“Deveria”, essa palavra que tanto nos prende

“Deveria”, essa palavra que tanto nos prende

4, junho 2016 em Psicologia 1 Compartilhados

“Deveria começar a dieta”, “deveria ligar para minha mãe”, “deveria dizer ao meu chefe que eu mereço um aumento de salário”, “deveria me exercitar como meu médico recomendou”. Uma grande quantidade de “deverias” nos assedia diariamente, nos convertendo em presas encurraladas, sobrevivendo à base de possibilidades que nunca chegam.

Esse “deveria” se transforma em uma espécie de utopia, em sonhos não realizados, em leis inabaláveis e em barreiras que não nos deixam avançar. Sem dúvida, “deveria” é uma palavra que nos acorrenta aos nossos medos, inseguranças e a falta de ação. Por isso, é necessário se livrar desse fardo que chamamos de “deveria”, que tem o poder de tornar qualquer caminho mais tortuoso.

Deveria + (preencha como quiser)

Quantas vezes você já disse a palavra “deveria” (ou teria que) nos últimos dias? Eu suponho que você não chegou a contá-las, mas sem medo de errar, eu apostaria que ela foi dita mais vezes do que o necessário. Sem dúvidas, “deveria” é uma das palavras mais frequentes em nossos diálogos internos.

Essa forma de conjugar o verbo “dever” anda de mãos dadas com as idéias irracionais, essas crenças que nos perturbam e não nos deixam viver satisfatoriamente. Essas crenças estão profundamente enraizadas dentro do nosso interior e governam nossa existência. Mas ao invés de ser um ponto de partida para conseguir algo maior, o que ela faz é precisamente bloquear nossa tendência à ação.

O “deveria” ou o “tenho que” geralmente estão acompanhados do “sempre” ou do “nunca”. Nada é tão nítido e rigoroso. Muitas pessoas empregam essas palavras como uma forma de mentir para si próprio. Pensam que ao se impor uma tarefa condicional vão começar a marcá-las como realizadas em suas agendas, quando na realidade elas estão dando força – com seu discurso interno – à possibilidade de não realizá-las.

O deveria não gera ação, mas sim negação

Quando afirmamos que deveríamos fazer algo específico, na maioria dos casos não conseguimos agir da maneira como queríamos. No lugar disso, tudo acaba ficando no âmbito das promessas não cumpridas, em uma ideia dita aleatoriamente ou inclusive numa maneira inconsciente de nos convencer de que mudaremos.

Por exemplo, ao dizer “eu deveria emagrecer porque o médico disse que meus últimos exames não estão muito bons” você está pensando no problema. Muito bem. Mas não na solução. Pode ser que a frase continue com um “deveria fazer dieta” ou “deveria ir para a academia”. Ambas são supostas ações com mais probabilidade de serem rejeitadas do que aceitas.

Dedos-apontando

Ao invés de incorporar tantas variáveis ao seu futuro, você poderia dizer: “começarei a dieta” ou “me matricularei na academia”. Talvez dessa maneira seja mais fácil atingir seus objetivos. No entanto, isso ainda não é o ideal. O melhor a fazer nesses tipos de situações é dar o primeiro passo: tirar da nossa geladeira tudo aquilo que não está na nossa dieta ou colocar o tênis e começar a se exercitar.

Elimine os “deveria” e viva mais leve

O verbo “dever” (em todos os seus tempos) se refere a uma obrigação. Um conceito que podemos ou não compreender, mas do qual é impossível escapar. Se nos vemos forçados a fazer algo que não entendemos e aprendemos de memória esses mandatos superiores, será cada vez mais difícil para nós tomar a decisão de colocá-los em prática.

Voltando ao exemplo da pessoa que vai ao médico e ele recomenda uma série de medidas para perder peso, e o paciente questiona sua efetividade. Ao não entender a lógica do que o especialista propôs, você não pode tomar conta da situação. Talvez se o médico lhe explicasse com detalhes a ciência que existe por trás da relação entre esporte e saúde, o paciente diria “devo” ao invés de “deveria…, mas não consigo encontrar uma razão para fazê-lo além do próprio dever imposto”.

As pressões e os pensamentos irracionais que começam com a palavra “deveria” se instalam em nossas mentes desde cedo. “Tenho que tirar boas notas”. “Tenho que obedecer aos meus pais e professores”. “Tenho que me formar”. “Tenho que formar uma família”… e um enorme et cetera.

Por que “deveria” fazer todas essas coisas? Porque assim manda a cultura dominante, a sociedade e os seus costumes? Isso não é uma resposta satisfatória. Que tal se começássemos a entender que tirar boas notas, respeitar os mais velhos e escolher um bom curso universitário ou se casar não “deveriam” se tornar fardos nas nossas costas?

Quando o  “deveria” nos faz sentir medo e culpa

As normas sociais foram instauradas há muito tempo e por isso a maioria das pessoas nunca as questiona. Esses “deveria” que nos impõem por uma regra moral ou cultural não foram pensados para nos irritar ou nos prejudicar, mas estão aí e muitas vezes interferem na possibilidade de tomar nossas próprias decisões.

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O que acontece se não cumprimos com os “deveria” que nos foram impostos desde que nascemos? Temos medo, principalmente quando a realização de uma premissa antiga nos priva da felicidade. Os “deveria” que não cumprimos nos fazem sentir culpados.  Você sabia que esse sentimento está presente apenas nas pessoas e nos animais de estimação, e nesses últimos apenas porque absorveram dos seres humanos?

Se fizermos os nossos deveres estaremos livres do peso, mas não da culpa. O pensamento que afirma que “quando derrubamos um mandamento social estamos prejudicando a própria sociedade” em muitas ocasiões está errado. Não deixamos de ser boas pessoas por não termos curso superior. Não nos convertemos em uma ameaça para a comunidade por não nos casarmos.

Tenha em mente que certas ações irão fazê-lo feliz mesmo que não carreguem o peso dos “deveria”. Coloque as mãos à obra e passe do pensamento para a ação. As idéias irracionais ou herdadas continuamente são o maior obstáculo para viver plenamente e tudo porque, sem querer, continuamos alimentando sua existência.

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