Ensinar através da moldagem

A moldagem é uma técnica útil para ensinar novos comportamentos a partir de acercamentos. Ela permite um aprendizado com menos frustração e raiva, por ser mais lento e preciso. Neste artigo explicaremos do que se trata e como aplicá-la da maneira mais eficaz, tanto em crianças quanto em adultos.
Ensinar através da moldagem

Última atualização: 20 janeiro, 2022

A moldagem – é importante não confundir com modelagem – é uma técnica comportamental muito útil para o treinamento de novas atividades.

Muitas vezes presumimos que, ao indicar as diretrizes de uma tarefa, a pessoa que está diante de nós será capaz de compreender o que dizemos e saberá realizá-la. Nem sempre é esse o caso e geralmente isso é uma fonte de conflito, pois usualmente julgamos que a pessoa não quis realizar a tarefa, quando na verdade ela simplesmente não sabia como fazer isso.

A moldagem é comumente aplicada em crianças, mas a implementação dela também pode ser eficaz em adultos. Ela é baseada em um sistema de reforços e punições, e pode ser tão poderosa em um quanto no outro.

Pai fazendo a lição de casa com a filha.

Em que consiste a moldagem?

A moldagem é um procedimento que busca o desenvolvimento de comportamentos que o indivíduo não sabe executar. Este desenvolvimento é alcançado por meio de aproximações sucessivas do comportamento final a ser alcançado. Como essas aproximações estão mais próximas do comportamento final, as anteriores se extinguem —ou deixam de se reforçadas—.

Geralmente a moldagem é realizada com um comportamento como objetivo, mas sem tentar ensiná-lo desde o início. Começam a ser reforçados comportamentos – cuja proporção de aparecimento deve ser maior que 0 – que tenham algum tipo de relação com a conduta final. Esse comportamento não deve ser igual, mas precisa ter algo em comum topográfica e funcionalmente.

Uma vez escolhida a primeira aproximação, ela deve ser reforçada sempre que aparecer. Por ser reforçado, é normal que comece a ocorrer com maior frequência, pois o indivíduo desejará obter mais reforço. Por fim, o comportamento deixará de ser reforçado em detrimento de um mais próximo do comportamento final desejado.

Moldagem natural: o aparecimento da linguagem

Um exemplo de moldagem natural em humanos é a aquisição da linguagem em bebês. Quando uma criança começa a balbuciar os primeiros sons, os pais costumam ficar entusiasmados e, portanto, reforçam esses pequenos avanços.

O balbucio normalmente é recompensado com carinho e atenção, até que a criança comece naturalmente a desenvolver os primeiros fonemas. Se em vez de balbuciar a criança pronunciar sílabas como “ma” ou “pa”, esse novo comportamento será reforçado.

O balbucio já não será tão importante, e o reforço da atenção e do afeto não será obtido com ele. Isso significa que esse reforço se torna cada vez mais exigente. Isso ocorre em sucessão até que a criança aprenda a falar de forma conveniente.

Seria tolice tentar fazer a criança recitar versículos de John Keats desde muito nova. Da mesma forma, certas ações que muitas vezes são exigidas das crianças devem ser ensinadas com moldagem e aproximações, e não de outras formas mais diretas.

O que pode ser ensinado ou modificado por meio da moldagem?

Como mencionado anteriormente, a moldagem é muito útil quando se deseja ensinar novos comportamentos. Isso não se refere apenas a comportamentos que a pessoa realiza de forma inconsciente, mas também àqueles que ela executa de forma errada. Portanto, o comportamento é suscetível de ser modificado em cinco aspectos diferentes:

