Dormir até o meio-dia: por que alguns adolescentes dormem tanto?

12 Dezembro, 2020
Assim como há quem não consiga evitar se levantar cedo pela manhã, há quem durma bastante principalmente durante o dia, especialmente na adolescência. Por que isso acontece?

Para muitos pais, dormir até o meio-dia é sinônimo de preguiça, de não ter aspirações na vida ou até mesmo de jogar a própria vida fora. Muitas vezes, isso está associado a outros comportamentos que os jovens tendem a ter, como não arrumar o próprio quarto ou guardar as suas coisas, por exemplo.

A preguiça é algo que causa raiva e irritação nos pais, ainda mais quando veem os seus filhos resmungando quando os chamam para se levantarem antes do meio-dia. A contragosto, desgrenhados e com marcas de travesseiro no rosto, desajeitados e mal-humorados, eles se sentam à mesa para fazer as refeições em família nos fins de semana.

O que muitos pais não sabem é que o fato de dormir mais do que o normal é absolutamente esperado em adolescentes; faz parte de uma série de desequilíbrios que estão escritos nos manuais que descrevem esse ciclo evolutivo. Vejamos mais sobre isso a seguir.

Jovem dormindo até tarde

Os hormônios e a tecnologia desempenham o seu papel no sono adolescente

A turgidez hormonal em adolescentes do sexo masculino, entre todas as mudanças que desencadeia, também provoca alterações no ciclo do sono. O seu cérebro é reprogramado por volta dos 11 ou 12 anos e são os receptores de testosterona que alteram o seu ritmo circadiano. Isso faz com que o adolescente vá para a cama mais tarde e se levante mais tarde também. Assim, dormir até meio-dia ou mais não é apenas uma questão de gosto ou rebeldia, mas da atividade hormonal que o seu corpo realiza.

Além dos hormônios, um detalhe que contribui para essa alteração do ritmo circadiano é o uso e abuso da tecnologia. Já existem inúmeros estudos sobre o uso da tecnologia cibernética (tanto no computador quanto nos videogames) com a qual os adolescentes passam horas e horas, e são conhecidas as respectivas consequências, que vão desde a dependência até os transtornos de déficit de atenção.

Frequentemente, depois da escola e do período de dever de casa, as crianças começam a sua jornada cibernética e fazem uma vigília até tarde da noite. Se considerarmos as escolas com aulas matinais que exigem acordar muito cedo, o resultado implica poucas horas de sono (cerca de 6 horas), quando o desenvolvimento do adolescente requer pelo menos 10 horas de descanso.

Esse ritmo sugere que, se os adolescentes tendem a acordar mais tarde (e não por causa do uso do computador, mas por causa de sua cronobiologia), as escolas deveriam começar as suas aulas mais tarde para tornar o aprendizado mais eficaz.

Os jogos têm dinamismo, ação, cores, competição, rivalidade e os estimulam a seguir cada vez mais até derrotar o adversário ou obter algum outro tipo de conquista. Ou seja: a tecnologia lúdica aumenta a adrenalina, o cortisol e a dopamina, e ambas introduzem uma dose de dinamismo, poder e prazer.

A adrenalina acelera os reflexos e permite reações rápidas, o cortisol mantém a vigília expectante e ativa, enquanto a dopamina encontra o prazer da recompensa.

A orientação dos pais é muito importante

Tudo isso acontece sob a luz artificial, e isso diminui a quantidade de melatonina secretada (essencial para induzir o sono), por isso os adolescentes acabam não sentindo necessidade de ir dormir quando deveriam, mas sim muito mais tarde.

Além de tudo isso, outro fator importante deve ser levado em consideração: o adolescente, independentemente do sexo, não tem controle sobre os seus próprios limites. Portanto, é comum que eles não saibam quando é conveniente parar de jogar ou navegar na Internet para descansar.

São os pais que devem lhes dar as orientações de coerência a este respeito e também indicar-lhes até que ponto é possível o uso saudável de videogames, computadores, etc.

Assim como a testosterona nos meninos, o estrogênio nas meninas revoluciona as suas emoções, cognições e corpos de várias maneiras, incluindo o sono. Os receptores de estrogênio são ativados nas células cerebrais, agindo no núcleo supraquiasmático, e são eles que organizam os ritmos dos hormônios, humor, sono, temperatura.

