É verdade que jogos de videogame violentos geram comportamento violento?

O que acontece com os jogos de videogame violentos? O que as pesquisas mais recentes nos dizem? Neste artigo nós te contamos!
É verdade que jogos de videogame violentos geram comportamento violento?

Última atualização: 12 novembro, 2023

São muitas as histórias, notícias e boatos que circulam na internet sobre jovens que assassinam seus pais por causa de jogos de videogame violentos. Por exemplo, no início deste ano, na cidade de Elche (Alicante), um jovem matou seus pais depois que seu acesso à internet foi cortado por causa de suas notas baixas. Como a do menino com a katana, essa história é assustadora, mas é verdade que os jogos de videogame geram comportamentos violentos?

A resposta é complicada. Embora muitos estudos e profissionais defendam há anos que os jogos de videogame, principalmente os mais violentos, geram comportamentos violentos em crianças e jovens, as pesquisas mais recentes mostram que muitos outros fatores entram em jogo quando se trata de explicar o comportamento violento de um determinado sujeito.

Uma relação de causa e efeito entre violência e videogames?

A resolução da American Psychological Association (APA) do ano passado 2015 afirma que “não há evidências científicas suficientes para corroborar um nexo causal entre jogos de videogame violentos e comportamento violento”. Pode-se dizer que o consumo de jogos violentos pode levar ao aumento da agressividade e do comportamento violento? Sim, mas parece que não existe uma relação direta de causa e efeito, já que outros fatores como o ambiente ou o histórico de violência entram em jogo.

A violência é um problema social complicado que geralmente decorre de muitos fatores que merecem a atenção dos pesquisadores”, disse a presidente da APA, Sandra L. Shullman. “Atribuir violência aos jogos de videogame não é cientificamente correto”, continua ele. E é essa afirmação que “desvia a atenção de outros fatores, como o histórico de violência”.

Jogos de videogame violentos

Em primeiro lugar, convém estabelecer o que se entende por violência nos jogos de videogame. É claro que jogos de guerra e tiroteio, como Call of Duty, têm um componente violento inegável. Mas também outros jogos mais abertos, como qualquer um da saga GTA, nos quais são reproduzidos comportamentos racistas, sexo explícito ou outros conteúdos que deveriam estar associados a um controle de idade real.

“Atribuir violência aos jogos de videogame não é cientificamente sólido, desvia a atenção de outros fatores, como o histórico de violência.”

-Sandra L. Shullman-

Outro aspecto que se deve valorizar é o conceito de competição do qual vivem muitos jogos de videogame. Títulos como FIFA ou Rocket League podem não oferecer conteúdo violento, mas o simples fato de viver da competição também pode influenciar o aparecimento de certos comportamentos violentos.

A própria decisão da APA reconhece que existem ligações entre jogos violentos e “resultados agressivos como gritos e empurrões”. No caso de jogos que não contenham violência explícita, esses comportamentos podem ser tão compreensíveis quanto aqueles que podem ocorrer após, por exemplo, uma partida de futebol. Existe uma relação entre certos jogos e esses comportamentos, mas não o suficiente para estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

adolescente com videogames
A competição em alguns jogos de videogame pode dar origem a um comportamento violento.

Geram comportamento violento ou não?

Então, como explicar o comportamento violento em crianças e jovens? É claro que os videogames são um fator a ter em conta, mas também outros como o ambiente social e familiar ou um histórico de violência. Nos trabalhos sobre o tema publicados nos últimos anos, encontramos motivos para pensar que muitas outras investigações não levaram em conta a importância desses outros fatores.

Um estudo realizado na Alemanha em 2019 analisou os comportamentos de 90 voluntários entre 18 e 45 anos. Todos eles jogavam Grand Thef Auto V, Sims 3 ou nenhum diariamente. Depois disso, uma série de pesquisas focadas em comportamentos agressivos e violentos foram realizadas, mas os resultados não mostraram diferenças entre os três grupos.

Pode-se esperar, portanto, que os comportamentos violentos apresentados em certas crianças e jovens sejam explicados por muitos outros fatores. Esta é a conclusão a que chega um estudo publicado no Journal of Economic Behavior & Organization por cientistas da Universidade de Londres, focado em crianças entre os 8 e os 18 anos que jogam o videojogo Call of Duty.

Embora alguns pais afirmem que seus filhos eram mais propensos a quebrar coisas depois de brincar, não parece que isso tenha uma relação direta com a violência. Segundo a principal autora do estudo, Agne Suziedelyte, isso pode indicar que esses tipos de jogos deixam as crianças mais agitadas, mas não necessariamente que incitam à violência. Afinal, os sujeitos não eram mais agressivos com outras pessoas.

Garoto asiático jogando videogame
A maioria dos estudos não indica uma relação direta entre jogos de videogame e violência.

A dificuldade de medir a violência

Outro aspecto fundamental nesse debate é a grande dificuldade de mensurar a violência. Até que ponto se pode estabelecer uma relação direta entre a quebra de determinado objeto ou o manuseio de uma arma de brinquedo com o comportamento violento?

É evidente que o conteúdo que crianças e jovens consomem determina muitos de seus comportamentos. Mas quando se trata de analisar a violência nesse grupo populacional, é mais conveniente analisar outros fatores mais graves relacionados ao nível sociocultural ou ao histórico de violência na família.

Todo conteúdo pode gerar influência em determinados usuários, principalmente entre os mais jovens. Mas, em vez de limitá-lo aos jogos, convém tratá-los como poderosas armas educativas capazes de potenciar capacidades cognitivas como a criatividade, a concentração, a atenção ou o desempenho espaço-visual, entre muitas outras.


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