Desconexão interior: quando descuidamos das nossas emoções

· fevereiro 19, 2017

A desconexão interior é um mecanismo de defesa que muitas pessoas utilizam. É escolher não sentir para não sofrer, é “esfriar” o coração para proteger a alma de novos fracassos, novas decepções e feridas que não cicatrizam. No entanto, com esta estratégia conseguimos apenas nos afastar de uma participação saudável da vida.

Analise por um momento qual é a finalidade das nossas emoções. Cada vez que elas são ativadas no cérebro, provocam reações em todo o nosso corpo. O nojo, por exemplo, nos afasta de algo ou alguém. O carinho, o entusiasmo, a afeição ou a paixão nos conectam e nos injetam uma grande quantidade de dinâmicas com as quais ficamos mais energizados e criativos do que nunca.

“Não amar por medo de sofrer é como não viver por medo de morrer”.
– Ernesto Mallo –

No entanto, quem pensa que as emoções negativas não têm nenhuma finalidade ou que o seu único propósito é nos trazer infelicidade está completamente errado. Na verdade, são elas que permitem que os seres humanos se adaptem, aprendam e progridam ao longo da sua evolução e seu ciclo de vida. O medo ou a angústia são mecanismos de sobrevivência, sinais de alerta que precisamos saber interpretar para traduzi-los em respostas adaptativas que garantam a nossa integridade.

A partir da neurociência, e através de livros interessantes como “Uma nova visão da dor como princípio da emoção homeostática”, chegamos a uma explicação muito reveladora: o homem moderno sente muito medo. Apesar da falta de predadores externos ou riscos físicos concretos, o medo deste mundo moderno é muito mais profundo e complicado.

Falamos sobre os medos interiores, esses demônios pessoais que nos paralisam, tomam o nosso ar e que têm, sem dúvida, múltiplas fontes. Diante da nossa incapacidade de gerenciar esses medos, muitas vezes optamos por utilizar a síndrome da desconexão emocional.

Vamos refletir um pouco sobre este conceito que, talvez para você, seja bem conhecido.

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A síndrome da desconexão interior: um mecanismo de defesa muito comum

Vamos imaginar por um momento uma pessoa fictícia chamada Miguel. Este jovem tem um passado afetivo marcado por muitos fracassos. Seu nível de decepção é tão profundo que deu início a uma nova etapa na sua vida onde reduziu ao mínimo o grau de envolvimento emocional; não quer sofrer novamente ou experimentar mais desilusões, mais decepções.

Seus mecanismos de defesa para atingir esse objetivo estão muito atentos: iniciou uma dissociação complexa entre pensamentos e emoções a ponto de “intelectualizar” qualquer fato. Dessa forma, protege o seu isolamento emocional com pensamentos como este: “Estou feliz sozinho, eu acho que o amor é uma perda de tempo e algo que interfere no meu futuro profissional”.

Miguel desenvolveu o que é conhecido como síndrome da desconexão interior para esquecer as decepções do passado, garantindo assim que não voltarão a se repetir. No entanto, esse comportamento não o ajudará em nada: além de se isolar e não participar da vida de forma saudável, o nosso protagonista está se afundando no mesmo vazio emocional do qual queria se proteger.

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Os efeitos da desconexão emocional

Se para Miguel amar é sofrer, fechar as portas para o amor transfere o mesmo sofrimento para todas as áreas da sua vida. A desconexão emocional é um vírus implacável que avança lentamente conquistando vários territórios, porque a pessoa que a experimenta para de registrar internamente o amor e o carinho como algo significativo na vida.

Aos poucos, a frustração, a amargura cortante, o implacável mau humor e o sofrimento emocional vão se instalando e, mais cedo ou mais tarde, resultam em dor física, insônia, e várias doenças como a depressão.

Viver ligado às nossas emoções: um salva-vidas diário

Falávamos no início do artigo sobre o peso das emoções negativas nas nossas vidas: as definimos como mecanismos de sobrevivência. No entanto, como podemos ver no exemplo anterior, muitos de nós, em vez de procurar compreendê-las, lhes colocamos a âncora dos nossos barcos mentais para submergi-las no vazio da indiferença; do esquecimento.

“Se você não tivesse sofrido, não teria profundidade como ser humano, nem humildade ou compaixão”.
– Eckhart Tolle –

Escolher não sentir para não sofrer não faz nenhum sentido. Não tem sentido porque o ser humano, por mais que nos digam, não é uma entidade racional ou um computador. O ser humano é um conjunto de emoções fabulosas que o guiam e lhe dão a vida para se conectar uns com os outros, para aprender com as decepções, para lamentar as perdas, rir de felicidade e avançar de cabeça erguida para contornar esses perigos com os quais sempre obtemos alguma lição.

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A neurociência nos diz que a desconexão interior que nasce de um conjunto de emoções negativas não é útil ou saudável. As emoções negativas, como medo ou o desgosto, têm um propósito e dão forma ao que os cientistas definem como “impulso homeostático”. O ser humano foi projetado para agir, não para ficar isolado em suas ilhas de insatisfação.

Quando o nosso equilíbrio interior é perturbado, uma boa ideia é reunir forças, ser criativo e corajoso para recuperar esta homeostase interna; dessa forma, alcançaremos a realização emocional ou aquele ponto perfeito onde nada dói e nada falta. Permita-se “sentir” novamente para se conectar primeiro com você mesmo e, em seguida, se atrever a se conectar com as pessoas que o rodeiam.

Para concluir, o nosso cérebro é uma maravilhosa entidade social e emocional que precisa dos outros para estar bem, para estar em paz e ter o equilíbrio necessário. Então, vamos cuidar das nossas emoções.