Portanto, o estrogênio não apenas influencia as células cerebrais que controlam a respiração, mas também ativa o ritmo do sono feminino e o hormônio do crescimento. Entre as idades de 8 e 10 anos, as meninas começam a mudar os seus padrões de sono.

O regulador do sono e a glândula pineal

O núcleo supraquiasmático é um centro que regula o ritmo circadiano por meio da melatonina, através da glândula pineal, que é um grupo de neurônios do hipotálamo medial em sua parte central.

O núcleo supraquiasmático forma o relógio interno ou endógeno que recebe informações sobre a luz ambiente através dos olhos, especificamente da retina. Lembremos que a retina contém os chamados fotorreceptores que permitem distinguir formas e cores, mas também células ganglionares (que possuem um pigmento denominado melanopsina) que transportam informações ao núcleo supraquiasmático através do trato retino-hipotalâmico.

O núcleo supraquiasmático recebe essa informação sobre o ciclo claro-escuro externo, a interpreta e a envia ao gânglio cervical superior. De lá, o sinal é redirecionado para a glândula pineal, que secreta o hormônio melatonina como resposta. A secreção de melatonina é baixa durante o dia e aumenta à noite.

A serotonina é o hormônio precursor da melatonina, mas se a serotonina é um neuro-hormônio da tranquilidade e do bem-estar, quanto mais relaxados e de bom humor estivermos no início da noite, mais bem-vinda será a produção de melatonina.

Por outro lado, se estamos em situação de estresse emocional ou problemática, o cortisol é o hormônio predominante. Ele, ao contrário do que a serotonina faz, atrasa o aparecimento da melatonina e dificulta o sono. Por isso, os adolescentes se entusiasmam com os videogames e é o cortisol que predomina e atrapalha a chegada do sono.

Adolescente jogando videogame

As ondas cerebrais e o sono entre a infância e a adolescência

Uma pesquisa demonstrou que, aos 9 anos, os cérebros dos meninos e meninas têm as mesmas ondas cerebrais durante o sono. No entanto, aos 12 anos as meninas mudam as suas ondas cerebrais em 37% durante o sono em comparação com os meninos (Brizendine. 2006).

Os cientistas concluíram que o cérebro das meninas evolui mais rápido do que o dos meninos. Campbell observa que a redução de sinapses extras no cérebro das meninas começa mais cedo do que nos meninos. Isso faz com que os circuitos cerebrais amadureçam mais rapidamente.

Outro detalhe, que não é menor, é o que os especialistas em sono chamam de ritmos circadianos, e tem a ver com a regulação que o cortisol exerce no corpo.

  • Existem pessoas cotovias, cujo ritmo é diurno, e por isso se destacam por se levantarem naturalmente cedo. Cotovias são o tipo de pessoa que tem dificuldade em ficar acordadas até tarde se forem a alguma festa à noite.
  • Existem as pessoas corujas, que podem dormir até o meio-dia ou mais e renascem à noite, quando podem passar longas horas acordadas.

Dormir até o meio-dia nem sempre é um comportamento preguiçoso

Levando em consideração o exposto, podemos perceber que nem sempre se deve presumir que os adolescentes são “preguiçosos” por dormirem até o meio-dia ou mais. Existem questões de natureza biológica que não podem ser evitadas, porque estaríamos indo contra a nossa natureza.

Agora, além das cotovias e corujas, existem filhos e filhas indiferentes, preguiçosos e irresponsáveis. Portanto, nem tudo pode ser sustentado pelas mudanças hormonais, pelo ritmo da coruja, ou pelo uso de tecnologia até tarde da noite.

É essencial analisar cada situação particular. Dependendo do que seja, os pais devem ou não aprender a estabelecer limites, controlar e regular o uso da tecnologia pelos filhos.

Dormir até meio-dia não é um crime adolescente, muito menos se isso ocorrer ocasionalmente ou com pouca frequência. Obviamente, se ocorrer de forma contínua, você deve verificar a causa e tomar as medidas adequadas para resolvê-la.