O engano de viver a minha vida sem mim - A Mente é Maravilhosa

O engano de viver a minha vida sem mim

dezembro 27, 2016 em Psicologia 905 Compartilhados
O engano de viver a minha vida sem mim

Como em todos os amanhãs, a minha vida se reinicia. Depois de correr pelo calçadão, eu entro no chuveiro e ligo a torneira na água fria. Fico cinco minutos parada enquanto a água gelada desliza pelo meu rosto e percorre todo o meu corpo. Deixo a marca dos meus pés molhados no tapete e tomo cuidado para não deixar cair uma gota do lado de fora.

Aperto o botão do secador, e enquanto minha imagem se reflete pouco a pouco como em uma fantasia no círculo do espelho emoldurado pelo vapor, tento me reconhecer em uma imagem que sempre me parece alheia. Deixo resvalar e passo lentamente o óleo entre as gotas de água desenhadas na minha pele, sem esquecer um único centímetro, desde os dedos dos pés até às orelhas.

Minha imagem se reflete aos poucos como se fosse em uma fantasia

Depois passo a maquiagem, seguindo os passos em perfeita ordem, como se estivesse pintando um quadro único que iria a leilão. Primeiro o rosto, para ir focando nos olhos com a mesma expressão de vida que um Modigliani, destacando a forma de amêndoas dos mesmos, esculpindo os meus cílios até o infinito e além.

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Sempre acabo na boca, carnuda e bem definida, com o vermelho que mais destaque e desafie a luz do dia e a estação. O cabelo penteado para o lado direito, com uma mecha grande de cabelo puxado para trás da orelha. Termino escovando os dentes, passando o fio dental e enxaguando por cinco minutos.

O ponto final, duas borrifadas do meu perfume favorito em cada orelha, uma em cada punho e outra entre as coxas.

Abro a geladeira e faço um suco de vegetais e frutas sazonais, bebo um pouco e esquento uma xícara de chá verde. Escolho um par de sapatos de salto alto, coloco um dos anéis da minha coleção de esmeraldas no dedo do meio da mão direita. Não gosto de vê-lo combinado com a aliança de casada na mão esquerda.

Pego a minha bolsa, desço para o estacionamento, me sento na bolha perfumada e brilhosa do meu Bentley azul marinho, aperto o play e começa a tocar a música “Barcarolle” de Offenbach, e vou mais uma vez para o escritório dirigindo. Às vezes antes de sair me esqueço de ler o bilhete que o meu marido me deixa todas as manhãs. Quando isso acontece, chamo a moça da limpeza para que ela abra, não quero que ele o encontre fechado quando chegar. Sempre fui desatenta a minha vida toda, até nos detalhes mais bobos, incluindo os detalhes importantes.

Quando entro no escritório, coloco a minha vida em cima do relógio da rotina

Chego ao meu escritório, desde a recepção passando pela fila de mesas que levam ao meu departamento, uma escala crescente de movimentos segue cada um dos meus passos: noto como cada funcionário senta com as costas retas na cadeira, com os rostos ainda salpicados por esse tom que indica falta de sono. Eles me cumprimentam com um sorriso que sempre noto ter um pouco de tensão e medo, o que me faz sentir poderosa ao vê-los miseráveis.

Minha jornada de trabalho deve ser sempre do mesmo modo, à minha maneira, com meus ritmos, de uma forma altamente eficaz e resoluta, sem nenhuma margem de erro; caso contrário eu me altero e o meu sangue frio entra em ebulição, inclusive chego a demitir algum funcionário.

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Quando chego em casa, sirvo uma taça de vinho e fumo um par de cigarros no terraço, enquanto observo as luzes dos edifícios mais altos da cidade, debaixo do meu. Meu marido vem até mim e me abraça, sinto náuseas enquanto ele faz isso, estou desejando que chegue o fim de semana para que, “por questões de trabalho”, eu tenha que me ausentar, para na realidade estar nos braços do meu amante.

Nada me faz sentir mal, absolutamente nada, só às vezes quando vejo alguma pessoa sorrir, alguma coisa se estremece dentro de mim, porque não sei quando nem por que esqueci esse gesto. Às vezes, como agora, vou para frente do espelho e ensaio um sorriso, mas é quando eu desmorono ainda mais, porque esse sorriso não é meu, porque essa emoção sai grotescamente triste.

Só de ver uma pessoa sorrir, algo estremece dentro de mim

Porque ao me ver assim, despersonalizada diante do espelho, penso que sou uma fachada bonita restaurada mascarando um edifício em ruínas, uma fruta conservada artificialmente em uma câmara, que ao ser levada para a luz, se decompõe por falta de vida. É só agora, quando me vejo nua diante de mim e diante de quem quiser ler isso, que me sinto mais vulnerável e frágil.

Mas quero que vejam isso, quero que saibam, quero escrever, gritar amanhã assim que entrar no escritório: “Senhores, eu não sou ninguém, estou morta, vivo a minha vida sem mim!”. Quero gritar isso, sair à rua e abraçar todo mundo que eu encontrar e implorar que me digam como eles fazem para serem felizes.

Duas lágrimas, apenas duas, escorrem pelas minhas bochechas. Então, uma espécie de calma me envolve e me surge uma pergunta que talvez pode também levar à resposta de outras questões: por acaso este não é o princípio para eu me encontrar onde quer que esteja?

só espero que amanhã, quando eu acordar, minha armadura não volte a se fechar novamente e continue me enganando, me trancando e me algemando dentro de mim mesma. Como tem feito até agora, cativa e cega dentro de uma existência ostentosa, que me retorce e machuca, me fazendo esquecer tudo o que agora eu vos escrevi chorando.

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