A distância patológica entre o que sentimos e o que mostramos nas redes sociais

As redes sociais são uma forma de interação, uma vitrine virtual que parece ter vindo para ficar. Assim, queremos nos questionar: quando e como elas são capazes de gerar ansiedade?
A distância patológica entre o que sentimos e o que mostramos nas redes sociais

Última atualização: 12 Dezembro, 2020

As redes sociais podem mostrar uma distância patológica entre o que sentimos e o que mostramos ao mundo, aumentando a nossa ansiedade. Por meio delas, temos a possibilidade de obter reforços quase instantâneos. Uma dose rápida, mas eficaz, de dopamina. Como acontece com qualquer prazer curto, deve ser repetido com frequência para ser satisfatório. E isso é bastante problemático.

As redes sociais nos igualam quando se trata de compartilhar conteúdo. Em contrapartida, temos que suportar uma pressão invisível para que ele seja inovador e interessante. Paralelamente a isso, nossa motivação para agradar nos faz evitar mostrar nosso lado menos gentil ou enfadonho. Assim, por um lado, temos um público imaginário ao qual queremos agradar e, por outro, uma realidade que precisa ser fabricada.

Isso deveria nos fazer pensar… como essa dinâmica nos incita a inventar a realidade virtual? Em que medida a diferença de valência afetiva entre o que sentimos e o que mostramos pode nos afetar?

Amigas nas redes sociais

Um perigo real

No mundo de hoje, muitos de nós usamos plataformas de redes sociais como Facebook, Twitter, Snapchat, YouTube, Instagram ou Tik Tok para nos conectarmos. Embora cada uma tenha seus benefícios, é importante lembrar que as redes sociais nunca podem ser uma substituição para a conexão humana do mundo real.

O contato pessoal é necessário para liberar os hormônios que aliviam o estresse e fazem as pessoas se sentirem mais felizes, mais saudáveis e mais positivas. Passar muito tempo interagindo nas redes sociais pode agravar os problemas de saúde mental, como a ansiedade e a depressão.

As redes sociais podem promover experiências negativas, como:

  • Insuficiência em relação à sua vida ou aparência: mesmo sabendo que as imagens que você está vendo nas redes sociais são manipuladas, elas podem fazer com que você sinta insegurança.
  • Medo de estar perdendo algo (FOMO): Embora o FOMO exista há muito mais tempo do que as redes sociais, sites como o Facebook e o Instagram parecem exacerbar a sensação de que as outras pessoas estão se divertindo mais ou vivendo melhor do que você. A ideia de que você está perdendo certas coisas pode afetar a sua autoestima, causar ansiedade e aumentar ainda mais o uso das redes sociais.
  • O isolamento: um estudo da Universidade da Pensilvânia descobriu que o uso elevado do Facebook, do Snapchat e do Instagram aumenta a sensação de solidão. Pelo contrário, o estudo constatou que reduzir seu uso pode fazer com que nos sintamos menos sós e isolados, melhorando a sensação de bem-estar geral.
  • Depressão e ansiedade: nós precisamos do contato cara a cara. Nada reduz o estresse e melhora nosso humor como o contato cara a cara com alguém que se preocupa conosco.
  • Cyberbullying: cerca de 10% dos adolescentes relatam ter sido intimidados nas redes sociais, e um número muito maior de usuários estão sujeitos a comentários ofensivos.
  • Autoabsorção: compartilhar selfies ou pensamentos íntimos nas redes sociais pode criar um egocentrismo pouco saudável e fazer com que você se distancie das conexões da vida real.

A distância patológica entre o que sentimos e o que mostramos nas redes sociais pode causar ansiedade

O uso de redes sociais pode ser problemático quando está diretamente associado a uma diminuição na qualidade ou frequência das interações cara a cara, quando distrai você do trabalho ou, ainda, quando faz você se sentir triste ou com inveja. Da mesma forma, se você usa as redes sociais para deixar os outros com inveja ou chateados, pode ser o momento de reconsiderar suas práticas.

Um dos fatores mais preocupantes não é a frequência com que postamos conteúdo, mas a honestidade com a qual o compartilhamos. Porque sim, publicar conteúdos em que parecemos felizes enquanto, na verdade, nos sentimos tristes pode aumentar nossa sensação de ansiedade.

Somos obrigados a publicar nas redes sociais?

A maioria de nós conta com um pequeno público fiel em nossas redes sociais. Certamente, o número de pessoas que temos adicionadas com as quais costumamos ter uma relação mais íntima não chega a 10%. Além disso, as redes sociais não costumam nos fornecer sustento ou dinheiro se não formos “influenciadores".

No máximo, teremos a satisfação de poder compartilhar informações e conteúdos sobre alguns temas. Em muitas ocasiões, o impacto que nosso conteúdo tem nas redes sociais dependerá mais da atitude dos nossos amigos ou seguidores em relação a nós do que da própria mensagem ou da forma como ela é expressa.

Em suma, as redes sociais são uma vitrine para “mostrar" nossa melhor face profissional ou pessoal. No entanto, raramente são uma fonte de bem-estar a longo prazo. Além disso, às vezes podemos sentir a pressão de ter que publicar algum conteúdo, como se existisse um ser invisível que devêssemos alimentar. Essa pressão pode ser muito problemática quando gera ansiedade.

Curtidas nas redes sociais

O dia do casamento

Analisemos o exemplo de uma pessoa que está ansiosa pelo dia do seu casamento. Ela também está animada por poder compartilhar as fotos desse dia. Contudo, quando chega o dia tão esperado, os contratempos se multiplicam. Está muito calor, a pessoa discute com o parceiro durante a comemoração e também está com uma dor terrível nas costas.

Sem dúvidas, no fundo ela está se sentindo feliz, mas aquele dia não está sendo como ela esperava. Não está com vontade de compartilhar nenhuma foto nas redes sociais, mas sente que, se não fizer isso logo, as pessoas vão começar a perguntar e ela vai se sentir desconfortável. Por fim, a pessoa publica uma foto do dia para “se livrar desses pensamentos". Parece uma situação muito hipotética, mas na verdade acontece de muitas maneiras diferentes todos os dias. Publicamos uma imagem que tenta projetar um estado emocional em que não estamos.

É esse o tipo de vida que queremos levar? Porque podemos causar rejeição e até desconfiança se nos mostrarmos nas redes como algo que está longe do nosso eu real. Nem mesmo os chamados “influenciadores" conseguem se livrar dessa apreensão entre as pessoas ao seu redor, mesmo que justifiquem isso como “uma forma de ganhar a vida".

Em suma, mostrar uma diferença entre o que realmente sentimos e o que publicamos pode causar desconforto psicológico e uma certa desconfiança em nosso meio. Além disso, pode provocar o desenvolvimento de uma determinada patologia em nossa afetividade, cognição e comportamento que pode ter consequências a longo prazo.

Não se trata de sair das redes sociais. Contudo, sua utilização deve nos fazer refletir sobre suas contribuições, sobre quanto tempo gastamos nelas e se, em vez de bem-estar, isso pode estar nos causando problemas de ansiedade e autoconceito. Considerando que as redes vieram para ficar, não se esqueça de que aprender com elas e com você mesmo é um processo contínuo. Você é livre para parar de mostrar o que realmente não te representa.

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