante quanto nos posicionarmos naquilo que queremos alcançar, nos nossos valores e na necessidade de nos superarmos a cada dia. O futuro é uma dimensão nublada que está sendo definida à medida que avançamos com segurança e com uma bússola interna bem calibrada.

Saber onde estamos e onde queremos chegar é sempre o melhor ponto de partida.

  • Endsley, M. R. (2000). «Theoretical underpinnings of situation awareness: A critical review.» En M. R. Endsley & D. J. Garland (coords.), Situation Awareness Analysis And Measurement. Mahwah, NJ: LEA
  • López García, Mª G. (2011). «Entrenamiento de la Conciencia Situacional mediante neurofeedback.» Colegio Oficial de Pilotos de la Aviación Comercial. Aviador, número 61 julio-agosto-septiembre 2011.