Diga-me do que você se vangloria e eu direi o que te falta

A seguir analisaremos o significado dessa frase a partir de um ponto de vista psicológico.
Diga-me do que você se vangloria e eu direi o que te falta

Última atualização: 20 janeiro, 2022

O ditado “diga-me do que você se vangloria e eu direi o que te falta” é ideal para sintetizar aqueles casos em que uma pessoa atribui uma virtude a si mesma, mas não demora muito para mostrar sinais que contradizem o que ela proclama. Nesse caso, o que é “promovido” é algum traço ou qualidade que a pessoa atribui a si mesma.

Nem sempre que uma pessoa fala com orgulho sobre o que é ou fez é portadora dessa característica ou título de fato. O que revela a existência desse mecanismo de se vangloriar precisamente o que falta é o fato de haver um “plus” nessa atitude. Essas qualidades são enfatizadas demais e com muita frequência, sendo mantidas como uma bandeira. Existe um exagero notório.

“Todo homem tem três variações de caráter: o que ele realmente tem, o que aparenta ter e o que ele pensa que tem”.

-Alphonse Karr-

Na verdade, quem está imerso nesse mecanismo não tem consciência disso; acontece justamente o oposto. A pessoa realmente acredita que promover certas ideias ou valores usando a si mesma como modelo é uma ação justificada. No fundo, a intenção dela não é exatamente convencer os outros, mas convencer a si mesma de que isso é verdade. O tempo todo elas tentam provar o que estão dizendo com ações e argumentos concretos.

Nos vangloriamos do que queremos ser, mas não somos

O que parece ser um charlatão que prega mais do que faz é, na verdade, uma pessoa presa na estrutura de um mecanismo de defesa. Esse mecanismo é conhecido como “treinamento reativo” e consiste em manter um comportamento para evitar um desejo reprimido. Em outras palavras, a pessoa deseja algo que lhe parece questionável, e para se defender desse impulso inconsciente ela começa a agir se forçando a fazer o contrário.

Mulher com nuvens.

Exemplos não faltam. Este é o caso das pessoas que querem comer até se fartar mas acreditam que este desejo é condenável, pois elas podem ganhar peso e sofrer rejeição. Então, elas fazem dietas de forma fanática e e repudiam o fast food. Ou pessoas que têm desejos sexuais muito intensos, mas os consideram pecaminosos e por isso mesmo armam uma cruzada em nome da castidade.

Muito mais comum é o caso de pessoas que se desvelam para prestar atenção a alguém que, no fundo, odeiam ou desprezam. Não é que a pessoa esteja mentindo ou fingindo deliberadamente, mas sim que ela é incapaz de reconhecer os próprios sentimentos devido à censura moral autoimposta.

O treinamento reativo pode ser direcionado a um aspecto específico, como organização ou higiene, por exemplo. Mas esse também pode se tornar um padrão de comportamento que se instala na estrutura da personalidade. Nesse caso, existe uma espécie de “personalidade falsa” na qual praticamente todas as ações do indivíduo visam manter essa máscara. Esse é o tipo de pessoa que escuta a frase “você se vangloria do que não é”.

Você se vangloria para se defender de si mesmo

O que impede a expressão do desejo é uma consciência moral extremamente rígida, ou uma regra externa que a pessoa teme transgredir. É por isso que ela se vangloria do que não é, sem que seja realmente essa a intenção dela. O que nos permite identificar que um mecanismo de treinamento reativo foi colocado em prática é a ênfase ou o exagero nas palavras ou ações. O “não” muito forte, ou o “sim” enfatizado demais são sinais de que existe um desejo oculto que orienta para o contrário.

Ilustração de um homem com flores no rosto.

Atualmente as redes sociais são um verdadeiro catálogo desse mecanismo. Às vezes parece que elas foram concebidas precisamente para que cada pessoa prove ser “algo” que provavelmente não é. Elas exibem fotos sorridentes, mesmo que não estejam tão felizes quanto ficou retratado. Elas se vangloriam de viagens, novos empregos, conquistas, mas existe algo estranho quando é necessário que os outros reconheçam isso.

Os treinamentos reativos podem levar a uma personalidade obsessiva. Você se vangloria de algo que não é, ou de pensar algo que você não pensa e, para ser capaz de sustentar esse autoengano, você tem que estar alerta o tempo todo. Monitorar-se constantemente e provar a todo momento que você não é digno de qualquer suspeita. A situação pode se tornar opressora, porque o desejo reprimido voltará repetidas vezes e você se sentirá assediado por ele.

Quem você é realmente?

Nessa ânsia de ter sob controle o desejo inconsciente que não quer aceitar, você pode sentir muita angústia. Isso pode gerar uma enorme tensão interior, entre o que você se força a expressar e o enorme esforço que precisa fazer para “se manter sob controle”. Pergunte a si mesmo: quem sou eu realmente e o que quero da vida? Às vezes tentamos fingir uma vida cheia de falsidades para nos sentirmos importantes e, assim, preencher um vazio emocional interior. Mas por que não vamos atrás do que queremos? Talvez por medo, modéstia ou pura preguiça. É essencial sentar e repensar o que queremos.

Se não formos capazes de nos conectar conosco mesmos, a nossa força pode diminuir e podemos desenvolver comportamentos compulsivos. Portanto, não devemos ignorar os nossos desejos, independentemente de quais sejam eles. Pense que esses desejos só se tornam inofensivos quando você os reconhece; quando decide, conscientemente, se vai colocá-los em prática ou não.

Fazer um exercício sincero de introspecção sem preconceitos ajudará a nos conectarmos com o nosso eu interior. Dessa forma, aos poucos vamos nos conhecendo e preenchendo o vazio que provoca fingir ser algo que não somos. Quando o nosso comportamento é consistente com o que pensamos, não precisamos nos vangloriar de nada para chamar a atenção. O “diga-me do que você se vangloria e eu direi o que te falta” terá chegado ao fim, e seremos pessoas inteiras.

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