Córtex insular: como aprendemos com as experiências dolorosas

novembro 6, 2019
Existe a ideia de que as informações acompanhadas pela dor dão origem a um aprendizado mais intenso e duradouro. No entanto, como esse processo ocorre no cérebro?

O que lembramos com mais facilidade da nossa infância: o primeiro doce que experimentamos ou a primeira briga na escola? Quase todo mundo apontaria para o segundo. Parece claro que aqueles eventos em que a dor está envolvida em algum grau são melhor armazenados como lembranças. Agora, alguns estudos recentes apontam o córtex insular do cérebro – a área responsável pelo processamento da dor – como mediador desse tipo de aprendizado.

Portanto, a neurociência conseguiu, mais uma vez e graças a muitas pesquisas, atribuir fundamentos neuroanatômicos aos processos mentais que já havíamos definido anteriormente.

A ligação entre o processamento de experiências dolorosas e a aprendizagem derivada de tais experiências está localizada na ínsula, na superfície lateral do cérebro, dentro do sulco que separa o córtex parietal inferior do temporal.

Fissura de Sylvius é o nome dado ao sulco lateral que separa o córtex temporal do parietal inferior no cérebro.

Mulher triste e pensativa

A importância da aprendizagem derivada da dor

A evolução nos deu um mecanismo de sobrevivência eficaz: o chamado aprendizado por ameaças. A esse tipo de aprendizado devemos, em grande parte, a sobrevivência da nossa espécie.

Além de nós, há outras espécies que também apresentam esse recurso facilitado por seus respectivos sistemas nervosos.

A sensação protetora desse mecanismo é dada pelo fato de que, graças a esse aprendizado, somos capazes de evitar situações futuras que podem ser prejudiciais ou dolorosas.

Com base nesses aprendizados anteriores, sabemos que eventos semelhantes nos causariam danos. De certa forma, eles nos ajudam a não “tropeçar na mesma pedra”.

Assim, bater com o pé na perna de uma mesa causa instantaneamente uma dor aguda e irritante que estabelecerá um aprendizado claro: para evitar futuras dores desse tipo, será necessário evitar chutar a mesa novamente.

O papel do córtex insular

Durante muito tempo, os cientistas se perguntaram qual seria a região do cérebro responsável por alertar outras regiões cerebrais sobre eventos dolorosos, para que o aprendizado aversivo ou por ameaça pudesse ser acionado.

Há muito se sabia que a amígdala cerebral era importante nesse tipo de aprendizado, mas ainda havia alguns elos a serem determinados.

É que, por mais que região da amígdala colaborasse nesse aprendizado através da avaliação emocional dos estímulos recebidos, ainda era preciso encontrar a região do cérebro que era capaz, assim como o maestro de uma orquestra, de combinar todos os processos cerebrais envolvidos para constituir um aprendizado significativo e integrado.

Finalmente, o córtex insular, dobrado de forma compacta dentro do sulco cerebral lateral, emergiu como responsável por transmitir os “sinais de alerta” relacionados às experiências dolorosas.

Embora houvesse evidências de conexões entre os neurônios amigdalianos e os neurônios insulares, a sua função ainda não havia sido objeto de estudo.

Classicamente, havia sido atribuído ao córtex insular a capacidade de codificar sentimentos sobre o nosso próprio corpo.

Estudos com ratos

Os estudos mencionados usaram ratos ​​como cobaias devido às semelhanças entre o seu córtex insular e o humano. Ao desconectar o córtex insular dos roedores durante o aprendizado doloroso, os pesquisadores descobriram que eles perderam praticamente todo o medo de futuros eventos dolorosos.

E não apenas isso: também foi provado que, nessas circunstâncias, os ratos reduziam a sua capacidade de extrair aprendizado de experiências dolorosas.

“Somos o que fazemos repetidamente. A excelência, então, não é um ato, é um hábito”.
– Aristóteles –

Provou-se que a ínsula desempenha um papel importante, além da experiência da dor, na experiência de um grande número de emoções básicas, como amor, ódio, repulsa, medo, tristeza e felicidade.

Do ponto de vista anatômico, a ínsula está localizada no ponto preciso da integração de dois fenômenos em particular:

  • Informações relacionadas ao estado do corpo em diferentes processos emocionais.
  • Vários processos cognitivos de ordem superior.

Portanto, o que mediaria este processo é a associação entre as mudanças corporais – estados emocionais provocados – e as modificações na maneira como essas mudanças são vivenciadas qualitativa e subjetivamente. Em suma, o córtex insular informa o nosso cérebro sobre os estados corporais.

O cérebro humano

Córtex insular: o que essas novas descobertas nos ensinam

Foi confirmado que, além de notificar o nosso cérebro sobre vários estados do corpo, o córtex insular é capaz de enviar poderosos sinais de alerta para outras regiões do cérebro que participam da formação de memórias sobre eventos desagradáveis ​​ou dolorosos.

Supõe-se que os neurônios da ínsula sejam responsáveis ​​pela sensação subjetiva de dor e, portanto, também seriam responsáveis ​​por adicionar sentimentos de desagrado aos eventos dolorosos experimentados.

Com o seu funcionamento, o córtex insular induziria outras áreas do cérebro a desempenhar o seu respectivo papel no processo de aprendizagem aversiva.

Disso resulta que a atividade da ínsula tem um impacto significativo nos fenômenos de interconectividade cerebral em várias regiões do cérebro. Além disso, essa descoberta se ajusta à evidência de que a atividade defeituosa dessa região cortical se correlaciona com várias condições psiquiátricas.

Assim, estudos desse tipo, que relacionam os mecanismos de conectividade e plasticidade neuronal aos mecanismos de codificação cerebral da dor, poderão no futuro servir de base para a criação de novas abordagens psiquiátricas.

Nesse sentido, o transtorno de estresse pós-traumático e os transtornos de ansiedade podem ser dois dos principais beneficiários.

  • Coffeen, U.Pellicer, F. y López-Muñoz, F. (2011). La Corteza insular en el dolor: un estudio neurofisiológico básico. EAE Editorial Academia Española Internacional.
  • Tirapu, J., García, A., Ríos, M. y Ardila, A. (2012). Neuropsicología de la corteza frontal y las funciones ejecutivas. Barcelona: Viguera Eds.