Desvitimizar a vítima, enfraquecendo a experiência traumática

25 Agosto, 2020
A desvitimização tem um grande poder no processo de reconstrução após uma experiência traumática. Você quer descobrir do que se trata? Não deixe de ler o artigo a seguir.

As vítimas de uma experiência traumática passam ou passaram por um grande sofrimento. Às vezes, com nossas atitudes, contribuímos para sua revitimização, o que gera a permanência de uma grande dor. Por isso, é importante se conscientizar e ajudar essas pessoas a juntar forças e sair da angústia. Desvitimizar a vítima ajuda a potencializar a sua recuperação.

Trata-se, na verdade, de embarcar em um caminho de transformação no qual a experiência traumática não seja o que define a vítima. Conseguir fazer isso é possível, embora não seja um assunto simples. Neste artigo, vamos trazer mais detalhes sobre o tema e mostrar como fazer isso. Além disso, vamos falar sobre resiliência, uma ferramenta poderosa que pode beneficiar as vítimas. Convidamos você a se juntar a nós nesse percurso.

Desvitimizar a vítima: do que se trata?

Uma vítima, de acordo com o dicionário, é “uma pessoa que sofre prejuízos por culpa de outra pessoa ou causa fortuita”. Os danos podem ser físicos, psicológicos, sociais e materiais. Depois do ocorrido, uma ou mais áreas da saúde da pessoa são afetadas. As pessoas podem ser vítimas de diversos problemas: um desastre natural, um estupro, uma agressão psicológica causada por um conflito armado, entre outros.

Todos esses processos podem gerar vítimas, pessoas que, após a experiência dolorosa ou traumática, terão que conviver com algum tipo de dano ou dor. Essa experiência estará associada a vários pensamentos, emoções e comportamentos que podem ser muito desfavoráveis ​​se mantidos ao longo do tempo.

Assim, quando falamos da importância de desvitimizar a vítima, estamos nos referindo a fazer com que ela deixe de ser uma vítima para que possa recuperar o controle sobre a sua vida. Consiste em dotar a vítima de elementos para que ela não fique estagnada na vitimização. Ou seja, não fique posicionada como vítima, nem se aproveite disso ou exagere sua situação. Às vezes, as vítimas constroem todas as suas narrativas a partir da sua condição de vítimas, deixando de se mostrar e de se ver além desse elemento.

Com isso, não queremos dizer que a vítima deseja continuar conscientemente como tal. Às vezes, ela perpetua seu estado por causa do medo associado ao que aconteceu consigo. Às vezes, mesmo pessoas próximas ainda podem vê-la como tal e querem protegê-la.

A desvitimização é um processo que implica um modelo de intervenção adequado para que a vítima consiga transcender sua condição. Para que isso aconteça, o como e o porquê devem ser enfatizados. Além disso, a vítima pode fazer isso trabalhando consigo mesma com ou sem apoio, mas, acima de tudo, focando-se na responsabilidade de cuidar de si mesma.

Como desvitimizar a vítima

Para começar, a vítima deve querer entrar no caminho da desvitimização. Portanto, um dos primeiros passos é reconhecer a autovitimização. Fazer isso vai ajudar a enxergar tudo a partir de outra perspectiva e começar a agir. Vamos conhecer algumas formas:

  • Dizer adeus às máscaras. É necessário encontrar o eu genuíno para implementar uma atitude que vai além da situação que nos levou a ser vítimas.
  • Detectar pensamentos autodestrutivos para detê-los e, assim, sair da estagnação cognitiva.
  • Abandonar a atitude passiva. Isso nos ajuda a agir. A ideia é nos encaminhar a assumir o controle de nossas vidas.

Além disso, podemos começar a enxergar tudo a partir de outra perspectiva. Uma perspectiva mais amável, na qual nos resgatamos e começamos a nos mostrar como realmente somos e a aproveitar tudo o que podemos oferecer aos outros e a nós mesmos. Trata-se de uma reconstrução.

Não consiste em um trabalho simples, mas podemos ir construindo aos poucos. Para isso, teremos que cuidar do nosso mundo afetivo, social, físico e espiritual. Devemos nos lembrar de que a saúde é integral e de que assumir o controle de nossas vidas significa cuidar de nós mesmos.

O poder da resiliência

A resiliência pode ser cultivada. Por meio dela, podemos potencializar o melhor de nós.  Consiste na capacidade de superar os problemas, ou seja, de enfrentá-los. Tem a ver com todas as áreas do nosso desenvolvimento. Portanto, é algo influenciado tanto pela nossa biologia quanto pelo ambiente.

Para fortalecer a resiliência, podemos usar várias estratégias. Por exemplo, através das narrativas e da arte, criamos pontes de comunicação que nos permitem mostrar e compreender o que acontece conosco. Também podemos frequentar uma psicoterapia em grupo e individual, ou até fazer uso da realidade aumentada, como sugere Ibeth Johana Acosta, especialista em psicologia jurídica e forense.

Quando temos essa capacidade de resiliência, somos capazes de enxergar os obstáculos como aprendizagens. Assim, nós nos desvinculamos da posição de vítimas e passamos a construir novas narrativas que acrescentam um sentido mais amável à nossa experiência.

Cyrulnik e seus colegas falam com profundidade sobre esse assunto no livro La resiliencia: desvictimizar a la víctima (A resiliência: desvitimizar a vítima). Eles destacam, entre outros assuntos, que existe uma opção psicológica para a vida nos processos de vitimização e nos convidam a transcender a visão psicopatologizante do sujeito, tanto da perspectiva profissional quanto pessoal.

Em suma, a desvitimização ajuda a vítima a deixar de lado o que a mantém nesta posição. Permite, portanto, um encontro mais autêntico com os outros e consigo mesmo.

Além disso, a resiliência pode promover a construção de novas narrativas que proporcionem um mundo com um significado repleto de aprendizagens e novos panoramas. Isso confere à pessoa um novo significado, que vai além da experiência traumática. Uma ótima maneira de transcender.

Acosta Rubiano, I.J. (2018). La resiliencia, una mirada hacia las víctimas del conflicto armado colombiano.

Cyrulnik, B., Manaciaux, M., Sánchez, E., Colmenares, M.E., Balegno, L., Olaya,, M.M., Cano, F. (2006). Centro Internacional de investigación Clínico-Psicológica (CEIC).

Fernández, A.A. (2017). Víctima y desvictimización. Tesis Doctoral, Universidad Católica San Antonio de Murcia.