Efeito Spotlight: quando fazemos tempestade em copo d’água

· maio 3, 2019
As pessoas que são vítimas do efeito Spotlight sentem que não podem ter um defeito visível nem cometer um erro, porque os outros parecem estar se fixando constantemente nessas questões apenas para julgá-los e condená-los.

O efeito Spotlight é o nome dado à tendência de exagerar qualquer defeito ou erro, por menor que seja. Quem é vítima desse problema sente como se todo mundo estivesse prestando atenção nele mesmo e julgando até os menores dos equívocos. É típico entre os adolescentes, mas também há muitos adultos que se sentem assim.

Uma pessoa afetada pelo efeito Spotlight sentirá medo se notar que há uma espinha no seu rosto. Imaginará que todo mundo está atento a essa pequena imperfeição e buscará o momento para criticá-la pelas costas. Esse tipo de pessoa é habitada por duas situações aparentemente contraditórias: têm uma baixa autoestima mas, ao mesmo tempo, sentem-se o centro do universo.

“Só se eu me sentir valioso pelo que sou posso me aceitar, posso ser autêntico e posso ser verdadeiro”.
-Jorge Bucay-

Os publicitários conhecem muito bem o efeito Spotlight. Por isso você vê uma infinidade de comerciais nos quais alguém fica excluído ou é julgado se não usa um determinado produto. Essas propagandas mostram cenas nas quais alguém é motivo de piada ou é rejeitado por todas as pessoas ao seu redor por não usar uma determinada marca, ou não realizar uma determinada ação. Quem está obcecado pela opinião dos outros é uma presa bem fácil da manipulação.

Mulher abaixada e triste

Assim é o efeito Spotlight

Para dar uma definição mais precisa, digamos que o efeito Spotlight é a tendência a superestimar as características próprias ou seu comportamento pessoal. Isso acontece porque o afetado sente que qualquer erro, dificuldade ou problema é extremamente chamativo para os demais. A pessoa não se dá conta de que a maioria da humanidade também tem problemas e imperfeições.

Poderíamos afirmar que o efeito Spotlight é uma das faces da paranoia. O paranoico se sente muito especial, diferente, o eleito. Não é que ele tenha narcisismo em excesso, mas sim que ele possui uma culpa excessiva por algo que nem ele mesmo é consciente. Projeta essa culpa nos outros e, por isso, parece que todos o estão julgando constantemente e de forma severa. Além disso, ele compensa esse sentimento de culpa se sentindo falsamente superior.

Esse tipo de pessoa quer manter uma imagem pessoal de que é melhor nisso ou naquilo, e por isso acabam se tornando extremamente dependentes da opinião alheia em dois sentidos. Por um lado, precisam cativar os demais de algum modo; por outro, sentem medo dos outros, pois eles parecem juízes implacáveis.

Uma pesquisa reveladora

Pesquisadores da Universidade Cornell fizeram uma pesquisa sobre o efeito Spotlight. O estudo consistia em reunir um grupo de voluntários e pedir a eles que escolhessem uma camiseta que consideravam vergonhosa. Deviam usá-la um dia inteiro e então calcular quantas pessoas tinham prestando atenção na blusa ridícula.

Após finalizar essa primeira etapa do experimento, foi perguntado a cada um o número de pessoas que havia olhado com um ar de reprovação. Depois disso foi feita uma pesquisa entre os observadores para contrastar esse dado com as respostas dos voluntários.

O resultado foi que muitos voluntários se enganaram de forma bastante significativa ao calcular o número de pessoas que haviam reparado neles. As cifras demonstraram que menos da metade havia de fato reparado na situação.

Garoto se sentindo psicologicamente mal

Como superar o efeito Spotlight

O mais recomendável para superar esse tipo de dificuldade que tem como base o nosso inconsciente é fazer psicoterapia. Também há algumas medidas que podem ser tomadas a curto prazo e que têm bastante eficácia. Algumas delas são:

  • Buscar comprovar a veracidade das suposições. Vale a pena replicar o experimento de Cornell na nossa vida, em pequena escala. Seria interessante cometer um erro proposital ou se propor a fazer algo ridículo, e depois perguntar aos demais se realmente repararam na situação.
  • Analisar os motivos da vergonha. Pode ser positivo pensar por que esse erro ou esse defeito são tão graves quanto parecem inicialmente para você. O que é terrível na situação? O que poderia ser intolerável para os demais?
  • Lembrar das suas virtudes. É recomendável refletir sobre suas próprias virtudes quando você estiver se julgando, seja seu julgamento certo ou errado. O que o torna especial? Por que uma espinha no rosto ou uma mancha na camisa dizem alguma coisa sobre o seu valor?

Seria interessante examinar por que você sente tanta insegurança em relação aos outros. O efeito Spotlight cria raízes em quem ainda não conseguiu se aceitar. Talvez haja algo que te machuca profundamente, mas você ainda não olhou fundo para descobrir o que é. Pense nisso, vasculhe sua memória com uma atitude de observação e não de julgamento. Assim, você poderá se conhecer genuinamente.

  • Bleuler, E., Llopis, B., & Minkowski, E. (1969). Afectividad, sugestibilidad, paranoia. Madrid: Morata.