Como conviver com uma pessoa alexitímica

outubro 13, 2019
Conviver com uma pessoa alexitímica é um desafio porque ela não sabe decodificar aquilo que sente. Esse traço de personalidade está por trás de muitos términos de relacionamentos.

Conviver com uma pessoa alexitímica não é fácil. Afinal de contas, poucos se acostumam a viver sem um “te amo” ou um “como você está?”.

A pessoa alexitímica, diferentemente do que podemos pensar, tem sentimentos. Ela sente, mas não sabe expressar em palavras seu mundo interno de afetos, de emoções, de universos desconcertantes que a bloqueiam e angustiam.

Nick Frye-Cox, doutora da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, revelou algo interessante e digno de reflexão em um de seus estudos. Uma parte das separações que ocorrem estariam mediadas pela alexitimia.

São aquelas situações nas quais um dos membros do casal não se sente validado pelo outro. Nas quais, longe de apreciar um amor real, só experimenta frieza e até negligência.

A comunicação emocional interpessoal estrutura qualquer vínculo saudável. As pessoas precisam de mais do que alguém ao seu lado.

Nós queremos pessoas ativas emocionalmente, figuras receptivas e expressivas que entendem de reciprocidade, que oferecem reforços capazes de nutrir a relação, de alimentar o afeto e o compromisso cotidiano.

No entanto, a pessoa alexitímica nem sempre consegue fazer isso. E não é porque não queira. Mas porque carece de mecanismos para dar resposta àquilo que sente.

É como tentar falar por meio de um idioma que não se conhece, é viver em uma dimensão nublada onde tudo que é emocional perpassa essa espessura imprecisa que ela não vê, que ela não entende.

Da nossa parte, é necessário tentarmos entender um pouco mais esse perfil de personalidade. Conviver com esse tipo de pessoa pode ser doloroso, mas sempre é possível colocar em prática algumas estratégias.

 “As pessoas com alexitimia se sentem sozinhas. Elas carecem de estratégias para poder comunicar seus sentimentos, e isso faz com que acabem destruindo grande parte das relações que iniciam.”
-Nick Frye-Cox-

Como conviver com uma pessoa alexitímica

Como é um pessoa alexitímica?

Em primeiro lugar, devemos ter consciência de um aspecto simples: a pessoa alexitímica não é um psicopata. Ao mesmo tempo, nem todos os perfis alexitímicos apresentam um distúrbio psicológico.

Na verdade, estamos diante de um traço de personalidade identificado por John Nemiah, um psicanalista de Boston, em 1976.

Para identificar uma pessoa alexitímica, utiliza-se a Toronto Alexithymia Scale (TAS-20). As dimensões que essa escala mede são as seguintes:

  • Dificuldade para identificar e descrever sentimentos.
  • Problemas para interpretar e distinguir suas próprias emoções.
  • Tendência ao conformismo social.
  • Assumem que ninguém consegue entendê-los, e isso às vezes gera frustração.
  • Evitam falar de aspectos íntimos, o que sentem, o que pensam, o que aconteceu. Preferem conversas rápidas, relacionadas a atividades, hobbies, aspectos objetivos.

Um estudo realizado na Universidade do País Basco estima que esse perfil pode ser associado a 15% da população.

Casal à noite

Como conviver com uma pessoa alexitímica

Frequentemente, há quem cometa o erro de pensar que a pessoa alexitímica não se apaixona. Isso não é verdade. Esse perfil de personalidade também sente as necessidades de filiação, de criar uma família, de amar e ser amado.

No entanto, assim como indica o neurologista Pablo Irimia, “a pessoa alexitímica sente, mas é incapaz de expressar em palavras esses estados de acordo com o contexto”. 

Portanto, vamos ver quais estratégias deveríamos utilizar para conviver com uma pessoa alexitímica.

O que não se diz com palavras é expressado por outros canais

O amor, o afeto, a cumplicidade e a admiração podem ser expressos de muitos modos, não apenas com palavras.

Para conviver com uma pessoa alexitímica, devemos entender que para ela será extremamente difícil verbalizar seus sentimos. No entanto, podemos percebê-los no olhar e na linguagem não verbal.

Além disso, um canal que muitas pessoas alexitímicas utilizam é a escrita. O casal deve encontrar um meio através do qual esses sentimentos possam ser refletidos.

A comunicação física

Collin Hesse, professor de comunicação da Universidade de Missouri, realizou várias terapias nas quais é possível perceber um aspecto interessante. A pessoa alexitímica responde bem ao contato físico, às carícias, aos abraços, aos beijos… Adotar esse tipo de linguagem no dia a dia pode facilitar muito as coisas.

Quando as palavras faltarem, é positivo recorrer a esse tipo de gesto altamente emocional. Eles estimulam a empatia, a conexão e, sobretudo, aliviam a ansiedade.

Fica claro que o(a) parceiro(a) da pessoa alexitímica sofre, mas a pessoa que tem esse traço de personalidade também sofre por não saber como comunicar seus sentimentos.

Três tipos terapia para melhorar a convivência

Uma coisa que devemos entender sobre a alexitimia é que ela não tem cura. Estamos diante de um tipo de personalidade, não um transtorno clínico.

Portanto, para conviver com uma pessoa alexitímica é necessário que ela tenha contato com diferentes tipos de terapia para melhorar a relação, para que adquira mecanismos com os quais possa otimizar o relacionamento e a comunicação com os outros.

As três abordagens mais interessantes são as seguintes:

Terapia em grupo

Proteger a integridade emocional: quando a convivência não é possível

A convivência com uma pessoa alexitímica é desgastante. A razão disso é evidente: muitas pessoas se cansam de dar muito de si mesmas sem receber nada em troca, sem ver melhorias.

Assim, é importante proteger nossa saúde psicológica. Assim como já indicamos, conviver com uma pessoa alexitímica pode envolver um grande sofrimento (para ambos). Portanto, às vezes não há outra opção senão refletir sobre a própria relação e tomar uma decisão.

No entanto, não devemos deixá-la sem antes lutar por ela. Muitos casais conseguiram encontrar mecanismos que permitem criar uma linguagem própria por meio da qual se sentem validados, uma relação na qual os vazios não são excessivos e a convivência é possível.

  • Berenbaum, H. y Prince, J.D. (1994). Alexithymia and the interpretation of emotion-relevant information. Emotion and Cognition, 8(3), 231-244.
    Cochrane C.E., Bewerton T.D., Wilson D.B. y Hodges E.L. (1993). Alexithymia in the eating disorders. International Journal of Eating Di -sorders, 14, 219-222.
  • Preece, D., Becerra, R., Robinson, K., & Dandy, J. (2018). Assessing alexithymia: Psychometric properties and factorial invariance of the 20-item Toronto Alexithymia Scale in nonclinical and psychiatric samples. Journal of Psychopathology and Behavioral Assessment, 40(2), 276-287. doi:10.1007/s10862-017-9634-6
  • Nemiah, J. C., Freyberger, H., & Sifneos, P. E. (1976). Alexithymia: A view of the psychosomatic process. In O. Hill (Ed.), Modern trends in psychosomatic medicine, Vol. 3 (pp. 430–439). London, UK: Butterworths.