Três grandes dilemas morais

dezembro 20, 2019
Os dilemas morais não são apenas um assunto filosófico. Eles têm aplicação na vida diária e nos grandes acontecimentos da humanidade, como as guerras, as catástrofes, e até a ética médica.

Os dilemas morais são situações paradoxais nas quais os valores são colocados em contradição. Nesses cenários, não é possível agir de modo a não causar nenhum dano. O que é preciso avaliar é qual das opções causa o menor dano e/ou qual das alternativas permite manter uma coerência ética maior.

Um dos dilemas morais mais conhecidos é o “dilema do trem”. Nele, há um trem que corre a toda velocidade. Em seu trajeto, ele vai atropelar cinco pessoas que estão amarradas no trilho do trem. No entanto, é possível acionar um botão para que o trem mude o seu trajeto, com a questão de que nesse novo caminho há apenas uma pessoa amarrada ao trilho.

Nesse caso, o dilema está em decidir o que fazer. O debate reside na seguinte dúvida: é moralmente mais válido deixar que o trem siga seu curso e mate cinco pessoas, ou deliberadamente decidir que o sacrificado deve ser o que está no outro trilho? Se as coisas seguissem o curso normal, esta pessoa não morreria. Quem aciona o botão faz com que ela perca a vida.

A partir dessa situação hipotética, surgiram vários outros dilemas morais. Os mais conhecidos são o homem do telhado, a rua em círculo e o homem no jardim. Vejamos o que cada um deles envolve a seguir.

“Não existe coragem sem dilema nem caráter que não seja forjado pelas escolhas, mais ainda do que pelas vitórias”.
-Muriel Barbery-

Mulher pensativa encostada em janela

1. O homem do telhado

O homem do telhado é um dos dilemas morais derivados do caso do trem. A situação é similar: há um trem que avança na direção de cinco pessoas que estão amarradas no trilho. No entanto, nesse caso a opção que existe é lançar um peso significativo na frente do trem, para detê-lo antes que ele alcance os amarrados.

A única opção que existe é um homem obeso que está ao lado do trilho. Se ele fosse jogado na direção do trem, poderia detê-lo e impedir que as outras cinco pessoas morressem. O que fazer? A diferença nesse caso é que é preciso realizar uma tarefa ativa para acabar deliberadamente com a vida de uma pessoa.

A ética utilitarista destaca que o importante é o número de vítimas. Assim, vale a pena sacrificar uma vida para salvar cinco. A ética humanista destaca algo diferente. O homem que está ao lado do trilho está em pleno uso dos seus direitos. Um deles é o direito à vida e, portanto, a não servir de meio para salvar os outros.

2. A rua em círculo, um dos dilemas morais

A rua em círculo é uma variante similar à do dilema do trem. O que acontece nesse caso é que há uma rua em círculo, ou seja, uma rua que faz um trajeto circular e volta ao ponto de partida.

Nesse caso há cinco pessoas amarradas na rua. Também é possível acionar o trem para que faça outro trajeto. Nele, há um homem amarrado. Ele é gordo e poderia deter o trem, antes que ele fizesse o trajeto circular e alcançasse as outras cinco vítimas. O que fazer?

O dilema clássico do trem expõe que há apenas dois caminhos: uma via ou outra. No caso do trajeto circular, o dilema tem um modificação sutil, que implica uma decisão mais calculada: um homem é usado deliberadamente – como obstáculo – como meio para salvar as outras cinco pessoas.

Nos trilhos do trem

3. O homem no jardim

O terceiro dos dilemas morais relacionados com o dilema do trem é o homem no jardim. Nesse caso, a situação é igual à original. A diferença está no fato de que a única forma de desviar o trem é fazendo com que ele descarrile. Isso faria com que o trem caísse de um precipício em cima de um jardim, onde um homem descansa em sua rede.

Isso quer dizer que, se a pessoa decidir ativar o desvio, quem vai acabar morrendo é uma pessoa que não tem nada a ver com a situação e que seria vítima de uma decisão alheia.

No fundo de todos esses dilemas está a contradição entre fazer o bem a um maior número de pessoas ou empreender uma ação que vai contra os direitos essenciais.

Um estudo realizado por Guy Kahane, da Universidade de Oxford (Reino Unido), destaca que as pessoas que não veem qualquer problema em machucar gravemente alguém para salvar outras pessoas mostram ter traços antissociais e, em sua vida diária, são menos escrupulosos para fazer mal aos demais, mesmo que esse mal não seja útil.

Xibeca, G. (1995). Los dilemas morales. Un método para la educación en valores. Orientación, tutoría y psicopedagogía, 91.