Encontrar as respostas em momentos difíceis é terapêutico

· maio 31, 2016

Desde que somos pequenos, estabelecemos uma relação inseparável com as palavras. Usamos as palavras para contar histórias, trocar pontos de vista, classificar objetos, encontrar respostas e para dar forma e conteúdo ao nosso diálogo interno (que aparece em séries e filmes representados por um diabo e um anjo).

Todos nos lembramos de uma cena típica dos filmes, quando um personagem precisa decidir o que fazer, e o anjo e o diabo começam a trocar argumentos sobre o que é certo ou errado.

Na nossa mente, além de trabalhar com a linguagem dessa forma, podemos usá-la para inventar histórias. Isto é assim porque a realidade, muitas vezes, chega em forma de pistas, como se fôssemos detetives, e somos nós que precisamos completar o quebra-cabeças.

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A história de Ana

São sete horas e o despertador toca como em todas as manhãs. Ela acorda, se vira e aguarda o alarme tocar novamente daqui a cinco minutos. Mas, o que é melhor: tomar o café da manhã tranquilamente ou cinco minutos a mais de descanso?

Nesses cinco minutos, pensa em tudo o que precisa fazer nesse dia e busca um momento de paz. O despertador toca novamente e se levanta rapidamente; liga o piloto automático e começa com uma tarefa rotineira atrás da outra.

Acorda já no metrô, quando uma terrível explosão a faz voar pelos ares. São apenas três segundos e voltará a dormir. Acordará três dias depois com o ruído constante de uma máquina, que demonstra que o seu coração ainda continua batendo.

Depois disso, Ana nunca mais voltará a ser a mesma. Dormirá a duras penas e sua atenção estará sempre ativa. Aprendeu que tudo pode mudar em “um piscar de olhos”. É como se a vida que amamos tanto, guardasse seus truques de magia desastrosos.

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Ana não entende a sua história

“Por que aconteceu no metrô que pego todos os dias? Por que nesse dia não me levantei mais cedo? Por que não morri, como alguns dos meus companheiros de vagão?” São perguntas que a atormentam e para as quais precisa de respostas.

Existem lacunas na sua história que transformaram seu mudo seguro em um lugar cheio de potenciais ameaças disfarçadas, escondidas atrás de gestos inocentes. O mundo deixou de ser um lugar controlável e previsível. Qual é o sentido se tudo pode desaparecer em um instante?

Ana precisa curar-se

Ana não precisa curar somente as suas feridas físicas, mas voltar a se sentir em segurança. Uma segurança que não sentirá se não encontrar respostas para todas as suas perguntas, se não for capaz de completar a história dessa manhã. Precisará ter a certeza de que os culpados serão punidos e não voltarão a atacar novamente.

É curioso, mas muitas vezes as superstições têm um valor incalculável. Imaginemos que Ana se lembra que nesse dia se levantou com o pé esquerdo; ela não é supersticiosa, mas na sua mente se estabelece uma relação entre os fatos.

Uma associação que é uma mentira e não tem qualquer lógica, mas que para ela é fantástica. Ana entende que se levantar-se com o pé direito, isto nunca mais irá acontecer. Dessa forma, ela transformou um fato incontrolável em algo controlável que vai conseguir acalmá-la.  Ela encontrou uma causa sobre a qual pode atuar e isto é simplesmente fantástico.

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