  • Topografia: se a intenção é alterar a maneira específica como o indivíduo executa uma ação. Embora conheça o comportamento, busca-se modificar os movimentos específicos envolvidos nele. Por exemplo, quando uma pessoa anda com passos curtos para não cair e deseja-se que ela comece a dar passos mais longos.
  • Frequência: a moldagem também é útil para aumentar ou diminuir o número de vezes que um comportamento conhecido é executado.
  • Duração: esta técnica também é útil para reduzir ou aumentar a duração de um comportamento. Por exemplo, a quantidade de tempo que uma criança fica sentada em uma mesa estudando ou em sala de aula pode ser moldada.
  • Latência: latência é o tempo que decorre entre o aparecimento de um estímulo e a emissão de uma resposta. Um comportamento pode ser moldado de forma a aparecer o mais rápido possível para um estímulo específico. Isso pode ser aplicado para ensinar as crianças a irem ao banheiro sozinhas.
  • Intensidade: a força com a qual um comportamento é realizado pode ser moldada. Por exemplo, no caso de uma menina com poucos amigos ou isolamento social, seu tom de voz pode ser moldado por meio de aproximações sucessivas para que aos poucos se torne mais intenso.

Fatores que influenciam na eficácia

Especificação de uma meta

Para que a moldagem seja feita corretamente, é importante definir o comportamento final que se deseja obter. A definição deve conter parâmetros como topografia, intensidade ou latência para que as aproximações sejam feitas corretamente.

Por exemplo, o comportamento a ser alcançado pode ser que Tereza, ao chegar à aula, tire o material de que precisa da mochila, coloque-o sobre a mesa e se sente à espera da professora.

Estabelecimento de um ponto de partida

É importante estudar o repertório individual da pessoa para saber quais condutas se assemelham ao comportamento final. Por sua vez, é importante verificar se esse comportamento está sendo reforçado o suficiente. A conduta deve ser semelhante topograficamente (na forma) ou funcionalmente à conduta final.

Nesse mesmo exemplo, uma primeira aproximação de Tereza pode ser que ela deixe a mochila no banco e saia para correr pela sala de aula. Ter como objetivo que ela não corra desde o começo pode dar errado ou até mesmo se provar inútil.

Por isso o ideal é começar reforçando que ela deve deixar a mochila no lugar ao invés de jogá-la no chão ou levá-la para correr. Essa pode ser uma primeira abordagem que ela já tem em seu repertório e que aparece todas as manhãs.

Planejamento das aproximações

É útil planejar com antecedência o período entre as aproximações e a velocidade com que elas são feitas. Não existem recomendações para isso, portanto, quem administra a moldagem deve compreender as características do indivíduo.

Deve-se ter cuidado ao escolher as aproximações intermediárias e o número delas. Às vezes as pessoas respondem mais lentamente do que gostaríamos, mas temos que ser flexíveis e nos adaptar aos processos delas.

As abordagens intermediárias de Tereza podem ser deixar a mochila no assento, abri-la e remover o estojo; quando ela souber como fazer isso, não apenas tirar o estojo, mas colocar as canetas sobre a mesa; e em seguida que ela não apenas os coloque, mas selecione os que vai usar… E assim por diante.

Menina tirando coisas da mochila.

Garantir o reforço

Não existem orientações para o número de reforçadores ou a topologia destes. No entanto, deve ficar claro que é importante reforçar a aproximação muitas vezes até que ela esteja bem estabelecida. Não é suficiente reforçar uma vez e ir diretamente para a próxima. A pressa não ajuda no processo.

Também é importante não reforçar em excesso. Se essa prática for exagerada, não tanto em quantidade, mas em termos de continuidade ao longo do tempo, mais difícil será o surgimento de comportamentos mais avançados.

Por fim, se a passagem de uma aproximação para outra foi muito rápida e a pessoa não souber como fazer a tarefa, não tenha medo de voltar, reforçar e propor outra aproximação menos distante.

Paciência em vez de punições

Embora essa seja uma técnica que exige paciência, ela é apresentada como uma ferramenta benéfica para ensinar comportamentos sem ter que recorrer à frustração ou a erros de julgamento. Os adultos, assim como as crianças, podem não saber como chegar a um comportamento final se o caminho que leva a ele não estiver dividido em etapas.

A moldagem permite ensinar de forma clara, concisa, aos poucos, esclarecendo dúvidas e de forma segura e controlada. Não são necessários esforços hercúleos já que essa técnica é feita aos poucos, até que, sem perceber, a pessoa saiba fazer o que tanto lhe custava aprender.

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