David Cooper, o primeiro antipsiquiatra

· novembro 16, 2018

David Cooper é considerado, junto com R.D. Laing, Thomas Szasz e Michel Foucault, um dos fundadores do movimento conhecido como “Antipsiquiatria”. Este movimento surgiu nos anos sessenta e seu interesse principal foi, e ainda é, denunciar as lacunas, os problemas teóricos e os abusos na prática da psiquiatria.

O próprio David Cooper estudou psiquiatria. Ele trabalhou em diferentes hospitais psiquiátricos de Londres, onde teve contato direto com pacientes diagnosticados com esquizofrenia. A partir dessa experiência, e graças à influência de outros pensadores, escreveu vários livros que, atualmente, são considerados importantes para o movimento antipsiquiátrico.

“Na realidade, o que se ensina, principalmente à criança, não é como sobreviver na sociedade, mas como se submeter a ela”.
– David Cooper –

Foi David Cooper quem utilizou, pela primeira vez, o termo “Antipsiquiatria” ou “Contrapsiquiatria” para fazer referência a esse grupo de intelectuais que encontravam graves deficiências teóricas e práticas na psiquiatria. Cooper foi o autor de vários preceitos que questionavam a psiquiatria e que continuam vigentes até hoje.

A história de David Cooper

David Cooper nasceu na Cidade do Cabo (África do Sul), em 1932, adotando a nacionalidade britânica. Segundo as suas próprias palavras, sua família era “comum”, por isso, ele não teve maiores sobressaltos durante a sua infância e adolescência. Cooper estudou música mas, depois, descobriu que a sua verdadeira vocação era a Medicina. Então, ele cursou essa faculdade e se formou em 1955.

Naquele tempo, a África do Sul estava em pleno auge do apartheid. Cooper, que era contra essa segregação, exerceu a Medicina atendendo negros em postos médicos exclusivos para essa função. Depois, ele se mudou para Londres, cidade onde trabalhou como psiquiatra em vários hospitais.

David Cooper

David Cooper se casou com uma francesa, com quem teve três filhos. Posteriormente, teve como companheira sentimental esporádica Juliet Mitchell, uma líder do movimento feminista anglo-saxão. Ela também era especialista em psicanálise lacaniana. Esta relação teve uma grande influência sobre Cooper.

A experiência da Villa 21

David Cooper trabalhou em um hospital psiquiátrico de Londres onde foi criado um famoso programa no pavilhão 21, que ficou conhecido como “Villa 21”. Ali, ele tratou um grande número de pacientes esquizofrênicos. Foi essa experiência que o levou a se separar completamente da psiquiatria.

Cooper começou a questionar as argumentações de Eugen Bleuler, o principal inspirador dos tratamentos psiquiátricos em voga naquele momento. Ele defendeu a ideia de que a esquizofrenia, ou “loucura”, como era chamada, não era uma doença mental, mas uma experiência, ou um estado de transição. Ou seja, uma espécie de “viagem” fora da realidade.

Os labirintos do cérebro

David Cooper indicou que existiam três tipos de “loucura”. São os seguintes:

  • A demência. A “esquizofrenia” originada nas condições sociais desastrosas nas quais algumas pessoas têm que viver.
  • A viagem interior. O processo de ruptura com as experiências prévias alienadas e a nova estruturação de um projeto de vida pessoal.
  • A demência social. Corresponde a uma resposta desorganizada diante de entornos “doentes”, como a família, o trabalho, etc. A loucura seria a única saída possível.

A antipsiquiatria

David Cooper realizou “experiências” ousadas na Villa 21. Na verdade, ele deixou de medicar muitos pacientes. Ele dizia que eles “iam ao inferno” e voltavam. Era uma “passagem ao ato”.

Cooper pensava que, se eles voltassem para as áreas arcaicas do seu ser, poderiam melhorar. Ele gerou grandes polêmicas, mas, ao mesmo tempo, provou que a esquizofrenia podia ser curada, algo que até aquele momento era considerado impossível.

A chave para os enigmas da mente

A partir de então, David Cooper se transformou em uma referência mundial da Antipsiquiatria. Ele iniciou um árduo trabalho defendendo suas teses no mundo inteiro. Esteve acompanhado por R.D. Laing e Herbert Marcuse.

Mais tarde, mudou-se para Paris, onde trabalhou junto com figuras como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Robert Castel a favor dos direitos humanos, em diferentes áreas do campo médico e social.

Pouco a pouco, ele se tornou uma espécie de símbolo das pessoas mais desfavorecidos. A sua imagem se transformou, ele começou a exibir uma barba muito comprida e vestimentas exóticas. Com isso, escandalizava e fascinava ao mesmo tempo. Nunca parou em seu empenho por quebrar os esquemas do pensamento tradicional. Morreu aos 55 anos, deixando uma marca permanente.