Driblando o Destino: a luta pela integração

· abril 6, 2018

Vivemos em um mundo cada vez mais disperso, onde as diferenças culturais estão embaçadas e, como consequência, temos que fazer um esforço para conciliar as pequenas diferenças que podem surgir, buscar um equilíbrio e aprendizagem mútua entre as culturas. ‘Driblando o Destino’ é um exemplo dessa integração de culturas e como nossas sociedades estão mudando com o passar do tempo.

O filme britânico foi lançado em 2002 e dirigido por Gurinder Chadha, uma diretora britânica de origem indiana. Ao longo de sua carreira, Gurinder Chadha tentou captar a diversidade cultural existente na Europa em seus filmes e documentários. A maioria, inspirada por sua própria experiência, tenta conciliar o que significa ser britânico e indiano ao mesmo tempo, como no filme em questão.

Até pouco tempo atrás, parecia que o cinema, especialmente a direção, era destinado exclusivamente a homens brancos; até hoje, não há muitas mulheres neste mundo. Gurinder Chadha é uma mulher e, além disso, indiana e britânica ao mesmo tempo. Driblando o destino não é apenas uma história de contrastes e reconciliação entre culturas, mas também é uma história de mulheres em um mundo onde a presença delas é administrado em segundo plano: o futebol.

Driblando o destino não é uma história complicada, é simples e muito divertida. Possui ingredientes típicos da comédia romântica, ri dos estereótipos e, ao mesmo tempo, apresenta um retrato das novas gerações cuja cultura não é uma, mas uma fusão de muitas.

“Se, no momento, ela gosta mais de jogar futebol do que perseguir meninos, estou feliz por ela”.
-Pai de Jules-

Driblando o Destino: dois mundos

Driblando o destino se passa em Londres no início dos anos 2000, altura em que o jogador de futebol David Beckham era uma grande referência. A cidade de Londres não é apenas o lar dos britânicos, mas é um verdadeiro centro multicultural: reúne inúmeras pessoas de origens e realidades diferentes. O filme se concentra em duas jovens amantes do futebol cuja origem é muito diferente: Jesminder, conhecida como Jess, é uma menina de origem sikh, e Jules é uma jovem britânica.

  • A família de Jess: é uma família tradicional sikh, composta por Jess, seus pais e sua irmã mais velha. É uma família que é muito fiel à sua cultura e seus valores, e tentará que sua filha siga os mesmos passos que eles, mesmo que isso não seja o que Jess quer.
  • A família de Jules: é uma família totalmente ocidental, muito mais individualista, composta apenas por Jules e seus pais. Apesar disso, veremos que os valores de seus pais, especialmente os de sua mãe, não se encaixam muito com os de Jules.
Cena de 'Driblando o Destino'

Essas diferenças culturais darão lugar a situações engraçadas, especialmente por parte da mãe de Jules, que acredita ser uma mulher aberta e moderna, mas tenta conversar com Jess e apela firmemente a estereótipos. Jess e Jules terão que enfrentar seu entorno e suas famílias para alcançar seus sonhos e poderem ser jogadoras profissionais. Finalmente, o futebol unirá essas duas jovens e conciliará ambas as culturas.

“Quando você vai perceber que você uma filha com seios e não uma criança? Nenhum garoto vai querer sair com uma garota que tem mais músculos do que ele “.
– Mãe de Jules-

Jess vai encontrar muitos obstáculos quando se trata de se comunicar com sua família e dizer-lhes a verdade, pois todos esperam que ela vá para a universidade e se torne uma grande advogada. Sua família tem lutado muito para tentar dar a suas filhas algum estudo, mas eles não levam em conta que, talvez, essa não seja a coisa mais importante para Jess. Seus pais têm muitas expectativas e tendem a rejeitar qualquer mudança que os coloque em perigo.

“O fato dela usar roupa esportiva e jogar futebol não significa que ela é lésbica”.
-Jules-

Cena de 'Driblando o Destino'

A questão do casamento e da sexualidade será importante em ambas as famílias. A mãe de Jules fará todo o possível para tornar sua filha feminina; ela está preocupada com sua orientação sexual porque, apesar da imagem de uma mulher “moderna e tolerante”, ela vê a homossexualidade como algo que não é errado, mas que não deve acontecer em sua família.

A família de Jess, por sua vez, quer que sua filha continue com a tradição e se case com um jovem indiano como sua irmã. Veremos que o papel das mulheres e a idéia de casamento arranjado têm valores diferentes em sua cultura. Mesmo assim, ambas as jovens mostram uma mentalidade diferente de seus pais, porque eles tiveram que vivenciar diferentes culturas e maneiras de pensar.

“Na sua idade eu já estava casada, e você nem quer aprender a cozinhar”.
– Mãe de Jess-

Futebol como um contexto de união

O esporte deve servir para deixar as diferenças e unir as pessoas, embora, infelizmente, muitas vezes não seja assim. Em Driblando o Destino, veremos que será o elo de união entre Jules e Jess, mas a verdade é que também veremos um lado menos amável dessa questão.

O futebol é um esporte capaz de paralisar uma nação inteira, de mobilizar inúmeras pessoas … Embora isso só aconteça quando falamos sobre futebol masculino. O futebol feminino, infelizmente, é quase desconhecido para a grande maioria da população, mal aparece na mídia, se acontece um campeonato mundial que nem sequer ficamos sabendo, a diferença salarial é totalmente exorbitante… Enfim, sabemos mais sobre equipes masculinas da segunda divisão do que da primeira divisão feminina.

Isso é algo com que as protagonistas do filme terão de lidar, pois, além de enfrentar suas famílias, devem se esforçar para ser respeitadas em um esporte principalmente masculino, onde elas não são levadas a sério. Há muitas cenas que nos convidam a pensar sobre a realidade das mulheres e o papel que atribuímos a elas no esporte, porque parece que as mulheres só podem se destacar em nado sincronizado ou ginástica rítmica.

Cena de 'Driblando o Destino'

No longa, vemos os garotos fantasiando sobre como as garotas se comportam no vestiário, e o filme mostra esse momento com total naturalidade. As meninas, como os meninos, se trocam e falam sobre todo tipo de coisa, desde o futebol até a menstruação, porque no vestiário não há tabus, elas são elas mesmas.

Jess, no início, se mostra um pouco insegura porque, apesar de ter crescido jogando futebol no parque e admirando Beckham como todos os outros, se sente diferente. Ela acredita que todas as garotas recebem apoio na decisão de jogar futebol, mas quando conhece a realidade de Jules, elas perceberão que não são tão diferentes.

Driblando o Destino é um bom filme, que nos faz passar um tempo agradável e nos mostra a possibilidade de convivência harmoniosa entre diferentes culturas, aproveitando o melhor de cada uma. Além disso, nos mostra a luta das mulheres no futebol feminino que, ao contrário do masculino, é um desconhecido total para a grande maioria. Um filme que nos convida a abraçar outras culturas e a compreender que a nossa realidade não é a mesma que a de alguns anos atrás.

“Eu quero que ela lute e eu quero que ela vença. Não creio que ninguém tenha o direito de impedir isso “.
-Pai de Jess-