Agressividade instrumental ou predatória: violência em busca de objetivos

A violência instrumental, diferentemente da reativa, que se deixa levar pelas emoções, é mais fria, premeditada e busca uma série de propósitos. É a usada, por exemplo, por muitos psicopatas.
Agressividade instrumental ou predatória: violência em busca de objetivos

Última atualização: 15 junho, 2022

A agressão instrumental é uma forma de violência na qual o objetivo não é exatamente causar dor física a alguém. Trata-se de algo mais sutil. Nesse caso, o comportamento exercido é frio, segue um plano estabelecido e busca, sobretudo, atingir um objetivo. Quem exerce esse tipo de comportamento é motivado por reforços externos, bem como por uma série de benefícios que espera alcançar.

A ciência comportamental tem um interesse particular por este tipo de perfil por razões óbvias. Sabemos que, para eliminar a violência, devemos primeiramente entender os motivos que a impulsionam. Aquela que é desprovida de qualquer senso de moralidade e que busca exclusivamente obter benefícios dos outros é a mais problemática. E também perigosa.

Dessa forma, quem aproveita ao máximo essa instrumentalização é a personalidade definida pela tríade sombria. Aqueles com altas pontuações em narcisismo, psicopatia e maquiavelismo geralmente são os que mais nos manipulam para obter benefícios sociais, sexuais e, certamente, financeiros. Vamos analisar esses tipos de indivíduos.

“A violência é o último refúgio do incompetente.”

-Isaac Asimov-

Mulher séria pensando em agressividade instrumental
A agressão instrumental é um meio para um fim e, para alcançá-lo, não se poupam meios e estratégias.

Agressividade instrumental: definição e características

A agressividade instrumental, ao contrário da reativa, controla muito bem as emoções e os impulsos. Assim, a pessoa nunca responde de cabeça quente. A violência instrumentalizada é um meio para um fim. Exemplo disso é o criminoso que busca cometer uma fraude ou deixar uma vítima sem as suas economias após manter uma relação afetiva com ela.

Um exemplo clássico que geralmente se menciona a respeito desse comportamento é o que ocorreu alguns meses antes das Olimpíadas de 1994. Durante as provas de patinação artística, aconteceu algo totalmente inesperado. De repente, um agressor atingiu a patinadora Nancy Kerrigan com um cassetete, na altura do joelho. A atleta se machucou, mas não houve nenhuma fratura e ela conseguiu ganhar uma medalha olímpica.

A investigação revelou a história bizarra por trás de tudo. A também competidora Tonya Harding contratou uma pessoa, juntamente com o seu ex-marido, para realizar aquela agressão e tirar a rival do caminho. A personalidade de Harding não só foi objeto de inúmeros filmes, mas também de mais de um estudo, uma vez que se trata de um exemplo claro da violência instrumental clássica.

A agressão instrumental, também conhecida como agressão predatória, é marcada por comportamentos premeditados e meticulosamente planejados que buscam obter uma série de benefícios muito específicos.

A forma mais sofisticada de violência

A agressividade instrumental possui um repertório próprio de comportamentos que a diferenciam de qualquer outro tipo de violência. Embora seja verdade que possa causar danos sociais, emocionais e físicos, isso ocorre como consequência do uso de determinados meios para atingir um objetivo. E o que importa para essas pessoas é conseguir o “seu prêmio” da forma que for possível.

Estas são as características que as definem:

  • Seu comportamento é orientado para objetivos de longo prazo.
  • Podem elaborar planos sofisticados para conseguir o que querem.
  • A psicologia apóia a ideia de que a agressão instrumental pode ser compreendida através da teoria do condicionamento operante de Skinner (Holland & Skinner, 1961). Trata-se de um método de aprendizagem que se consolida unicamente através da associação de reforços (recompensas) e punições a um determinado comportamento.
  • Para alcançar um fim, não hesitam em usar qualquer meio, ainda que ele seja imoral ou criminoso.
  • Sempre assumem uma posição de autoridade sobre os outros.

Desumanizar as vítimas para alcançar um fim

Trabalhos de pesquisa como os realizados na Universidade de Carleton, por exemplo, indicam que a agressividade instrumental e a psicopatia estão relacionadas. Esse comportamento “predatório” é comum nesse tipo de personalidade.

O que mais chama a atenção são os mecanismos mentais que levam à aplicação desse tipo de violência tão inteligente, mas, ao mesmo tempo, premeditada.

  • O que essas pessoas fazem em muitos casos é “desumanizar as vítimas”. Assim, em seus universos psicológicos, privam as pessoas de qualquer indício de sentimentos, direitos e necessidades. Isso torna mais fácil que recorram a qualquer estratégia para alcançar o que desejam. Elas vão enganar, trair, abandonar ou prejudicar para conquistar o que querem.
  • Demonstram empatia instrumental. Ou seja, têm consciência do que os outros sentem, mas não se importam se alguém sofre, está feliz ou assustado. Conectar-se com as emoções dos outros é útil  porque, dessa forma, podem manipular as pessoas.
  • Há uma clara desconexão moral e uma completa falta de remorso ou sentimento de culpa.

As pessoas que usam a violência instrumental tendem a substituir emoções como culpa ou vergonha por sentimentos como o orgulho. Dessa forma, processam qualquer ato desonesto comprometido para alcançar um fim como algo positivo.

mulher acusando homem de agressão instrumental
Desequilíbrios em certos hormônios, tais como testosterona e cortisol, poderiam explicar esse tipo de violência.

Possíveis origens da violência instrumental

Como podemos explicar esse tipo de comportamento? Qual é a sua motivação, o que faz com que apareça em algumas pessoas, mas não em outras? Como sempre acontece em questões comportamentais, tudo se deve a uma combinação de três dimensões:

  • Fatores ambientais, tais como criação, educação e o impacto de possíveis experiências traumáticas na infância.
  • Fatores psicológicos. Conforme apontamos, a tríade sombria da personalidade está relacionada à agressividade instrumental. Também com o transtorno bipolar e o transtorno de personalidade limítrofe (TPL).
  • Por outro lado, é importante falar sobre os possíveis gatilhos biológicos. Trabalhos de pesquisa como o realizado no departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina Mount Sinai, por exemplo, apontam para uma teoria. Existem anormalidades em hormônios, tais como testosterona e cortisol, bem como em neurotransmissores como serotonina e dopamina. Tudo isso estimularia comportamentos com esse tipo de tendência.

Para concluir, exibir comportamentos planejados que buscam um objetivo específico, passando por cima dos direitos básicos dos outros, é algo que acontece diariamente. Existem muitos tipos de violência e, infelizmente, nem sempre percebemos quando se aproximam.

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  • Matthies, S., Rüsch, N., Weber, M., Lieb, K., Philipsen, A., Tuescher, O., … & van Elst, L. T. (2012). Small amygdala–high aggression? The role of the amygdala in modulating aggression in healthy subjects. The World Journal of Biological Psychiatry, 13(1), 75-81.
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