A desorganização do adolescente é uma guerra perdida?

21 Dezembro, 2020
A desorganização do adolescente é uma sombra que pode estender suas fronteiras além do seu quarto. É apenas uma questão de preguiça ou corresponde a outra coisa? Como combatê-la sem promover o drama em casa? Vamos ver a seguir.

A desorganização do adolescente é motivo de discussões em casa. Muitas vezes, é atribuída à preguiça, desmotivação e até à falta de limpeza e higiene, e pode causar dúvidas nos pais: será que eles deram um mau exemplo? Será que deram uma boa educação? É possível mudar esse comportamento de alguma forma?

O universo adolescente é uma grande caixa de surpresas e incertezas. Algo parecido com abrir uma embalagem que contém várias caixas dentro, uma dentro da outra, sem saber o que esperar da última. Isso ocorre principalmente no que diz respeito aos seus comportamentos, pois nem sempre é possível preveni-los ou até mesmo antecipá-los.

Por esse motivo, muitos pais ficam desorientados com o início de um período maravilhoso, mas bastante polêmico. Portanto, enquanto o adolescente busca um lugar para si no mundo adulto, seus pais procuram ajudá-lo, embora nem sempre caminhem na mesma direção.

Vamos ver a seguir o que acontece quando se trata de lidar com a desorganização do adolescente.

O universo adolescente é uma grande caixa de surpresas

Preguiça, desorganização e odores na vida do adolescente

Durante a adolescência, vários aspectos do comportamento dos jovens desencadeiam críticas e discussões familiares mais amplas. Em particular, o fato de não arrumar e limpar o quarto, a bagunça que deixa aqui e ali por onde passa, o fato de se levantar tarde e também o fato de não colaborar com os pais nos trabalhos domésticos ou em qualquer outra atividade.

Acordar tarde encabeça a lista dos conflitos no relacionamento com os pais. Do ponto de vista adulto, é um sinal de “preguiça”, quase um grito de guerra. Assim, os pais procuram reverter essa suposta “preguiça” e “desleixo” de diferentes maneiras, sem levar em conta que isso vai contra um fenômeno biológico.

A testosterona e o estrogênio influenciam o ritmo circadiano do adolescente, e é isso que causa um despertar tardio, não um ato de rebelião premeditado.

Claro, isso não significa que não existam filhos desleixados, preguiçosos ou pouco responsáveis, mas a base da transformação do sono na adolescência se deve a essa turgidez hormonal, e isso deve ser levado em consideração.

A desorganização no quarto é outro problema que os pais combatem ativamente. Em geral, um menino ou uma menina pode passar meses sem pegar um rolo de papel no chão, um copo usado, um pote de iogurte meio acabado ou um saco de batatas fritas, roupas sujas, uma pilha de papéis do colégio que já não valem nada, um par de meias que já parecem andar sozinhas, entre outras coisas.

Esse transtorno também se estende para além dos limites da sua privacidade: roupas jogadas, louça suja, não cooperar na hora de arrumar ou tirar a mesa, não ajudar a fazer uma compra no supermercado, não só expressar a tão falada “rebelião adolescente”, mas também a desorganização e a sujeira.

Na tentativa de “acabar” com a preguiça, a desorganização, os cheiros ruins e a sujeira, os pais vêm para arrumar, limpar e tentar fazer com que os filhos adquiram o hábito de ser arrumados e limpos, pelo menos no próprio quarto. Muitas vezes fazem isso de forma intrusiva, o que acaba desencadeando os palavrões por parte do adolescente.

Limpeza e espaço pessoal: acesso limitado

Para além das questões de higiene e limpeza, a gestão da posse dos espaços pessoais também faz parte das mudanças na adolescência e, de uma forma ou de outra, também da dinâmica familiar.

Antes, a criança permitia o acesso ao seu quarto. Seus pais, avós, tios, amigos, não precisavam pedir licença para entrar no cômodo e dividi-lo. Além disso, a criança oferecia seus brinquedos, pinturas, lápis, etc.

No entanto, uma vez que a adolescência começa, as regras do jogo mudam. O jovem passa a ter um senso de propriedade sobre seus objetos e espaços, principalmente seu quarto e, portanto, estabelece limites. Assim, ele pode colocar uma placa na sua porta que diga: “bata na porta antes de entrar”, e pode ficar com raiva por alguém ter decidido entrar no seu quarto sem permissão, mesmo que seja apenas por um momento.

