A depressão não tratada tem efeitos neurodegenerativos

setembro 26, 2019
A depressão que não recebe tratamento ou que não responde a ele acaba impactando o nosso cérebro. Surgem a inflamação, os problemas de memória, de concentração, e inclusive alterações no tamanho de várias áreas cerebrais.

A depressão não tratada, a que se torna crônica e nos acompanha durante anos como uma sombra cinzenta que obscurece tudo, acaba deixando uma marca em nosso cérebro.

Estudos recentes indicam que a alteração gerada por essa condição psicológica influencia estruturas como o córtex pré-frontal, afetando nossa capacidade de tomar decisões, resolver problemas, refletir, etc.

Neuroinflamação, menor suprimento de oxigênio que chega ao cérebro, alterações na produção de neurotransmissores… Os processos que acompanham diferentes transtornos, como o transtorno depressivo maior, podem reduzir a funcionalidade de muitas de nossas estruturas cerebrais, até dar forma a um processo neurodegenerativo.

No entanto, essas mudanças começarão a ser evidentes no caso de um paciente carregar consigo esse problema psicológico durante 9 a 12 meses.

O que pode fazer com que uma depressão não seja tratada?

Sabendo disso, podemos nos perguntar o seguinte: por que não tratamos nossas depressões? O que faz uma pessoa não buscar ajuda profissional para tratar seu sofrimento?

Cabe ressaltar que não há uma única resposta para essas perguntas. Na realidade, às vezes não chegamos a definir com exatidão a complexidade desse transtorno do humor.

Há quem pense que nunca vai melhorar. Sua própria doença atua como um escudo e impossibilita o pedido de ajuda. Outras pessoas são resistentes ao tratamento.

Há também aqueles que têm ideias equivocadas sobre a terapia psicológica, que não confiam ou inclusive aqueles que não se atrevem a assumir que têm um problema.

Por outro lado, também não podemos ignorar aqueles que carecem de recursos e de apoio social para solicitar ajuda. Viver com um distúrbio psicológico não tratado é algo tristemente comum, e os efeitos dessa realidade podem ser imensos.

“Não quero estar livre dos perigos, só quero coragem para enfrentá-los.”
-Marcel Proust-

Quais são as consequências da depressão não tratada

Quais são as consequências da depressão não tratada?

Muitos de nós sabemos o que é uma depressão. Ou porque a sofremos no passado ou atualmente, ou porque alguém próximo transitou por esse universo tão exaustivo em todos os níveis.

Conhecemos seus efeitos anímicos, o que implica a nível físico e inclusive social. No entanto, o que uma grande parte da população pode não saber é o efeito que ela tem sobre o nosso cérebro.

Um interessante estudo realizado pelo Dr. Victor H. Perry, professor de neuropatologia da Universidade de Southampton, no Reino Unido, falou sobre esse fato tão curioso e importante.

Foi demonstrado que pessoas com transtorno depressivo maior têm um risco maior de arrastar essa condição durante muito tempo. As recaídas são frequentes, de forma que podemos ter pacientes que levam décadas lidando com esse tipo de realidade tão severa.

A depressão não tratada ou a que tem um efeito persistente apresenta um efeito neurodegenerativo. Vejamos mais dados a seguir.

Várias regiões cerebrais reduzem seu tamanho

Um estudo realizado pela Dra. Dilara Yüksel, da Universidade de Istambul, foi capaz de demonstrar a alteração gerada pelo transtorno depressivo maior a nível cerebral ao longo de 3 anos, no caso de o mesmo não ser tratado (ou de não haver reação ao tratamento).

A consequência mais marcante é a redução no tamanho de várias estruturas, tais como:

  • O córtex pré-frontal
  • O tálamo cerebral
  • O hipocampo
  • A amígdala

Essas áreas estão diretamente ligadas à nossa memória, ao processamento de nossas emoções e às funções executivas (resolução de problemas, atenção, planejamento, capacidade de resposta ao entorno, etc.).

A proteína C-reativa e a inflamação

A depressão não tratada tem ainda um efeito biológico: eleva a neuroinflamação. O Dr. Jeff Meyer, do Centro para Saúde Mental da Universidade de Toronto, no Canadá, conduziu uma pesquisa com 80 participantes ao longo de 10 anos.

Metade deles sofria de transtorno depressivo maior, mas nunca havia recebido tratamento. O objetivo era saber que efeito isso tinha no cérebro.

  • Algo que ele pôde observar foi um maior acúmulo da proteína C-reativa nas áreas cerebrais mencionadas acima: córtex pré-frontal, hipocampo, amígdala…
  • Esse tipo de proteína gera um efeito inflamatório, algo que, sem dúvida, abre a possibilidade para experimentar outros tipos de tratamentos farmacológicos para esses casos tão específicos.

Redução do oxigênio que chega ao cérebro

Esses dados são impressionantes. Trabalhos como o realizado pela equipe do Dr. Tomohiko Shibata, na Universidade de Tóquio, mostram que os transtornos do humor, como a depressão não tratada, se traduzem em uma hipóxia leve.

Ou seja, uma condição psicológica como o transtorno depressivo maior mantida ao longo do tempo se traduz em uma menor oxigenação cerebral.

Algo assim gera mais cansaço, desorientação, problemas de concentração, enxaqueca… O efeito é evidente e, por isso, já estão sendo utilizadas câmaras de oxigênio hiperbáricas para alívio dos sintomas.

Homem pensativo olhando pela janela

Como podemos ver, o transtorno depressivo maior pode, sem dúvida, ter um efeito altamente prejudicial para a saúde cerebral.

O próprio impacto da doença acaba alterando a funcionalidade do nosso cérebro, e isso certamente faz com que o desconforto se agrave e sejam acrescentados problemas cognitivos e uma resistência ainda maior aos tratamentos.

No entanto, novas técnicas vêm aparecendo nos últimos anos. Foi observado, por exemplo, que a estimulação magnética transcraniana (não eletroconvulsiva) melhora de maneira significativa o bem-estar desses pacientes.

Assim, os pulsos magnéticos direcionados a essas áreas problemáticas melhoram a bioquímica e a conectividade. Segundo os especialistas, é como “resetar” o cérebro. Aguardemos novos e promissores avanços.

  • Dilara Yüksel, Jennifer. Engelen, Verena. Schuster (2018) Longitudinal brain volume changes in major depressive disorder
    Journal of Neural Transmission. 67 (4), 357–364. DOI https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00702-018-1919-8
  • Perry, Victor (2018) Microglia and major depression. Nature Reviews Neuroscience, vol. 17, número 8 (2016) pp. 497-511 DOI:https://doi.org/10.1016/S2215-0366(18)30087-7
  • Shibata, T., Yamagata, H., Uchida, S., Otsuki, K., Hobara, T., Higuchi, F., … Watanabe, Y. (2013). The alteration of hypoxia inducible factor-1 (HIF-1) and its target genes in mood disorder patients. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry43, 222–229. https://doi.org/10.1016/j.pnpbp.2013.01.003