O desenvolvimento da empatia na infância

outubro 6, 2019
O conceito de empatia está na moda. Mas como desenvolvemos essa potencialidade? Por quais estados passamos até conseguir distinguir o outro como um eu independente, com suas próprias emoções, pensamentos e circunstâncias?

Antes de explicar o desenvolvimento da empatia na infância, vamos situar a origem desse termo.

A origem do conceito “empatia” deriva do que a filosofia da Ilustração escocesa chamou de “simpatia”. David Hume, em seu tratado sobre a natureza humana, e Adam Smith o descrevem como um meio natural de comunicação.

É essa definição que será utilizada como base na neurociência, na psicologia do desenvolvimento e na psicologia social. O desenvolvimento da empatia na infância proporcionou fatos muito curiosos sobre aspectos evolutivos como espécie.

Destaca-se uma ideia: nossa socialização não se deve originalmente à empatia. A biologia da evolução nos mostra que o comportamento altruísta surgiu antes da aquisição dessa potencialidade.

Algumas espécies que carecem de empatia exibem tais comportamentos. Esse é o caso dos insetos sociais, como as abelhas que, morrendo pouco depois de picar seu alvo, se sacrificam para proteger o enxame. O vínculo entre a empatia e o altruísmo não é simples.

O desenvolvimento da empatia na infância

O foco da psicologia do desenvolvimento

O trabalho de Lipps (1903) se centrou na diferença entre os termos simpatia e empatia. Pesquisadores em psicologia do desenvolvimento definiram o conceito de empatia como uma construção multidimensional, levando em consideração o componente cognitivo.

Isso inclui o reconhecimento e a compreensão das emoções dos outros e o componente emocional, que consiste em compartilhar o afeto ou a resposta indireta.

Modelos cognitivos

Por outro lado, desde os anos 1990 a empatia tem sido estudada a partir da inteligência emocional, destacando-se, em primeiro lugar, o modelo de Mayer e Salovey (1997).

A empatia é vista como um elemento que inclui a percepção das emoções dos outros, assim como a compreensão das próprias emoções.

Outro modelo relevante foi o de inteligência socioemocional de Bar-On (1997, 2000). Ele propõe que a empatia é um componente de um fator denominado habilidades interpessoais, e é vista como a capacidade de ser consciente e compreender as emoções, os sentimentos e as ideias dos outros.

Esses dois modelos não são tão integradores quanto os propostos na psicologia do desenvolvimento. Neles, não há espaço para o componente emocional, centrando-se mais no componente cognitivo.

Proposta mais atual

Hoje em dia, Batson e colaboradores propuseram uma distinção entre tomada de perspectiva e empatia. A tomada de perspectiva parece constituir o ponto-chave precursor das reações especificamente empáticas (Batson et al., 1992).

O modelo de Hoffman sobre a empatia na infância

Hoffman, o principal teórico sobre o desenvolvimento da empatia na infância, reconhece duas dimensões a se estudar na empatia: o reconhecimento dos estados internos dos outros e a resposta afetiva indireta.

O modelo de Hoffman explica como começa e se desenvolve a empatia em crianças. Afirma que sua “ideia central é a integração de afeto e cognição, e vai além de uma aproximação do processamento da informação”.

Defende que a empatia se desenvolve de uma maneira similar aos estados de desenvolvimento cognitivo social. Esse processo começa com um sentimento global empático no qual a criança não conta com uma clara distinção entre o eu e o outro, e se confunde sobre a fonte de tal sentimento.

A partir de então, progride por meio de várias fases até a mais avançada, que combina o que obteve em fases prévias.

Nas fases mais avançadas, uma pessoa consegue ter empatia com outra sabendo que são entidades físicas distintas do eu e têm estados internos independentes do próprio indivíduo.

Um nível maduro de empatia possibilita que o indivíduo seja mais influenciado pela condição de vida do outro do que pela situação imediata. Segundo Hoffman, deve haver um paralelismo de sentimentos e afetos com os pensamentos, os princípios morais e as tendências comportamentais.

Etapas do desenvolvimento da empatia na infância

O desenvolvimento da empatia desde a primeira infância dos seres humanos, segundo Hoffman, tem 4 etapas:

Primeira etapa (empatia global)

Compreende o primeiro ano de vida da pessoa e consiste no fato de que a criança ainda não percebe os outros como diferentes de si mesma.

Por isso, a dor que ela percebe no outro se confunde com os próprios sentimentos desagradáveis, como se estivesse acontecendo com ela mesma. Por exemplo, o bebê que, ao ver sua mãe chorando, seca os próprios olhos.

Outro exemplo: uma menina de 11 meses vê outra menina cair e começa a chorar. Ela fica olhando a “vítima” por um instante, depois coloca o polegar na boca e esconde o rosto no colo da mãe. Uma reação habitual de quando ela mesma cai.

Segunda etapa (empatia egocêntrica)

Corresponde ao segundo ano de vida, e a criança tem consciência de que é a outra pessoa que passa pela situação desagradável. No entanto, ela assume que os estados internos vivenciados pelo outro estão sendo sentidos por ela mesma.

Uma criança de 13 meses que vê um adulto triste oferece a ele seu brinquedo preferido. Ou, ainda, uma criança da mesma idade sai correndo buscar a própria mãe para que console a outra criança que estava chorando, mesmo que a mãe desta última esteja presente.

Pai e filho se olhando

Terceira etapa do desenvolvimento da empatia da criança (empatia pelos sentimentos dos outros)

Vai desde o segundo até o terceiro ano. A criança tem consciência de que os sentimentos que experimenta são diferentes dos da outra pessoa, sendo capaz de responder a eles de maneira não egocêntrica.

Nesse momento, ela já está em posição de entender que as intenções e necessidades da outra pessoa diferem das suas e, portanto, as emoções dessa pessoa também podem diferir das próprias. Assim, por exemplo, ela se torna capaz de consolar.

Quarta etapa (empatia pela condição de vida do outro)

Compreende o período final da infância. Os sentimentos dos outros são percebidos não apenas como reações do momento, mas também como expressões de sua experiência de vida geral.

Ou seja, respondem de maneira diferente aos estados de dor transitórios e crônicos, já que levam em consideração a condição geral do outro.

A criança desenvolve a capacidade de ser empática com as condições de vida de uma cultura, de uma classe ou de um grupo de indivíduos. Essa combinação é a forma de empatia mais avançada e pode ser refinada com o desenvolvimento cognitivo da criança.

  • Barnet, M.A. (1992). Empatía y respuestas afines en los niños. En Eisenberg, N. & Strayer, J. (Eds.), La empatía y su desarrollo (pp. 163-180). Bilbao: Desclée de Brouwer.
  • Eisenberg, N. & Strayer, J. (Eds.). (1987). Empathy and its development. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
  • Mayer, J. D. & Salovey, P. (1997). What is Emotional Intelligence? En Salovey, P. & Sluyter, D. (Eds.), Emotional development and emotional intelligence: Educational implications (pp. 3-31). Nueva York: Basic Books.