Ao mesmo tempo, como a ordem e o capricho não são evidentes no âmbito do adolescente, aumenta a interferência dos pais, na ânsia de colocar ordem e limpar o espaço. Isso causa discussões entre pais e filhos.

Turgência hormonal: marcar fronteiras e definir limites

Todas essas mudanças que vimos acontecem, em parte, devido à turgência hormonal. No adolescente masculino, a chegada da testosterona, associada à vasopressina – hormônio antidiurético – que, como hormônio de sedução e defesa do território, faz com que ele comece a delimitar seus próprios espaços e fazer um epicentro no seu quarto. Este é o seu feudo, sua propriedade.

A vasopressina faz com que os jovens desenvolvam comportamentos que os levam a defender seu lugar a qualquer custo. Ingressa na corrente sanguínea e se expressa por meio de ações como não deixar ninguém entrar no seu quarto, defender sua família, grupo de amigos ou time favorito.

Agora, além da defesa territorial, a busca de espaços íntimos implica que o adolescente comece a se diferenciar do clã familiar, curtindo suas músicas, podcasts, programas de televisão, leituras, etc. Também implica que ele começou a buscar espaço para fantasiar sexualmente e desfrutar do sexo por meio da masturbação.

Hormônios, cheiros e altos e baixos no chuveiro?

O chuveiro nem sempre é o melhor aliado do adolescente. Embora seja verdade que há meninos e meninas que não têm problemas com isso, no caso de outros parece exatamente o contrário. Da mesma forma, há meninos e meninas que têm seu odor corporal “sob controle”, mas outros obviamente não têm.

Assim como os hormônios desempenham seu papel no ritmo circadiano e no comportamento dos adolescentes, eles também influenciam os odores corporais e a relação de amor e ódio com o banho (ou o ritual de higiene pessoal como um todo).

Como resultado da atividade dos andrógenos e estrogênios, os odores ficam exacerbados. Ao mesmo tempo, as glândulas sebáceas operam em sua capacidade total. Assim, o rosto e outras partes do corpo, incluindo o cabelo, ficam mais oleosos do que o normal. A transpiração também adquire um odor ácido e profundo em várias áreas do corpo, incluindo os pés.

De forma abrupta, o corpo do adolescente abandonou o cheiro de bebê e multiplicou seus odores e óleos, por isso o banho se torna uma necessidade urgente, querendo ou não. Antes, na infância, às vezes dava para deixar o banho passar, mas na adolescência isso não é nada recomendado.

Embora se possa inferir que muito do primitivismo dos odores tem a ver com esse momento de despertar sexual adolescente, o resultado dessa revolução hormonal é a produção de odores que identificam o macho da fêmea. Isso é algo muito típico das espécies animais que identificam a presença de animais do sexo oposto através dos odores corporais.

Tolerância, a chave para trazer ordem à desorganização do adolescente

Embora a influência da turgência hormonal em muitas áreas da vida do adolescente deva ser levada em consideração, isso não significa que os pais não devam impor limites aos filhos para serem mais organizados e limpos.

Os pais devem manter uma certa tolerância ao ensinar seus filhos a serem limpos, organizados e assim por diante, sabendo que estão lidando com questões comportamentais e biológicas.

Em geral, os jovens acreditam que sabem tudo e têm tudo sob controle. Por essa razão, ficam extremamente chateados quando falham em alguma coisa, embora nunca o reconheçam na frente dos pais. Porque se há algo que faz parte do quadro da rebeldia adolescente, é a teimosia em admitir os próprios erros.

Nos jogos de interação, as triangulações estão na ordem do dia no mundo adolescente e, como bem sabemos, os triângulos são jogos altamente conflituosos nas relações humanas. Esses triângulos consistem na aliança de dois membros que formam uma coalizão contra um terceiro. Este placar dois-um leva inevitavelmente a brigas, ou pelo menos à desqualificação de um dos membros do triângulo (excluído o terceiro).

Cenários e situações mudam, mas os jogos comunicacionais se repetem.

Resumindo, o mais importante é que os jovens aprendam desde a adolescência. Para isso, o mais importante é que os pais sejam professores, claros, pacientes, tolerantes e afetuosos, apesar dos avisos de “bater antes de entrar”, da desorganização no quarto do adolescente, dos altos e baixos com o chuveiro, da dificuldade para tentar chegar a um acordo e outras questões… porque tudo isso faz parte do processo de amadurecimento.